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Cenários para a economia em 2018
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Gesner Oliveira

Já é difícil fazer cenários. A tarefa fica ainda mais espinhosa quando se trata de ano eleitoral e quando o país é o Brasil atual. Mas empresas e famílias não têm opção. Cenários são necessários para tomar decisões como a de construir uma nova fábrica, comprar uma casa ou vender o carro.

A fórmula conhecida é estimar três cenários: base, otimista e pessimista. O PIB pode crescer de 2% a 4% neste ano, a depender das eleições e da reforma da Previdência.

O cenário base considera que tudo continuará caminhando como nos últimos meses. Trata-se do cenário com maior chance de ocorrer. Não contempla a aprovação da reforma da Previdência, mas sim a continuidade da aprovação de reformas estruturais, tanto de cunha fiscal como das privatizações (Eletrobrás) e concessões. Neste cenário base, a economia deve consolidar a recuperação iniciada em 2017 e crescer 3,2% neste ano.

A inflação deve manter-se bem comportada, sem nenhum choque negativo relevante e encerrar 2018 em 4%. Não repetiria a baixa taxa de 2,95% de 2017 porque os preços dos alimentos não vão cair como ocorreu em 2017. Isso permitiria o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduzir em mais 0,25 ponto percentual em fevereiro para 6,75% ao ano e então manter a taxa estável ao longo do ano.

A taxa de câmbio, apesar da volatilidade esperada, principalmente no período eleitoral, deve permanecer próxima dos R$ 3,20 refletindo o cenário externo relativamente favorável e a folga nas contas externas, refletida nos quase US$ 400 bilhões de reservas internacionais. Por sua vez, o cenário otimista depende principalmente da aprovação da reforma da Previdência, prevista para depois do Carnaval (como tantas outras coisas no Brasil).  Tal fato emitiria sinais positivos ao mercado, à população e ao resto do mundo de que as contas do governo devem se organizar no médio prazo.

Isso teria impacto positivo sobre as expectativas, reforçando a recuperação. Por sua vez, a melhora da economia fortaleceria uma plataforma de continuidade das reformas, criando um círculo virtuoso de recuperação e onda de otimismo. Se este cenário otimista vier a acontecer, haveria uma recuperação mais forte da produção, emprego e investimento.

Em números, o real tenderia a se apreciar, isto é, ficar mais barato em relação ao dólar, em um patamar próximo a R$ 3,00. A inflação ficaria em torno de 3,5% no final de 2018 e a taxa Selic em 6%. Isso significa uma alta de até 4% do PIB neste ano.

Em contraste, no cenário pessimista, tudo pode dar errado. Suponha que a reforma da Previdência não seja aprovada e a agenda de reformas, como a tributária e medidas de ajuste fiscal, fiquem paralisadas no Congresso. E que uma sucessão de impasses políticos alimente ainda mais as tensões entre Judiciário, Legislativo e Executivo. E segundo a Lei de Murphy, se algo pode dar errado, dará. Neste caso, pode até contar com outra surra de 7 x 1 na Copa do mundo.

Neste cenário pessimista, os sinais para a economia seriam os piores possíveis e a tendência seria arrefecer investimento e consumo e consequentemente arrecadação e emprego. Tais circunstâncias não reverteriam imediatamente a recuperação, mas abortariam um novo ciclo de crescimento. A economia chegaria em 2019 sob risco de estagnação.

Isso teria impacto negativo sobre as expectativas e fortaleceria plataformas de candidaturas extremistas que prometeriam uma mudança na política econômica, criando um círculo vicioso de semi-estagnação e piora das expectativas.

O Brasil passaria por mais um de seus voos de galinha. Quando parece que voltará a crescer, pousa novamente. O aumento da aversão e dos prêmios de risco comprometeria o crescimento econômico, principalmente a partir do segundo semestre.

Em números, o dólar ficaria mais caro em reais, em cerca de R$ 3,50, impactando negativamente a inflação, para algo em torno de 5,5%. O Copom por sua vez, seria obrigado a voltar a subir os juros ainda neste ano, terminando na casa dos 8% ao ano. Nesse cenário, o PIB terminaria o ano com alta de 2%, mas com viés de baixa para os anos seguintes.

2018 promete ser um ano de muita volatilidade. O cenário base parece o mais provável (60%), seguido pelo otimista (30%). Infelizmente não é possível descartar o cenário pessimista (10%). Uma boa promessa para este ano seria eleger bem quem pode influenciar este resultado.


2018: ciclo de crescimento ou voo da galinha?
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Gesner Oliveira

2017 foi o ano da virada, depois de dois anos de uma brutal recessão. O que esperar de 2018? O brinde de final de ano é pelo início de um novo ciclo de crescimento. O receio é de que seja apenas um voo da galinha.

A Copa do Mundo só começa em junho mas já dá para antever algumas decisões relevantes para o rumo das expectativas em relação à economia: o julgamento do pré-candidato e ex-presidente Lula, no dia 24 de janeiro; a votação (ou não) da reforma da Previdência, com previsão para ir ao plenário da Câmara dos Deputados no dia 19 de fevereiro; e as próprias eleições presidenciais, com primeiro turno marcado para 7 de outubro.

O leitor deve ficar atento aos resultados dessas decisões. Terão impacto sobre o planejamento de seus investimentos, seu plano de aposentadoria ou sua chance de batalhar por um emprego.

No curto prazo, a economia segue bem comportada. O mercado espera uma alta do PIB de 2,68%, o que parece pouco. A economia tem tudo para crescer pelo menos 3% em 2018. Com inflação e juros em queda e capacidade ociosa, níveis de confiança subindo e endividamento das famílias em queda, a expansão está mais ou menos contratada. Mas a história está cheia de favoritos que ficam pelas eliminatórias, como a Itália que vai ver a Copa da Rússia pela televisão.

A projeção para a inflação em 2018 é de 4%, ainda abaixo do centro da meta do Banco Central (de 4,5%). Os alimentos não vão puxar o índice para baixo como neste ano, mas, por ora, não são fonte de preocupação. A taxa de juros Selic deve sofrer novo corte de 0,25 ponto percentual antes do Carnaval, para 6,75% ao ano.

O desemprego continuará elevado, mas deve mostrar recuperação no ano que vem. 2017 foi o ano que estancou a sangria no mercado de trabalho que se viu nos anos de 2015/16. Nesse período, houve destruição de quase 2,9 milhões de empregos com carteira assinada. Neste ano, o resultado deve ficar ligeiramente abaixo de zero. Mas 2018 deve trazer algo próximo a um milhão de empregos.

No lado externo, a perspectiva é que haja uma continuidade da farta liquidez internacional, ou seja, juros baixos, isto é, dinheiro barato no mundo. E razoável crescimento econômico, estimulando nossas exportações. O superávit comercial será menor, mas ainda elevado para os padrões brasileiros, e as contas externas seguirão financiadas com certa tranquilidade pelo ingresso de investimento estrangeiro direto. O dólar deve se manter em patamar relativamente confortável, em torno de R$ 3,20.

O drama é a parte fiscal, que terá algum alívio em 2018, mas que demandará a continuidade da política de ajuste das contas públicas. Desconfie de quem diz que não existe problema com a Previdência e que a reforma é coisa de gente malvada que quer fazer o povo sofrer. Quando a bomba relógio estourar, será o primeiro a querer cortar sua aposentadoria e seu salário. Quem duvidar, basta dar uma olhada no Rio de Janeiro.

Dá para levar esta Copa, mas precisa combinar com os russos. Também dava em 1950 em pleno Maracanã; em 1982 na Espanha com o saudoso Telê; e na África do Sul em 2010, quando Felipe Melo aprontou das suas e os holandeses nos deixaram pelas quartas.

Futebol é mesmo imprevisível e talvez por isso seja tão fascinante. Em contraste, a boa economia precisa ser mais previsível e a política econômica racional para dar um pouco de paz e esperança aos brasileiros em 2018!


Risco eleitoral em 2018 será menor do que em 2002
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Gesner Oliveira

Conforme a última pesquisa do Datafolha, divulgada neste domingo, Lula (PT) lidera as pesquisas de intenção de voto para 2018 e Jair Bolsonaro (PSC) segue isolado em segundo. O mercado não morre de amores por eles, mas ainda é cedo para dizer que a economia vai balançar em 2018 por conta de um novo risco Lula como ocorreu em 2002. Ou por um possível risco Bolsonaro. 2018 não será 2002.

Em 2002, às vésperas do primeiro mandato de Lula o mercado temia o desconhecido. O risco-país batia na casa dos 2 mil pontos e, entre janeiro e outubro do ano eleitoral, a bolsa despencou 31,8% e o dólar chegou a R$ 4,00.

Hoje, os dois líderes da corrida eleitoral assustam o mercado por terem uma visão menos favorável à agenda de reformas. E é cada vez mais evidente que o país precisa delas para transformar a recuperação em crescimento sustentado.

A julgar pelos dados do Datafolha com todos os possíveis candidatos a presidente, dá para dizer com relativa segurança, que a agenda reformista teria apenas 12% dos votos, o equivalente à soma do branco/nulo/nenhum e nem metade dos votos de Lula. As reformas não iriam nem para o segundo turno, já que perderiam para Bolsonaro que aparece com 17%.

Mas qualquer conclusão agora seria precipitada. Primeiro, porque não se sabe quais serão os candidatos para a disputa do ano que vem. Segundo, também não se sabe se os candidatos hoje contra as reformas vão permanecer assim até o fim de um possível mandato. A própria recuperação da economia deve balançar as agendas dos candidatos. Depois de 2,8 milhões de empregos formais destruídos no biênio 2015/16, estima-se que sejam criados um milhão de vagas em 2018. Mercado tem revisado para cima a expansão do PIB em 2018, situando em 2,6%. E ainda é conservador; economia deverá crescer mais de 3% no ano que vem.

Terceiro, muita água ainda vai rolar até as eleições. Cerca de um ano antes das eleições de 2014, Dilma liderava com folga, com cerca de 40% dos votos. Marina Silva estava na frente de Aécio Neves, que acabou indo para o segundo turno e por pouco não venceu Dilma. Em dezembro de 2009, José Serra tinha 37% dos votos e Dilma apenas 23% para depois ser eleita no segundo turno.

Por fim, a economia está mais blindada aos choques eleitorais em 2018 relativamente a 2002.  Em 2002, o Brasil estava batendo na porta do FMI por empréstimos de mais de US$ 40 bilhões. Hoje o Brasil dispõe de cerca de US$ 380 bilhões de reservas e a entrada de investimento direto estrangeiro supera em mais de quatro vezes o déficit em conta corrente com o resto do mundo. As contas externas folgadas servem de colchão amortecedor para os solavancos da política.


Crianças, exijam presentes melhores, economia em recuperação!
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Gesner Oliveira

Há bons argumentos para os pequenos na legítima barganha por um presente melhor no Dia das Crianças. Afinal, a recessão acabou.

O cenário de queda dos juros e de inflação, somado à melhora no mercado de trabalho e de crédito, têm afetado positivamente o comércio. O dado do setor de agosto mostrou que as vendas no varejo cresceram 3,6% na comparação com o mesmo mês do ano passado, a quinta alta seguida nessa base de comparação. Assim, não surpreende o otimismo com as vendas no Dia das Crianças deste ano. É a recuperação da economia.

Depois de uma queda acumulada de mais de 11% no biênio 2015/16, a expectativa para o Dia das Crianças deste ano é de alta de 3,4% nas vendas, o melhor resultado em quatro anos.

A data existe desde 1925, após decreto aprovado pelo então presidente Arthur Bernardes um ano antes. Passou a ser de fato assimilada pelos brasileiros apenas 30 anos depois, quando a marca Estrela, de fabricação de brinquedos, investiu em uma campanha para aumentar suas vendas. Hoje é uma data importante para o setor de comércio e dá bons sinais de como os consumidores devem se comportar no Natal.

De acordo com pesquisa elaborada pela FGV/IBRE, os brasileiros estão mais dispostos a gastar neste 12 de outubro. A média de intenção de gasto para o Dia das Crianças ficou em R$ 82,50 neste ano, contra R$ 78,60 em 2016. O indicador que mede o ímpeto de gastos avançou 5 pontos, de 59,3 para 64,3, interrompendo trajetória de queda iniciada em 2014.

Para se ter uma ideia, no ano passado a mesma pesquisa apontava que quase metade dos entrevistados pretendiam reduzir os gastos no feriado em relação ao ano de 2015, o que representou a menor intenção de compra de presentes em 11 anos. De fato, os resultados comprovaram a gravidade da crise. As vendas do Dia das Crianças caíram 3,6% em 2015 e 8,1% em 2016.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a expectativa é de que a data neste ano movimente R$ 7,4 bilhões, uma variação de 3,4% frente ao ano passado. Os setores de lojas de vestuário e calçados, com alta de 10,2%, seguido de brinquedos e eletroeletrônicos, com alta de 5,7% devem puxar o crescimento.

Também há otimismo no e-commerce. A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) estima faturamento de R$ 2,15 bilhões nas lojas virtuais, alta de 5% ante 2016.

O que mudou? O ambiente macro. Há um ano, a taxa de juros Selic estava em 14,25% ao ano contra 8,25% na atualidade, devendo fechar 2017 em 7%. A taxa média de juros das operações de crédito seguiu a mesma tendência, saindo de 33% ao ano em agosto do ano passado para 28,45% em agosto desse ano. Caíram o endividamento das famílias e a inflação. O acumulado em 12 meses do IPCA batia 8,48% há um ano, enquanto hoje está em apenas em 2,54%.

O impacto da inflação nos produtos mais demandados no Dia das Crianças explica parte do otimismo para este ano. O acumulado em 12 meses do IPCA de brinquedos, caiu de 9,62% em setembro de 2016 para 0,37% em setembro deste ano. Na mesma base de comparação, a taxa acumulada de chocolates em barra e bombons era de 23,42% e passou para deflação de 6,35%. Eletrodomésticos e equipamentos passaram de 4,43% para deflação de 2,44%; roupas infantis passaram de 4,29% para 2,61%; bicicletas de 6,01% para deflação de 0,42%; CDs e DVDs já vinham em queda de 0,86% e caíram ainda mais, para -1,18%; e assim vai.

Infelizmente nem todos poderão celebrar com tranquilidade. Há mais de 13 milhões de desempregados. O crescimento vigoroso para dar oportunidade a todos só virá quando não faltar para as crianças brasileiras aquilo que elas mais precisam e que até elas topariam trocar por um brinquedo: saúde e educação.


Você é sempre racional na economia? Prêmio Nobel acha que não
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Gesner Oliveira

Nem todas as decisões tomadas são racionais. E isso contrasta com a maioria dos modelos utilizados nos estudos de economia. O economista americano Richard Thaler, da Universidade de Chicago, recebeu hoje o Prêmio Nobel de Economia por seus estudos na área de economia comportamental. Sua grande contribuição foi mostrar o lado humano das escolhas individuais e como o processo de escolha é mais complexo do que os modelos convencionais supõem.

A maioria dos modelos econômicos sustenta-se na presunção de que as pessoas são, em essência, seres racionais e egoístas. As decisões seriam pautadas na razão para maximizar seu bem-estar individual. Baseando-se em todas as informações disponíveis, este indivíduo opta sempre por aquilo que lhe oferece mais satisfação com o menor esforço.

A ideia do Homo economicus é chamada de teoria da escolha racional e foi exposta pelo economista Adam Smith, em sua obra “A riqueza das nações”, de 1776. Para ele, a interação econômica humana seria ditada pelo interesse pessoal: “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que devemos esperar nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse”. O que faz sentido em muitos os casos e tem sido útil para entender o funcionamento da economia.

Acontece que, com o passar do tempo, verificou-se que nem todas as decisões das pessoas são 100% racionais. Imagina-se, por exemplo, que um ladrão de banco não faz um cálculo aprofundado entre custos e benefícios antes de realizar um roubo. Não valerá a pena na grande maioria dos casos (a não ser que ele já considere ser agraciado com uma delação superpremiada) e mesmo assim o que se observa é que há muitos roubos por aí.

Além disso, é utópico pensar que em todas suas decisões as pessoas levam em conta todas as variáveis envolvidas. O mundo é muito complexo e muitas vezes até informações disponíveis são deixadas de lado. Na prática, quase sempre as pessoas tomam decisões rápidas, com base apenas em sua experiência própria, no hábito ou em regras práticas. Por que as pessoas viajam para o outro lado da cidade para economizar R$ 5 em um livro de R$ 50, mas é improvável que façam o mesmo para poupar R$ 5 em uma TV de R$ 1.000? O efeito na riqueza líquida é o mesmo.

Até o início dos anos 1980, a ideia das escolhas racionais foi predominante no campo das ciências econômicas. Mas em 1979, dois psicólogos israelense-americanos, Amos Tversky e Daniel Kahneman, publicaram um trabalho importante, intitulado em português como “Teoria da Prospecção: uma análise da decisão sob risco“. Isso marcou a criação de novo ramo de estudo chamado economia comportamental. A ideia de ambos era exatamente tornar as teorias econômicas sobre tomada de decisão mais realistas do ponto de vista psicológico.

Os autores descobriram que as pessoas costumam violar a ideia de escolhas racionais, sobretudo em situações de risco. Se a pessoa tem a opção de receber R$ 100 com 100% de certeza ou R$ 250 com 50% de chance, opta-se normalmente pelos R$ 100 garantidos. Agora quando a situação é contrária: perder R$ 100 com 100% de certeza ou perder R$ 250 com 50% de chance, opta-se normalmente pela segunda. Isso se chama propensão ao risco.

Além da questão do risco, a ideia do homem racional também é irrealista quando metas de longo e curto prazo são conflitantes. Não existe exemplo mais comum do que alguém comprando uma comida nada saudável, mesmo sabendo que tal escolha não condiz com seu objetivo de perder peso no futuro.

Em um de seus livros mais famosos, “Nudge” (incentivo ou empurrãozinho em Português), o vencedor do Nobel, Richard Thaler, trata exatamente de o porquê as pessoas não tomam decisões racionais e como podem evitar cair em pegadinhas de marketing ou fazer escolhas alinhadas com os objetivos de longo prazo. Sua contribuição vinda da Psicologia aproximou um pouco a economia do mundo real.


Brasil à espera do lenga-lenga da segunda denúncia
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Gesner Oliveira

A segunda denúncia do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, ilustra como o Brasil vive no mundo da fantasia. Imerso em profunda crise fiscal com desdobramentos trágicos sobre o restante da economia, o Congresso passará as próximas semanas concentrado na votação de mais uma denúncia inepta, cujo resultado formal será o arquivamento.

Os efeitos práticos todo mundo já sabe: barganha político-partidária da pior espécie e procrastinação das reformas em benefício exclusivo daqueles que não querem perder seus privilégios.

Na economia há sinais de melhora. A começar pelo otimismo crescente com relação à recuperação. O relatório Focus do Banco Central mostrou que pela quinta vez consecutiva caiu a expectativa do mercado para a inflação neste ano, agora em 2,97%. É a primeira vez que o número fica abaixo dos 3%. Para o PIB, as projeções tiveram leve alta de 0,60% para 0,68% em 2017 e de 2,20% para 2,30% em 2018. As estimativas para os juros permanecem no menor patamar histórico.

O problema é o rombo nas contas públicas que beira R$ 160 bilhões. E olhe lá, porque pode ser mais.  As receitas extraordinárias como os recursos do programa Refis e dos leilões na infraestrutura serão fundamentais para fechar a conta no final do ano. Há grande expectativa com relação às concessões das usinas hidrelétricas amanhã, que podem render cerca de R$ 11 bilhões para os cofres públicos.

Os desdobramentos sobre o restante da economia são trágicos. Basta olhar para a situação fiscal em estados como Rio de Janeiro ou Minas Gerais. Sem dinheiro, não tem como pagar salários e é preciso até cortar gastos de setores fundamentais para a população. Ministérios como o da Saúde e Educação, por exemplo, viram seus orçamentos serem cortados em cerca de 10% e 20%, respectivamente.

Daí a importância da reforma da Previdência. Apesar do ajuste nos gastos sob controle do governo, despesas com a Previdência seguem em alta. O déficit do governo central é cada vez mais previdenciário e é por isso que é fundamental atacar o problema de frente. Era o que se esperava ver em discussão no Congresso e na sociedade. E não o lenga-lenga da segunda denúncia que deve durar até a terceira semana de outubro; para, depois de muita politicagem, ser arquivada.

Apesar desse descompasso entre a agenda política e os reais problemas do país, os indicadores econômicos continuam positivos. Mas o atraso da agenda reformista aliado à precoce discussão das candidaturas às eleições de 2018 representam riscos ao ajuste da economia no médio prazo. Em vez de ficar barganhando votos e defendendo privilégios, o Congresso deveria estar discutindo o que realmente importa para os brasileiros.

 


Sai Janot, entra Dodge: melhor para a economia, pior para os corruptos
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Gesner Oliveira

A mudança de comando na Procuradoria-Geral da República (PGR) com a substituição de Rodrigo Janot por Raquel Dodge é positiva para a economia e para o combate à corrupção.

Para a economia funcionar bem, é fundamental que haja segurança jurídica. Isto é, que as regras sejam estáveis e que se respeite o devido processo legal. Aí reside a contribuição da nova comandante da PGR à recuperação em curso. O respeito à lei e uma postura mais técnica por parte de Raquel Dodge reduzirá a incerteza. Isso é bom para o investimento e para a geração de empregos.

Por ser uma técnica que zela por sua reputação, seu trabalho deve priorizar a investigação rigorosa e não o espetáculo midiático. O resultado é maior previsibilidade e menos sobressaltos no mercado.

Exatamente o oposto de Janot. A impressão que ficou especialmente de seus últimos meses no cargo é de que a pressa em gerar o fato político antes de concluir o mandato substituiu o rigor na instrução do processo. A busca pelos holofotes parecia ser a prioridade, em detrimento dos limites da legislação e dos possíveis impactos sobre a economia.

A última “flecha” de Janot acertou um de seus alvos não declarados: a agenda de reformas, especialmente a da Previdência. O trâmite da segunda denúncia, por menos séria que seja, deverá tomar tempo precioso do Congresso para a votação da reforma. A expectativa é que, se aceita, a denúncia só seja votada na segunda semana de outubro.

Além disso, a nova flechada dá margem a toda sorte de barganha e comportamento oportunista na formação de coalizão que no final das contas deverá bloquear mais uma denúncia inepta. Ficou clara a resistência corporativista destinada a inviabilizar reformas que eliminam privilégios; tudo, é claro, travestido de combate à corrupção.

Ao contrário do que pensam alguns analistas, a mudança de comando na PGR também é positiva para o combate à corrupção. Apesar de seu perfil sereno, Dodge não deverá dar moleza aos corruptos. Espera-se menos vazamentos e mais investigações que, quando conduzidas com maior rigor técnico e com base em fatos, levam à efetiva condenação e não simplesmente a manchetes bombásticas de acusação sem provas.

Um procurador geral deve ser um investigador minucioso e um fiscal rigoroso da lei e é isso que se espera de Raquel. Será preciso eliminar o viés político que acabou por desvirtuar o papel de uma instituição tão importante para a democracia quanto o Ministério Público. Isso é crucial para a credibilidade de ferramentas essenciais para o combate à corrupção, como a delação premiada, que a imperícia de Janot colocou em risco.

Em seu discurso de posse, a nova procuradora geral citou a poetisa Cora Coralina, dizendo que espera terminar seu mandato de dois anos contribuindo para que haja “mais esperança nos nossos passos do que tristeza em nossos ombros”. É o que deve ocorrer com mais previsibilidade nas ações da PGR. A economia agradece, os corruptos não.


Risco Janot não ameaça recuperação
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Gesner Oliveira

O risco Janot, representado pela segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, não deverá comprometer a recuperação da economia. Há razões políticas e econômicas para isso.

Do ponto de vista político, há uma percepção de que a primeira denúncia foi apressada e mal formulada. Independentemente da gravidade dos fatos e do seu mérito, ficou evidente que o procurador-geral não fez o dever de casa. Isso sem contar uma interpretação mais desfavorável de que teria havido adulteração de provas e jogo duplo por parte de pelo menos um procurador próximo a Janot. O governo já apresenta níveis de apoio no Congresso pré-choque JBS e a expectativa é que a segunda denúncia não deve avançar.

Do ponto de vista econômico, observa-se algo já experimentado no Mensalão. A recuperação da economia relativiza a importância dos escândalos políticos. Isso é tão mais verdadeiro em um momento que o país começa a respirar depois da maior recessão da história econômica brasileira.

Chama atenção como a recuperação em curso está disseminada entre os setores econômicos. Isso pode ser ilustrado pelo Índice de Difusão da Atividade Econômica elaborado pela GO Associados. Com base em 35 séries econômicas, é calculado o percentual de séries que apontam para a melhora da economia. Em julho o índice atingiu 79,4%, maior patamar desde maio de 2010. No vale da recessão, em setembro de 2015, o indicador apontava 2,9%.

Estatisticamente, este índice está positivamente relacionado com a aprovação do governo. Assim, a denúncia de Janot já nos acréscimos do segundo tempo de seu mandato não deve abortar a recuperação. Ressalve-se que a nova denúncia pode uma vez mais atrasar a votação da reforma da previdência.

A prévia do PIB divulgada hoje reforça o moderado otimismo com relação à economia. O IBC-Br apresentou alta de 0,41% em julho contra junho e superou as expectativas do mercado. A alta foi impulsionada pela indústria, que apresentou crescimento de 0,8% no mês, e pelo varejo ampliado, que subiu 0,2%, segundo o IBGE. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, o índice aponta que a economia brasileira registra crescimento de 0,14%.

O risco Janot para a economia é de curtíssimo prazo e parece sob controle. No médio e longo prazo há riscos maiores como Lula e Ciro Gomes. Mas esses serão objeto de outro artigo.


Recessão acabou, mas já dá mostras de que pode voltar
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Gesner Oliveira

A recessão acabou, mas não há muitos motivos para se comemorar. O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre deste ano, depois de oito trimestres consecutivos de queda.

Quando a economia parecia estar voltando aos trilhos a nova crise política balançou o país e trouxe muitas incertezas com relação ao futuro. No pior cenário, de paralisia das reformas no Congresso e dos investimentos em infraestrutura, o PIB poderia cair até 2%, levando o país a um terceiro ano consecutivo de recessão.

Além do PIB, nas últimas 24 horas houve outras duas notícias que deram certo alívio à economia, mas que pouco dizem sobre o que pode ocorrer ao longo de 2017. A Pnad contínua surpreendeu positivamente e mostrou uma leve melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego saiu de 13,7% no trimestre encerrado em março para 13,6% no trimestre encerrado em abril. O número de desempregados recuou de 14,2 milhões para 14 milhões, enquanto o número de ocupados apresentou alta de 88,9 milhões para 89,2 milhões.

Apesar dos números positivos, não dá para celebrar. O crescimento do pessoal ocupado foi puxado por ocupações como conta própria (+167 mil), setor público (+140 mil), informal (+77 mil) e trabalhador doméstico (+44 mil). O trabalho com carteira assinada, por exemplo, recuou 120 mil em relação ao trimestre encerrado em março. Com isso, o estoque de trabalhadores CLT atingiu 33,3 milhões, o menor valor desde o início da série em 2012.

O número de pessoas que entrou no mercado de trabalho diminuiu no último mês, o que também ajuda a conter o aumento do desemprego. Desacelerou o crescimento da população em idade ativa, capaz de trabalhar: depois de crescer 1,37% em março, desacelerou para 1,22% em abril.

Se a política não atrapalhar, o segundo semestre deve mostrar um início mais consistente do processo de recuperação do mercado de trabalho. Mas se o nevoeiro ficar mais forte, essa melhora fica ameaçada. Em vez de serem criados 150 mil empregos neste ano, como era previsto antes da delação da JBS, poderá haver perda de 760 mil postos com carteira assinada, diferença de 910 mil vagas. No pior cenário, o número de desempregados pode superar 16 milhões no final do ano.

Outro refresco foi a decisão de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa de juros em 1 ponto percentual. A taxa básica de juros da economia, a chamada Selic, passou de 11,25 para 10,25% ao ano.

O corte poderia ter sido mais agressivo, não fosse a instabilidade política. As incertezas com relação ao avanço das reformas e seus efeitos negativos sobre o preço do dólar tornaram o Copom mais cauteloso. O comunicado, inclusive, aponta um futuro incerto: diante da maior incerteza, o Copom deverá reduzir o ritmo de queda dos juros.

Fazer projeções econômicas hoje no Brasil é como dirigir sob forte nevoeiro. Você não consegue enxergar um metro à frente! O único jeito é ir devagar, quase parando. Olhar no retrovisor para prever o futuro nem sempre ajuda. Há alguns meses, quando olhávamos para trás, a gente via o PIB cair, mas as expectativas eram positivas. Agora o PIB subiu, mas pode voltar a cair nos próximos trimestres. Eis o perigo de uma crise prolongada nublando o horizonte de planejamento. A economia pode parar.


Menos gastos em vez de mais impostos
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Gesner Oliveira

O governo anunciou que para cumprir a meta de déficit em R$ 139 bilhões em 2017, faltam R$ 58,2 bilhões adicionais. Para atingir esta meta, o governo tem duas opções: elevar impostos ou reduzir os gastos, ou uma combinação dos dois.

Estes R$ 58,2 bilhões são resultados da reavaliação do governo das contas públicas que acontecem todo bimestre. Devido a uma retração maior da economia, espera-se uma arrecadação menor de R$ 54,8 bilhões nas receitas do governo. O restante (R$ 3,4 bilhões) se referem a gastos maiores do que originalmente previstos.

Em tempos de ajuste fiscal este é um dilema típico.  Historicamente, a resposta a esta questão no Brasil tem sido a de aumento de impostos; ou sob a forma explícita ou mediante o pior e mais injusto dos impostos que é o imposto inflacionário.

Em 1999 e 2003, em dois momentos de ajustes fiscais, a opção foi, principalmente, pelo aumento da carga tributária. É esta, em geral, a escolha dos governos. O Governo Temer tem surpreendido em várias áreas. Poderia romper esta tradição. Neste momento, não deve ser muito diferente. O terreno já foi preparado para uma possível alta nos impostos.

O contribuinte brasileiro já é um dos que mais pagam impostos do mundo. A carga tributária por aqui é aproximadamente 34% do PIB e coloca o Brasil entre os quinze países com as maiores taxas do mundo. A média dos países emergentes é de cerca de 25%. O aumento de impostos não parece razoável.

Este, por si só, já é um bom argumento, mas há outros. Quando comparado ao aumento de impostos, o corte de gastos é uma melhor alternativa.

Estudo feito pelos economistas Alberto Alesina e Omar Barbiero compara grandes economias que passaram por ajustes fiscais entre 1978-2007. Analisa-se a diferença no crescimento do PIB quando o ajuste é feito por corte de gastos ou aumento de impostos.

Aumentos dos impostos tiveram efeito extremamente recessivo na economia dos países. Impostos mais altos significam mais custos para a economia, o que diminui as transações e afeta diretamente a produtividade. Por outro lado, os ajustes fiscais baseados em cortes nos gastos foram muito menos onerosos, em termos de perdas de produção.

Aumento de impostos em 1% do PIB impactou em -3% o crescimento da economia. Por outro lado, o corte nos gastos de 1% do PIB gerou recessões pequenas e, em alguns casos, não teve impacto significativo sobre o produto

É positivo que o governo cumpra a sua meta fiscal, que por sinal é um déficit bastante considerável. Mas para isso, é recomendável que o máximo possível seja através do corte de gastos e não do aumento de impostos. Milton Friedman, vencedor do Nobel de Economia em 1976, costumava dizer que a melhor maneira de evitar aumento de gasto é evitar a solução fácil de aumentar imposto. Quando há receita, a máquina governamental sempre acha um jeito de gastar.

É difícil cortar gastos, mas a sociedade brasileira não aguenta mais a derrama. Várias prefeituras e estados têm inovado e feito mais com menos. É hora da União fazer o mesmo.