Blog do Gesner Oliveira

Arquivo : JBS

A boa governança na JBS vale bilhões
Comentários Comente

Gesner Oliveira

As oscilações na bolsa das ações da JBS nos últimos dias revelam a importância da boa governança para uma empresa. O mercado reage bem quando há sinais de profissionalização e boa gestão, reage mal quando ocorre o contrário. Compreende-se, assim, que a notícia de que o fundador da JBS voltou à presidência da empresa custou quase R$ 1 bilhão.

Após as prisões de Wesley e Joesley, as ações da JBS encerraram a semana passada com expressiva valorização, na casa dos 8%. Havia forte expectativa de troca de comando na empresa. O próprio BNDES, que detém 21,3% do capital da empresa por meio da BNDESPAR, pressionou por uma profissionalização do comando. Era hora de uma renovação da cultura da empresa, que viu o preço de suas ações caírem mais de 30% desde outubro do ano passado.

No final de semana, contudo, uma reunião do conselho da administração da empresa aprovou por unanimidade o nome de José Batista Sobrinho, ou Zé Mineiro, para substituir seu filho Wesley Batista no comando da empresa. A volta do fundador do Grupo JBS, em 1953, foi acompanhada pela nomeação de seu neto, Wesley Filho, como diretor estatutário da empresa. A família Batista decidiu por continuar no comando em nome da “estabilidade” da empresa.

O fato é que a manobra coloca em risco um processo fundamental para o país que é o de dar um salto de governança, tanto no setor público quanto no privado. Tal processo precisa ser feito de forma sábia. Por parte do governo, é preciso punir os culpados quando necessário, mas preservando as empresas e empregos. Por parte das empresas que se viram envolvidas em processos de corrupção, é fundamental uma sinalização de mudança inequívoca de cultura e gestão.

Com faturamento anual da ordem de R$ 170 bilhões, o Grupo JBS detém marcas como a da Friboi, Seara e tantas outras, vende para mais de 150 países e emprega mais de 200 mil pessoas. Trata-se do segundo maior conglomerado empresarial do país, atrás apenas da Petrobras. Desconcentrar o controle acionário e profissionalizar a gestão são indispensáveis para sinalizar uma nova era da empresa.

A ética corporativa é cada vez mais uma questão central no dia a dia das empresas. O caso da Siemens deveria servir de exemplo. Em 2007 a firma alemã protagonizou um dos maiores escândalos de corrupção corporativa e foi multada em US$ 1,6 bilhões. No mesmo ano, a empresa iniciou um programa global de conformidade para recuperar sua imagem e hoje é considerado um marco na história da ética corporativa.

É disso que o Brasil precisa e é o que dita as reações do mercado. Nesta segunda-feira, o novo presidente da JBS criou uma nova função na empresa, de COO (Chief Operating Officer) global. Com mais de 30 anos em posições de liderança no setor de alimentos, Gilberto Tomazoni foi designado para o cargo. Após a notícia as ações da empresa chegaram a subir 1,18%.

Em um mundo cada vez mais preocupado com boa gestão e ética corporativa, a mudança na presidência da JBS foi uma má notícia. Além de milhares de empregos, o descompromisso com a boa governança pode custar bilhões.


Nova procuradora deve ser menos midiática que Janot
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Raquel Dodge deu um recado claro na sabatina do Senado: ações do Ministério Público Federal (MPF) serão pautadas pela lei e pelo respeito ao devido processo legal. Traduzindo o juridiquês, espera-se menos vazamento e mais investigação. Se for cumprida a promessa, fará bem à democracia e à economia. E mal aos criminosos.

O episódio da delação mais que premiada dos donos da JBS foi um dos temas centrais da sabatina no Senado. Não poderia ser diferente. A desastrada condução do acordo caiu como uma bomba na economia e afetou o modesto processo de recuperação da atividade econômica e do emprego. A própria credibilidade de instrumento tão valioso quanto a delação premiada ficou seriamente comprometida.

Raquel Dodge citou diversas vezes a Lei nº 12.850 de 2013, que define organização criminosa e trata do processo de investigação. O Art. 7º, que trata da colaboração premiada, estabelece que o acordo deixará de ser sigiloso apenas após o recebimento da denúncia.

Não foi o caso com o episódio da JBS. Mal se sabia sobre a efetiva legalidade e regularidade do acordo e o país inteiro já tinha informações sobre o suposto conteúdo do áudio, causando uma brutal oscilação na bolsa e no dólar. É o modelo daquilo que não deve ser feito em uma investigação de interesse público.

A promessa de Raquel vai em outra direção: respeitar os limites da legislação, conduzir os trabalhos com base nas provas e, principalmente, ter cuidado com os efeitos que acusações apressadas podem ter sobre a reputação dos indivíduos e sobre a economia.

Outra posição importante da indicada à PGR foi com relação aos benefícios dos acordos de delação. Em contraste com a experiência internacional e mesmo com a nacional na área antitruste, o acordo com a JBS exagerou na dose de premiação.

Um pouco de teoria dos jogos demonstra que a moral do acordo com a JBS é inequívoca: o crime compensa. Foi uma desmoralização do instituto da delação premiada. Um desafio para a nova Procuradora é resgatar o sentido técnico desta importante ferramenta, desfigurado pela sua utilização política.

A impressão que ficou das últimas ações tomadas pelo atual Procurador Rodrigo Janot é de que o objetivo de desgastar o governo e paralisar as reformas prevaleceu sobre a boa técnica de investigação. Isso desvirtua o papel de uma instituição tão importante para a democracia como o Ministério Público.

A expectativa é que Raquel Dodge devolva ao cargo de Procurador-Geral uma postura menos politizada e midiática. Um Procurador-Geral deve ser um investigador minucioso e um fiscal rigoroso da lei. Para cumprir tal papel, não dá para jogar para a torcida.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>