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Blog do Gesner Oliveira

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Tem uma frente fria chegando da Argentina

Gesner Oliveira

05/09/2018 18h10

Um jantar em Nova York em um restaurante de custo mediano, destes que o aplicativo coloca um cifrão, poderia custar US$ 80, o equivalente a 1350 pesos argentinos há um ano. O mesmo jantar hoje custaria 3100 pesos argentinos.

Isso dá uma ideia do efeito de redução do poder de compra internacional dos argentinos com a forte depreciação da moeda nacional nos últimos 12 meses. O peso argentino perdeu um pouco mais de 100% do seu valor desde o início do ano em relação ao dólar. Só para comparar: o real perdeu 28% no mesmo período.

É claro que o efeito vai muito além de um jantar em Nova Iorque. Um dólar mais caro significa custos mais elevados das matérias-primas, das importações em geral, dos custos de transporte, pressões de alta dos salários para recomposição, e portanto, aumentam os custos da economia, que repercute em uma inflação mais elevada. A inflação na Argentina em 2018 deve fechar em mais de 30%.

A Argentina não é necessariamente o Brasil amanhã. As contas externas no Brasil estão mais equilibradas, as reservas internacionais chegam a quase US$ 400 bilhões, a inflação está baixa e os juros de 6,5%, apesar de altos, nem se comparam com os 60% da Argentina.

Mas a doença argentina causa problemas ao Brasil. A indústria brasileira perde mercado, especialmente as exportações de manufaturados. O setor automotivo com sabidos efeitos de encadeamento é particularmente atingido. Um exercício econométrico sugere que para cada ponto percentual de queda na produção argentina representa 0,24 ponto percentual de redução no PIB brasileiro.

O pacote de ajuste do governo Macri que inclui um acordo com o Fundo Monetário Internacional implicará uma estagnação ou retração da economia no curto prazo. Este é o melhor cenário. No pior, o pacote dá errado, aprofunda-se a crise e a economia colapsa de vez.

A crise argentina custará empregos ao Brasil. Portanto, caro leitor, esqueça o futebol e torça pelo melhor para o país de Messi.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.