Blog do Gesner Oliveira

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Metrô privado dá menos dor de cabeça
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Gesner Oliveira

O pesadelo do paulistano ontem com a greve no metrô ilustra bem a pobreza do serviço público. Sem alternativas, muita gente perdeu várias horas de seu dia no trânsito. Em contraste, a Linha-4 Amarela, operada pela iniciativa privada, serviu regularmente o público. Muita gente é contra privatização, mas o importante não é se a operação é pública ou privada. O importante é oferecer um serviço de boa qualidade.

Quem mora na Zona Leste da cidade, por exemplo, levou mais de quatro horas de casa até o trabalho. Isso significa mais da metade de uma jornada de oito horas no trânsito. Estima-se que um dia sem metrô em São Paulo custe 1,9 milhão de horas adicionais em tempo de viagem, ou um total de 216 anos!

Mas os custos não param por aí. Com mais carros, ônibus e congestionamento, estima-se que uma greve signifique mais de 1,3 milhão de litros de consumo adicionais de combustível, cerca de 2,5 mil toneladas a mais de emissão de poluentes e, em média, mais 40 acidentes! Sem falar nos custos adicionais de manutenção de vias e na perda gigantesca de bem-estar da população.

Se os grupos contrários às concessões realizadas hoje das linhas 5-Lilás e 17-Ouro do metrô queriam convencer a população que o leilão destas linhas deveria ser impedido, fizeram exatamente o contrário. Apenas a linha concedida à iniciativa privada não deixou a população na mão.

O leilão foi vencido pelo consórcio Via Mobilidade, liderado pela empresa CCR. Além dos R$ 553,8 milhões recebidos pelo governo estadual com a concessão das linhas, o contrato prevê que o vencedor terá de investir mais de R$ 88 milhões em melhorias no serviço. Outro ponto importante foram os subsídios cruzados entre as duas linhas. As receitas com a Linha 5-Lilás, que já possui trecho em operação e movimenta mais passageiros, ajudarão a financiar a Linha 17-Ouro, menos atraente.

Em menos de um ano, o governo de São Paulo arrecadou cerca de R$ 3,5 bilhões com leilões em infraestrutura. Além do metrô, foram leiloadas duas rodovias no ano passado: os lotes Rodovia do Centro-Oeste e a Rodovia dos Calçados, esta última com investimentos previstos de R$ 5 bilhões. O trecho Norte do Rodoanel Mário Covas foi concedido no início deste ano e outros cinco aeroportos estaduais passaram para o setor privado em 2017.

Quando o setor público não tem condições de oferecer um bom serviço para a população, faz todo sentido passar para o setor privado. São diversos os tipos de contrato e na maioria deles o governo ainda participa, seja como administrador ou como uma espécie de fiscal. Trata-se de uma forma de não só fechar o rombo nos cofres públicos como de estimular investimentos em serviços para a população.

Em vez de um Estado inchado que intervém em tudo, é melhor ter um Estado enxuto, menos interventor e mais regulador. Pelo menos daria mais segurança ao cidadão que madruga para chegar cedo no trabalho de que terá um serviço minimamente confiável.


São Silvestre pode mexer mais com São Paulo
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Gesner Oliveira

A corrida de São Silvestre não é a mais importante do ponto de vista do atletismo de competição, mas é de longe a mais tradicional e conhecida do Brasil e na América Latina. Você pode contar pra alguém de fora da cidade que fez uma maratona (42km!) que a pessoa, se não for viciada em corrida, não vai se impressionar. “Você correu a São Silvestre? Então, é um atleta!”

Mas o evento poderia fazer mais por São Paulo, reforçando o enorme potencial turístico da cidade para as Festas de Final de Ano. Tudo bem que reveillon é ir à praia, pular sete ondas e presentear Iemanjá. Mas pra quem tem isso o ano inteiro, São Paulo pode parecer um destino interessante pelos restaurantes, museus, virada na Paulista e a própria São Silvestre.

De túmulo do samba, na injusta expressão de Vinícius de Moraes (logo ele, que exaltava a vida!), São Paulo se transformou em um dos pólos do Carnaval. Algo semelhante pode acontecer com Natal e Ano Novo. Isso representaria mais turismo interno, mais renda e especialmente muitos empregos.

E isso sem prejuízo de outros destinos que estão superlotados e não têm a infraestrutura de São Paulo que fica ociosa durante a passagem de Ano. Eu também adoro circular nesta cidade nesta época do ano sem trânsito e sem filas. Mas o leitor não imagina a aflição que dá para um economista ver tanto capital físico sem utilização em um país escasso em capital e com um desemprego alarmante!

Sou fascinado pela São Silvestre desde criança. Desde uma noite de Véspera que meu pai me levou para assistir a prova que até 1988 acontecia à noite, logo antes da queima de fogos. A magia da prova ainda é perceptível hoje; nesta manhã mesmo, estava no olhar das crianças que não se cansam de dar as mãos em um “give me five” aos milhares de corredores amadores que desfilam pelas ruas da cidade.

Dada esta ligação afetiva, sinto-me credenciado para dar palpites de como tornar o evento ainda mais atraente. Há sugestões muito melhores, como as de Sergio Xavier, que explicou de forma didática como evitar muvuca na largada da prova. A 93ª edição realizada hoje não resolveu o problema, mas melhorou em alguns pontos. Foi a mais organizada das 16 São Silvestres que corri (ou andei?). Não faltou água para os inscritos (nem chuva).

Seguem três pitacos. Primeiro, valorizar o percurso da prova, chamando atenção para os marcos da cidade. Quem chega em Sampa de Caetano não necessariamente entende esta cidade e a prova passa pelo cruzamento da Ipiranga e São João, tangencia o Teatro Municipal e acaba na temida Brigadeiro. Por que não integrar o percurso ao roteiro turístico da cidade, lembrando ao visitante que ele está pisando em solo de conquistas de mitos como o tcheco Emil Zatopek, a “Locomotiva Humana”; o brasileiro Émerson Iser Bem, que interrompeu a sequencia de vitórias do queniano Paul Tergat; e mais recentemente, de quenianas, como a avencedora de hoje, Flomena Cheyech, e etíopes, como o atual bicampeão, Dawitt Admasu.

Segundo, este mesmo percurso poderia ser palco de treinos nos finais de semana e feriados, eventualmente patrocidados por marcas esportivas. Seria mais uma alternativa de lazer esportivo e de empregos, oferecendo uma chance para o visitante e o paulistano correr a São Silvestre em qualquer época do ano.

Tais eventos serviriam para múltiplas finalidades como de aulas de iniciação esportiva, história da cidade e tomada de tempo para a formação de pelotões separados para uma largada mais organizada. Nessa linha, poderia ser criada uma Caminhada de São Silvestre, dando oportunidade a iniciantes e àqueles que já correram demais durante o ano.

Terceiro, poderia haver o engajamento de mais voluntários no trabalho de organização da prova. Faltam pessoas dando orientação básica e o quadro de colaboradores poderia ser reforçado com gente que entende e gosta de corridas. Em especial, a comunidade de corredores poderia ser mais envolvida, servindo entre outras coisas como fiscais de zeladoria da cidade. O corredor de rua sabe bem onde está sujo e esburacado e desde quando (ou desde sempre).

É fácil dar ideias. Difícil é implementá-las. Mas estou certo de duas coisas: a São Silvestre pode mexer mais com São Paulo e quando é mesmo a inscrição para a próxima?


Prefeitura tem que gastar com educação e saúde, não com carnaval
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Gesner Oliveira

Muita gente tem medo de privatização porque acha que todos os benefícios de um negócio ou imóvel vão passar da mão do consumidor para as empresas. Isso é balela. O dinheiro gasto nos serviços públicos sai do bolso de cada contribuinte e muitas vezes é usado de forma ineficiente. O setor público tem que focar no que importa, saúde, educação e segurança. Carnaval e futebol podem ficar com a iniciativa privada.

O exemplo de São Paulo é ilustrativo. Segundo a prefeitura, gasta-se anualmente cerca de R$ 7 milhões anuais com a manutenção do Autódromo de Interlagos e R$ 10 milhões anuais com o histórico estádio do Pacaembu. Estima-se que mais de R$ 60 milhões são gastos todo ano com os 107 parques da cidade. O contribuinte é quem paga por tudo isso. Mas não precisa ser assim.

Aquilo que não for realmente importante para a população, que atrai o investidor privado ou que está sendo malfeito não precisa ficar na mão da prefeitura. O parque do Ibirapuera, que custa cerca de R$ 30 milhões por ano ao bolso do contribuinte, é um bom exemplo. Embora seja um cartão postal de São Paulo, basta um passeio no domingo à tarde para perceber que o serviço prestado deixa a desejar. Não há estacionamentos para bicicletas, os banheiros estão em péssimas condições, os gramados malcuidados e os lagos poluídos. Para não falar da iluminação e da segurança. Experimente deixar sua bicicleta encostada na árvore enquanto vai ao banheiro…

Com projetos bem desenhados é possível atrair as empresas para cuidar e investir nos parques, sem ônus para os consumidores. De um lado, o contrato pode permitir que a empresa cobre pelo estacionamento e locação de bicicletas, que construa restaurantes e praças de alimentação, e que instale serviço de Wi-fi. De outro, pode exigir que a empresa assuma despesas de manutenção, que faça investimentos de melhoria e que não cobre nenhum valor para a entrada.

O potencial de mercado é enorme. Estima-se que 38 milhões de pessoas frequentem os parques de São Paulo anualmente.

É comum ouvir reclamações de como os serviços públicos são ruins, mas continua a ilusão de que o responsável por todo tipo de serviço tem que ser o setor público. O Plano Municipal de Desestatização (PMD) na capital paulista é positivo, pois tenta acabar com esse paradigma. Foram selecionados 55 ativos que podem ser alvos de desestatização como parques, terminais de ônibus, serviços funerários, serviços de iluminação, mercados municipais, imóveis, entre outros.

O objetivo é desonerar a prefeitura e usar o que for poupado para áreas prioritárias como saúde, educação, habitação, mobilidade e segurança. São esperados cerca de R$ 7 bilhões para os cofres públicos e, para que esse dinheiro não suma por aí, criou-se um fundo para centralizar a verba e garantir os investimentos no que importa.

Ao contrário do que muita gente pensa, trazer o setor privado para algumas atividades que hoje são públicas pode ser bom para todo mundo. A empresa pode investir e lucrar no negócio; a prefeitura economizar e gastar naquilo que é prioritário do ponto de vista social; e o consumidor ter acesso a melhores serviços.


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