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Recessão acabou, mas já dá mostras de que pode voltar
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Gesner Oliveira

A recessão acabou, mas não há muitos motivos para se comemorar. O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre deste ano, depois de oito trimestres consecutivos de queda.

Quando a economia parecia estar voltando aos trilhos a nova crise política balançou o país e trouxe muitas incertezas com relação ao futuro. No pior cenário, de paralisia das reformas no Congresso e dos investimentos em infraestrutura, o PIB poderia cair até 2%, levando o país a um terceiro ano consecutivo de recessão.

Além do PIB, nas últimas 24 horas houve outras duas notícias que deram certo alívio à economia, mas que pouco dizem sobre o que pode ocorrer ao longo de 2017. A Pnad contínua surpreendeu positivamente e mostrou uma leve melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego saiu de 13,7% no trimestre encerrado em março para 13,6% no trimestre encerrado em abril. O número de desempregados recuou de 14,2 milhões para 14 milhões, enquanto o número de ocupados apresentou alta de 88,9 milhões para 89,2 milhões.

Apesar dos números positivos, não dá para celebrar. O crescimento do pessoal ocupado foi puxado por ocupações como conta própria (+167 mil), setor público (+140 mil), informal (+77 mil) e trabalhador doméstico (+44 mil). O trabalho com carteira assinada, por exemplo, recuou 120 mil em relação ao trimestre encerrado em março. Com isso, o estoque de trabalhadores CLT atingiu 33,3 milhões, o menor valor desde o início da série em 2012.

O número de pessoas que entrou no mercado de trabalho diminuiu no último mês, o que também ajuda a conter o aumento do desemprego. Desacelerou o crescimento da população em idade ativa, capaz de trabalhar: depois de crescer 1,37% em março, desacelerou para 1,22% em abril.

Se a política não atrapalhar, o segundo semestre deve mostrar um início mais consistente do processo de recuperação do mercado de trabalho. Mas se o nevoeiro ficar mais forte, essa melhora fica ameaçada. Em vez de serem criados 150 mil empregos neste ano, como era previsto antes da delação da JBS, poderá haver perda de 760 mil postos com carteira assinada, diferença de 910 mil vagas. No pior cenário, o número de desempregados pode superar 16 milhões no final do ano.

Outro refresco foi a decisão de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa de juros em 1 ponto percentual. A taxa básica de juros da economia, a chamada Selic, passou de 11,25 para 10,25% ao ano.

O corte poderia ter sido mais agressivo, não fosse a instabilidade política. As incertezas com relação ao avanço das reformas e seus efeitos negativos sobre o preço do dólar tornaram o Copom mais cauteloso. O comunicado, inclusive, aponta um futuro incerto: diante da maior incerteza, o Copom deverá reduzir o ritmo de queda dos juros.

Fazer projeções econômicas hoje no Brasil é como dirigir sob forte nevoeiro. Você não consegue enxergar um metro à frente! O único jeito é ir devagar, quase parando. Olhar no retrovisor para prever o futuro nem sempre ajuda. Há alguns meses, quando olhávamos para trás, a gente via o PIB cair, mas as expectativas eram positivas. Agora o PIB subiu, mas pode voltar a cair nos próximos trimestres. Eis o perigo de uma crise prolongada nublando o horizonte de planejamento. A economia pode parar.


Menos gastos em vez de mais impostos
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Gesner Oliveira

O governo anunciou que para cumprir a meta de déficit em R$ 139 bilhões em 2017, faltam R$ 58,2 bilhões adicionais. Para atingir esta meta, o governo tem duas opções: elevar impostos ou reduzir os gastos, ou uma combinação dos dois.

Estes R$ 58,2 bilhões são resultados da reavaliação do governo das contas públicas que acontecem todo bimestre. Devido a uma retração maior da economia, espera-se uma arrecadação menor de R$ 54,8 bilhões nas receitas do governo. O restante (R$ 3,4 bilhões) se referem a gastos maiores do que originalmente previstos.

Em tempos de ajuste fiscal este é um dilema típico.  Historicamente, a resposta a esta questão no Brasil tem sido a de aumento de impostos; ou sob a forma explícita ou mediante o pior e mais injusto dos impostos que é o imposto inflacionário.

Em 1999 e 2003, em dois momentos de ajustes fiscais, a opção foi, principalmente, pelo aumento da carga tributária. É esta, em geral, a escolha dos governos. O Governo Temer tem surpreendido em várias áreas. Poderia romper esta tradição. Neste momento, não deve ser muito diferente. O terreno já foi preparado para uma possível alta nos impostos.

O contribuinte brasileiro já é um dos que mais pagam impostos do mundo. A carga tributária por aqui é aproximadamente 34% do PIB e coloca o Brasil entre os quinze países com as maiores taxas do mundo. A média dos países emergentes é de cerca de 25%. O aumento de impostos não parece razoável.

Este, por si só, já é um bom argumento, mas há outros. Quando comparado ao aumento de impostos, o corte de gastos é uma melhor alternativa.

Estudo feito pelos economistas Alberto Alesina e Omar Barbiero compara grandes economias que passaram por ajustes fiscais entre 1978-2007. Analisa-se a diferença no crescimento do PIB quando o ajuste é feito por corte de gastos ou aumento de impostos.

Aumentos dos impostos tiveram efeito extremamente recessivo na economia dos países. Impostos mais altos significam mais custos para a economia, o que diminui as transações e afeta diretamente a produtividade. Por outro lado, os ajustes fiscais baseados em cortes nos gastos foram muito menos onerosos, em termos de perdas de produção.

Aumento de impostos em 1% do PIB impactou em -3% o crescimento da economia. Por outro lado, o corte nos gastos de 1% do PIB gerou recessões pequenas e, em alguns casos, não teve impacto significativo sobre o produto

É positivo que o governo cumpra a sua meta fiscal, que por sinal é um déficit bastante considerável. Mas para isso, é recomendável que o máximo possível seja através do corte de gastos e não do aumento de impostos. Milton Friedman, vencedor do Nobel de Economia em 1976, costumava dizer que a melhor maneira de evitar aumento de gasto é evitar a solução fácil de aumentar imposto. Quando há receita, a máquina governamental sempre acha um jeito de gastar.

É difícil cortar gastos, mas a sociedade brasileira não aguenta mais a derrama. Várias prefeituras e estados têm inovado e feito mais com menos. É hora da União fazer o mesmo.


Carne Fraca pode eliminar 420 mil empregos
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Gesner Oliveira

Em um momento em que a economia começa a dar sinais de recuperação, as revelações da Operação Carne Fraca representam um ponto de preocupação a exigir resposta ágil de todos: governo, setor privado e a própria mídia.

A Operação Carne Fraca caiu como uma bomba na última sexta. Cancelamentos de churrascos pelo país foi o de menos. O problema reside nos efeitos em cadeia que um escândalo dessa natureza gera na economia.

Há várias dimensões a serem consideradas. Em primeiro lugar, é evidente que no mercado doméstico, que representa cerca de 80% do consumo da carne brasileira, a apreensão do consumidor seja enorme. No mercado internacional, a situação é ainda mais grave. Até agora, Chile, China, Coreia do Sul e União Europeia já anunciaram que desejam barrar as importações e que vão intensificar a vigilância. A carne é um dos produtos de destaque da pauta de exportação do Brasil, representando o terceiro complexo de vendas externas, depois da soja e do minério de ferro.

Em segundo lugar, as duas principais empresas do setor, Brasil Foods e JBS, são empresas de capital aberto com ações cotadas em bolsa. Qualquer dúvida sobre a qualidade do produto e seus efeitos faz os preços das ações mergulharem. A perda de valor das duas empresas chegou a cerca de R$ 6 bilhões na última sexta.

Em terceiro lugar, é preciso considerar o efeito sobre a cadeia produtiva. Qualquer variação de um dos componentes da demanda agregada da economia – é o caso das exportações –  tem efeitos diretos, indiretos e sobre a renda. Utilizando a matriz insumo produto do IBGE, as economistas Andréa Curi e Mariana Orsini da GO Associados dimensionaram o dano potencial.

Os resultados são preocupantes. Uma possível redução de 10% das exportações de carne acarretaria uma redução do valor da produção de R$ 13,9 bilhões, da massa de salários de R$ 2,3 bilhões, da arrecadação de R$ 1,1 bilhões e – mais grave – a perda de quase 420 mil postos de trabalho.

Para evitar tais custos é essencial que os setores público e privado e a mídia se mobilizem. Em torno de três pontos: profundidade nas investigações, rigor nas punições e transparência nas informações para os vários públicos envolvidos. O estrago está feito. Mas ainda é possível minimizar o prejuízo.


Traduzindo o Copomês: como a ata do Copom afeta suas finanças
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Gesner Oliveira

O Banco Central divulgou hoje a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada nos dias 28 de fevereiro e 1° de março. Nesta reunião o Copom decidiu reduzir a taxa Selic em 0,75 ponto percentual (“pp”), passando de 13% para 12,25% ao ano.

A cada 45 dias, em média, acontece a reunião do Copom que define a taxa básica de juros da economia (Selic). E a cada 45 dias o Copom libera a ata da sua reunião recheado de termos econômicos, em Copomês. Para quem não é familiarizado com os termos, entender a ata é quase uma prova de interpretação de texto. Embora seja cheio de termos técnicos, é importante saber o que diz a ata, pois o documento sinaliza como o Banco Central deve alterar a taxa básica de juros da economia, fato que tem impacto no bolso do brasileiro diariamente.

A ata da última reunião envia a seguinte mensagem: o Copom abre possibilidade para corte de 1 pp na próxima reunião, apesar de não se comprometer. Com isso, a taxa que está em 12,25% aa tem grande chance de ir para 11,25% na próxima reunião que acontecerá nos dias 11 e 12 de abril. Será a menor taxa desde outubro de 2014. Esta mensagem está no seguinte trecho:

“O Copom ressalta que uma possível intensificação do ritmo de flexibilização monetária dependerá da estimativa da extensão do ciclo, mas, também, da evolução da atividade econômica, dos demais fatores de risco e das projeções e expectativas de inflação”.

Percebeu o Copomês? O documento reforçou alguns pontos já levantados no comunicado pós-reunião. Segundo a ata, há sinais mistos para o comportamento da atividade econômica e uma perspectiva de retomada gradual, conforme o trecho:

“A evidência sugere uma retomada gradual da atividade econômica ao longo de 2017. A economia segue operando com alto nível de ociosidade dos fatores de produção, refletido nos baixos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa de desemprego”.

Além disso, o processo de desinflação está difundido pela economia o que significa que não é exclusivo da queda de preço de alguns itens específicos, mas de um conjunto amplo de produtos.

A ata ainda traz a projeção de inflação para 2017 e 2018. No cenário de mercado (taxa Selic e câmbio de acordo com o boletim Focus), a inflação ficaria em 4,2% e 4,5%, respectivamente. No cenário de referência (taxa Selic e câmbio constantes) a projeção é de 3,8% e 3,3%, na mesma ordem. Ambos os cenários mostram uma inflação abaixo da meta de 4,5%.

Mas o que mais é necessário para o Banco Central reduzir a taxa Selic em 1 pp já na próxima reunião?

Segundo o Copom, as reformas econômicas propostas pelo governo são capazes de reduzir a taxa estrutural de juros da economia e, portanto, é uma condição necessária para isso. A taxa estrutural de juros é aquela que gera crescimento econômico sem causar pressão inflacionária.

Outro ponto é que persistam a alta ociosidade dos fatores de produção, inflação em queda e as expectativas de inflação bem comportadas.

Por fim, os membros do Copom preferiram deixar em aberta a decisão para a próxima reunião, e que esta dependerá do cenário econômico. Não quiseram se comprometer com um corte mais forte de juros na próxima reunião, mas caso o ambiente econômico continue favorável, em especial, com o dólar se aproximando dos R$ 3,00, o órgão deve intensificar o ritmo e reduzir a Selic em 1 pp.

Se isso ocorrer a recuperação da economia tem mais condições de ganhar fôlego e, mais para frente, as oportunidades de emprego podem voltar. Esta é a esperança de todos brasileiros, versados ou não em Copomês.


A recessão acabou. Mas e o desemprego?
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Gesner Oliveira

O cenário para 2017 é animador. Taxa de juros em queda, inflação sob controle e um crescimento positivo do PIB depois de dois anos de recessão. Porém, a realidade da economia real e do mercado de trabalho é outra.

Do total dos 54,3 milhões de trabalhadores empregados no setor privado, 10,4 milhões estão sem carteira de trabalho, número 6,4% maior comparado com o mesmo período de um ano atrás. Além do aumento da informalidade, aumentou-se o número de trabalhadores autônomos, os chamados, trabalhadores por conta própria. Ao todo eles representam 22,2 milhões de pessoas, aumento de 3,9% em relação ao ano anterior.

Além do aumento do número de desempregados, aumento da informalidade e o número de funcionários autônomos, chama atenção a taxa de subocupação que atingiu 12 milhões de pessoas ao final de 2016. Esta taxa mostra o número de pessoas que trabalhavam menos horas do que gostariam. Com isso, a subutilização – taxa que soma o número de pessoas desempregadas mais o número de pessoas que trabalham menos horas do que queriam – somou 24,3 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2016.

O número de desempregados atingiu 12,9 milhões em janeiro, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, um em cada cinco brasileiros desempregados estão há dois anos ou mais procurando trabalho. Este número representa 2,3 milhões de brasileiros do total de 11,7 milhões que, na média, de 2016, procuram sem sucesso a recolocação no mercado de trabalho.

A taxa de desemprego que atingiu 12,6% era 9,5% no mesmo período de 2016, um aumento de 3,1 pontos percentuais. O número é surpreendente. Desde o início da série histórica em 2012, esta é a maior taxa registrada até hoje.

O primeiro semestre deste ano marca o início da retomada na economia do país. Se alguns indicadores econômicos recentes mostram a saída da recessão, o olhar detalhado sobre os dados do mercado de trabalho mostra que o brasileiro ainda tem um longo caminho até sentir a melhora no bolso. Ao que tudo indica essa virada será no segundo semestre de 2017.


O que pode dar errado na economia?
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Gesner Oliveira

O título parece pessimista, mas é útil fazer cenários em que tudo pode dar errado para planejar suas finanças. Após nove meses do Governo Temer, o cenário aponta para um período de recuperação. Os sinais estão presentes na queda consistente dos índices de inflação, puxada em grande medida pela perspectiva de uma safra agrícola recorde; na melhora dos termos de troca de produtos de exportação brasileiros, com destaque para o minério de ferro; e na queda da taxa de juros da economia.

Tais fatores são suficientes para haver um grau moderado de otimismo em relação ao processo de retomada da atividade já no primeiro trimestre deste ano. Estima-se que o PIB deva crescer 0,3% na margem, isto é, em relação ao último trimestre de 2016. O cenário otimista se reflete nos índices de confiança do setor empresarial, que têm melhorado nos últimos meses. O Indicador de Confiança do Empresário Industrial, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), aumentou 3 pontos entre janeiro e fevereiro e chegou ao patamar de 53,1 pontos. Índices acima de 50 pontos indicam otimismo do mercado.

Entretanto, a manutenção desse sentimento e o vigor da recuperação dependem de três fatores principais. Primeiro, o avanço das reformas. Em boa medida, não é exagero dizer que parte significativa da melhoria recente das expectativas econômicas está ancorada na confiança de que as reformas avançarão em ritmo adequado. O principal parâmetro de avaliação do Governo Temer continua sendo a capacidade de aprovar a agenda econômica no Congresso, especialmente a reforma da Previdência.

Segundo, uma sintonia fina da política monetária e cambial que evite apreciação excessiva do real, abortando a recuperação da indústria. O dólar mais barato é positivo para o controle da inflação e reflete boas expectativas de investidores externos com relação ao Brasil, além de ser também uma boa notícia para aqueles que irão fazer compras no exterior, mas tem efeitos negativos na indústria.

É verdade que este segmento precisa inovar e se tornar mais competitivo independentemente da política cambial. Mas isso demanda tempo e a concretização das reformas modernizantes mencionadas anteriormente, especialmente a trabalhista e a tributária. Não dá para participar da maratona da globalização carregando um peso no calcanhar (e que peso!).

Por fim, a construção de um projeto político de médio prazo que legitime o atual programa de ajuste da economia, afastando o risco de retrocesso populista. Recente pesquisa de popularidade divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que a avaliação positiva do presidente Michel Temer caiu de 14,6%, em outubro do ano passado, para 10,3%. A mesma pesquisa revelou que o ex-presidente Lula continua liderando o voto espontâneo para as eleições presidenciais de 2018.

Embora seja cedo para qualquer cenário político eleitoral mais sério para as próximas eleições, a falta de uma alternativa eleitoral consistente com a continuidade da política econômica atual pode afetar as expectativas. Afinal, muitos investidores poderão perguntar: é verdade que o Brasil está entrando nos trilhos, mas não há risco de descarrilamento a partir de 2019? Não há bola de cristal que contenha essa resposta.

Portanto, surgem sinais de que o pior já passou, mas muita coisa ainda pode dar errado na economia. 2017 pode representar um ponto de inflexão e uma virada positiva, mas isso depende da capacidade do governo em avançar com as reformas, de garantir uma sintonia fina entre a política monetária e cambial e de recuperar a credibilidade e confiança da população.


O que decidirá o Copom?
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Gesner Oliveira

Eis a questão mais relevante para a economia nesta semana de pré-Carnaval. A decisão dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), que será anunciada amanhã no final da tarde, afetará suas dívidas, suas aplicações financeiras e a capacidade de a economia recuperar a produção, e o mais importante, o emprego.

Do ponto de vista técnico, haveria condições para reduzir a taxa primária de juros, a chamada Selic, em 1 ponto percentual. Isto levaria a Selic dos atuais 13% ao ano para 12% ao ano.

Isso se deve à redução da taxa de inflação. As projeções do mercado nesta semana apontam para uma inflação em 2017 de 4,43%, inferior à meta de 4,5%, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Foi a sétima redução consecutiva das expectativas do mercado.

Três fatores têm colaborado para este comportamento da inflação. Primeiro, a forte recessão, que produziu uma ociosidade média na indústria de 26% em 2016, chegando a mais de 40% em alguns casos, como o da indústria de cimento, com 43%. Segundo, a queda do preço do dólar, barateando os preços dos produtos comercializáveis. Terceiro, a perspectiva de uma safra recorde neste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima produção de 219,1 milhões de toneladas, o que afasta o risco de choques de preços agrícolas que morderam tanto o bolso do consumidor no passado recente.

Mas uma coisa é a melhor decisão e outra é a mais provável. O Copom deverá ser mais conservador e restringir o corte em 0,75 pp. Isso é coerente com o discurso do Banco Central nos últimos dias. A última coisa que um banqueiro central deseja é surpreender o mercado.

Seria desejável que o comunicado emitido por ocasião da decisão trouxesse nas entrelinhas uma mensagem de continuidade da redução rápida dos juros. É raro surgir uma janela como a atual para diminuir o custo do dinheiro no Brasil. É hora de aproveitá-la e acelerar mais ainda as reformas, abrindo o caminho para a recuperação consistente da economia.


Brasil converge lentamente para a normalidade
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Gesner Oliveira

Embora as incertezas no campo político tenham ganhado força na última semana, surpresas positivas principalmente com relação à inflação indicam que o país parece já ter atingido o fundo do poço. Os recentes ruídos políticos, como o que envolveu o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimento (PPI), Moreira Franco, e crises como a de segurança pública, não parecem ser capazes de mudar o humor do mercado. O governo, contudo, não tem muita margem de erro para conduzir com sucesso a política econômica.

Na última semana, o ponto mais delicado para o Governo Temer talvez tenha sido a indicação de Moreira Franco para ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Cabe ao governo separar a discussão política da indicação do andamento das negociações sobre parcerias e concessões na infraestrutura. Destravar investimentos privados nesta área constitui fator chave para uma recuperação consistente da economia.

Outro ponto de preocupação do Executivo é a grave crise financeira dos Estados. Após o socorro negociado para o Rio, o caos verificado no Espírito Santo, com a greve da polícia militar por aumentos de salários, é mais uma indicação das dificuldades de caixa que atingem várias unidades da federação. Os ajustes das contas públicas, tanto dos Estados como da União, estão na direção certa, mas ainda demoram.

O contexto macroeconômico, contudo, dá mostras de que há uma luz no fim do túnel.

Os números favoráveis da inflação são hoje a principal aposta do governo para a melhora da economia neste ano. A expectativa cada vez mais concreta de queda mais forte na taxa de juros básica (Selic) tem sido capaz de manter um otimismo moderado em relação à retomada da economia. A Selic pode fechar o ano abaixo de 10%.

O resultado do IPCA de janeiro, índice oficial de inflação, foi de apenas 0,38%, a menor taxa desde o início da medição, em 1979. Em igual mês de 2016, a inflação medida pelo IBGE havia ficado em 1,27%. Em 12 meses, IPCA alcançou 5,35%, também abaixo das previsões.

O resultado fortalece a percepção de que a desaceleração da inflação está disseminada em toda a economia, ou seja, não é fruto de um item específico. A queda do preço dos alimentos, um dos que têm maior peso na inflação, tem ajudado bastante.

A elevada ociosidade da economia, a boa safra agrícola e a perspectiva de que a taxa de câmbio se mantenha em nível confortável justificam a expectativa de um índice próximo da meta de 4,5% neste ano. De acordo com o relatório Focus, divulgado hoje pelo Banco Central e que faz uma média das principais projeções do mercado, as expectativas do mercado para o IPCA caíram pela sexta vez consecutiva e agora estão em 4,47% para o final do ano. Pela primeira vez abaixo da meta em anos.

Além disso, há agora uma boa chance de que as reformas da Previdência e trabalhista, com o apoio da base aliada do governo no Congresso, possam ser aprovadas ainda no primeiro semestre do ano, permitindo um ajuste mais rápido da economia.

Outra boa notícia para o governo foi a decisão na sexta-feira da agência Standard & Poor’s de elevar o rating da Petrobras. A referida agência subiu a nota em escala global e a de crédito individual da estatal. Embora as agências de risco tenham discutível capacidade de previsão, constituem referência básica para captação de empréstimo. A S&P justificou a elevação em função da estratégia da Petrobras de reduzir o endividamento e fortalecer a liquidez. A melhora do rating constitui certamente um alento para a nova direção da Petrobras.

Apesar das enormes dificuldades e crises como a da segurança pública, e naturalmente os desafios do ajuste econômico, o país converge lentamente para uma situação de normalidade. É fundamental acompanhar com atenção como, em meio às vicissitudes do curto prazo, começam a surgir mudanças de caráter estrutural que afetarão a economia do país nas próximas décadas.


Morte de Teori não compromete recuperação
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Gesner Oliveira

A tragédia que levou a morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, não chega a ter forte impacto no mercado.

O relativo atraso da Lava Jato pode abrir uma janela parcial para os avanços nas reformas no Congresso, sem novas turbulências políticas, pelo menos no curtíssimo prazo. Mais importante, a provável melhora da economia a partir do segundo trimestre também concorre para tornar menos difícil a aprovação da reforma da Previdência.

Este espaço adicional para a agenda reformista não deverá representar retrocesso na Lava Jato. Após especulações, o anúncio do presidente Michel Temer de que a indicação do novo ministro só ocorrerá após a definição da relatoria da Lava Jato foi hábil ao indicar o compromisso do Planalto de não ingerência no processo.

No entanto, há divergências entre os ministros da Corte. De um lado, alguns defendem a remessa dos processos a um dos integrantes da Segunda Turma da Corte, da qual Teori fazia parte. Nesse caso, a relatoria ficaria com Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli ou Celso de Mello. Outros alegam que, como há processos relacionados à Lava Jato sob exame no plenário, a distribuição deveria ser feita entre todos os magistrados do Supremo.

Enquanto a presidente do STF, Cármen Lúcia, não se manifesta, a probabilidade de homologação das delações até o fim do período de recesso, é remota.

O desempenho da economia em 2017 deverá ser melhor do que em 2016.  A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a taxa de juros básica (Selic) em 0,75 ponto percentual e de manter um afrouxamento na política monetária criou um clima mais favorável sobre a possível retomada da atividade.

O boletim Focus mostra uma nova queda na inflação, com as expectativas de mercado em 4,71% para 2017 versus 4,80% na semana anterior. A projeção para o crescimento do PIB de 2017, embora modesta (0,50%), tem se mantido estável nas últimas quatro semanas.

Assim, criou-se um espaço de tempo para que o ritmo da economia gere os resultados tão esperados no mundo político.


O dolar está caro ou barato? O Big Mac ajuda a responder
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Gesner Oliveira

A revista britânica The Economist divulgou esta semana, como de praxe, o seu índice Big Mac. O objetivo desde índice é medir o grau de sobre ou subvalorização de uma moeda em relação ao dólar americano. Segundo a revista, a taxa de câmbio no Brasil está sobrevalorizada em 1,1%, ou seja, o real deveria estar cotado em R$ 3,26 por dólar, mas, conforme a publicação, está em R$ 3,22.

O índice Big Mac, embora não seja perfeito, tornou-se um padrão global, incluído em diversos livros de economia e pelo menos 20 estudos acadêmicos. O índice tornou-se uma referência em todo o mundo. Quanto vale um mesmo tipo de maçã nos Estado Unidos e no Brasil? Esta é a pergunta por trás do índice Big Mac.

Em teoria, a maçã deveria valer o mesmo, pois é o mesmo bem nos dois países. Caso a maçã estivesse muito mais cara nos Estados Unidos, um americano poderia importar a maçã mais barata do Brasil e vender nos Estados Unidos. Com isso, a demanda por maçã no Brasil aumentaria, elevando o seu preço. No Estados Unidos haveria maior oferta de maçã, o que faria o preço cair. Após estas trocas, as maçãs tenderiam a ter preços iguais.

Mas a característica particular dos países faz esse preço muitas vezes ser diferente. O Japão, por exemplo, não tem a mesma quantidade de terras que os Estados Unidos para plantar maçãs. A fruta, por este motivo, tenderia a ter preços mais altos no Japão.

A maçã, portanto, não é um bom candidato para comparar dois bens similares em países diferentes. Mas o Big Mac é. Os procedimentos operacionais do McDonald’s são os mesmos em todos os países; os ingredientes também, inclusive a margem de contribuição por produto.

O índice Big Mac foi inventado 1986 como um guia para saber se as moedas estão em seu nível “correto”. As taxas de câmbio de longo prazo devem se mover para a taxa que igualaria os preços de uma cesta idêntica de bens e serviços (neste caso, um hambúrguer) em dois países.

Por exemplo, o preço médio de um Big Mac nos Estados Unidos em janeiro de 2017 foi de US$ 5,06; na China foi de apenas US$ 2,83, nas atuais taxas de câmbio do mercado. Assim, o índice Big Mac diz que o yuan (moeda chinesa) está subvalorizado em 44%.

No Brasil, o preço do Big Mac é de R$ 16,50. Com a taxa de câmbio de mercado usada na pesquisa de R$ 3,22, o lanche brasileiro custa US$ 5,12. Já o mesmo sanduíche americano é vendido por US$ 5,06. Assim, o índice Big Mac mostra uma sobrevalorização de 1,1%.  A última vez que o real estava sobrevalorizado foi em janeiro de 2015 (+8,7%). Em julho do ano passado, o real estava subvalorizado de 5,1%.

A moeda com maior valorização frente ao dólar em 2017 é o franco suíço (25,5% acima), seguida da coroa norueguesa (12%), a coroa sueca (4%) e o bolívar venezuelano (3,7%). As moedas mais desvalorizadas são: libra egípcia (-71,1%), grívnia ucraniana (-69,5%) e ringgit malaio (-64,6%).

 De 43 países analisados pela revista The Economist, 38 estão com a moeda desvalorizado em relação ao dólar e cinco com a moeda sobrevalorizada, indicando que a perspectiva de alta de juros nos EUA já levou a um fortalecimento do dólar.

A publicação lembra que, para moedas emergentes, estar subvalorizada no índice Big Mac não é necessariamente sinal de que a taxa de câmbio deve subir em breve. Isso porque o custo do hambúrguer depende parcialmente de itens não comercializáveis, como aluguéis e salários, que tendem a ser menores em países mais pobres.