Blog do Gesner Oliveira

Arquivo : taxa de juros

Copom acerta nos juros, mas país continua na armadilha do baixo crescimento
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Conforme esperado, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) manteve a taxa de juros do país em 6,5%, em reunião realizada nesta quarta-feira.

Chegou-se a especular um aumento dos juros para conter a disparada do dólar. No entanto, o Banco Central tem deixado claro que a política monetária é separada da política de câmbio e que a Selic não será usada para conter o preço do dólar.

A inflação continua baixa, pelo menos no curto prazo. Mas não dá para aliviar nos juros em um país tão confuso quanto o Brasil. E diante de cenário externo tão incerto. A guerra comercial entre China e Estados Unidos e as expectativas de aumento dos juros nos EUA, constituem os principais motivos de preocupação.

Como isso deve afetar seu bolso? Infelizmente os juros para o tomador final são bem maiores do que os 6,5% da Selic atual. Segundos dados do Banco Central, no chamado mercado livre (sem subsídio), a pessoa física paga 81,2% enquanto que a jurídica encara 62%!  Houve queda no período recente, mas é muito pouco diante de taxas tão elevadas.

A redução dos juros do Brasil é essencial para a retomada.  gerando mais produção e emprego. Isso porque o menor custo do dinheiro estimula o consumo e o investimento.

A decisão do Copom de manter o juro em 6,5% deve se manter até o fim do Governo Temer. O que vai acontecer a partir daí é mais difícil de prever. Depende do rumo que a política econômica tomar com a próxima administração que, por sua vez, depende das eleições. Neste ponto reside grande parte da incerteza, a mesma que impede que os juros caiam, deixando a economia na armadilha de baixo crescimento.


Copom errou duas vezes ao manter a taxa de juros
Comentários Comente

Gesner Oliveira

O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado ao anunciar a manutenção da taxa básica de juros em 6,5% ao ano (aa).

A expectativa era de que o Copom anunciasse uma última redução na taxa Selic de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica de juros a 6,25% aa. No entanto, contrariando indicação neste sentido, o Comitê mudou de posição.

Há dois erros na decisão do Copom. O primeiro é o excesso de conservadorismo. Manteve-se a taxa de juros mesmo com a evidência de inflação abaixo da meta tanto em 2018 quanto em 2019 e de uma recuperação capenga da atividade econômica.

O segundo equívoco é de comunicação. O comunicado emitido logo após a reunião não explica de forma convincente por que a taxa de juros foi mantida a despeito da ociosidade da economia e da inflação bem-comportada. Pelas informações divulgadas pelo Comitê, a conclusão seria outra.

A verdadeira razão para interromper o ciclo de queda da taxa de juros foi o medo da explosão do dólar. Não há mal nenhum nisso. Mas seria preciso explicar de forma clara e objetiva o motivo da mudança em relação à política que vinha sendo adotada.

Isso mereceria uma explicação no comunicado, de forma a orientar as expectativas. Em vez disso, apontou-se para a manutenção dos juros na próxima reunião, o que não encontra base, pelo menos a julgar pelas informações contidas no documento divulgado.

O Banco Central conseguiu a maior vitória do período recente ao reduzir a inflação que estava em dois dígitos no Governo Dilma, para uma taxa inferior a 3% na atualidade. Em grande medida, isso foi obtido com uma comunicação clara que conferiu credibilidade à política monetária. Não foi o que aconteceu nesta última reunião do Copom.

 


A queda dos juros no Brasil e a alta nos Estados Unidos
Comentários Comente

Gesner Oliveira

O Copom (Comitê de Política Monetária) e o Fomc (Federal Open Market Committee) terminaram nesta quarta-feira suas reuniões de política monetária que decidem sobre a taxa de juros dos países.

No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa de juros do país, de 6,75% para 6,50%. Em 17 meses, o Copom cortou a taxa Selic em mais da metade, com redução de 7,75 pontos percentuais. A queda da inflação abriu espaço para a redução dos juros que é essencial para a continuidade da recuperação.

A queda é amparada pelo comportamento favorável da inflação nos primeiros meses do ano. Com isso, a taxa Selic chega ao menor patamar da história.

O comunicado deixou praticamente claro mais um corte de 0,25 pontos percentuais na reunião de 16 de maio. Tal sinalização não era esperada, dado que a expectativa era que o Copom anunciasse o fim do ciclo de queda do juro. O que deve gerar um efeito positivo no mercado amanhã.

Como se sabe, infelizmente os juros na conta do tomador, pessoa física ou jurídica, são bem maiores. A pessoa física paga em média 41,1% no crédito pessoal e a pessoa jurídica 22,3%. Mas, a tendência, é que o juro para o tomador siga em queda.

Nos Estados Unidos, continua o ciclo gradual de alta da taxa de juros. Um aumento de 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 1,50% e 1,75%.

A dúvida em relação à velocidade da elevação dos juros nos EUA tem causado correção nas bolsas mundo afora. Uma das grandes questões era se a previsão para 2018 mudaria para quatro aumentos da taxa, fato que ainda não aconteceu, e animou os mercados.

Como isso deve afetar seu bolso? A redução dos juros do Brasil ajuda na recuperação da economia, gerando mais produção e emprego. Auxilia também o financiamento ao consumo e ao investimento, embora as taxas para pessoas físicas e jurídicas sejam muito mais altas.

A subida dos juros nos EUA torna mais atraente a aplicação financeira naquele mercado, aumentando a demanda por dólar no mundo. Isso tende a elevar o preço do dólar em relação a outras moedas, como o real. Para a sequência, é uma tendência a um dólar mais caro no mercado brasileiro. Como a alta é gradual, o impacto não deve ser forte, mas vale a pena prestar atenção naquilo que acontece nos EUA e nos tuítes de Donald Trump para não tomar uma bola pelas costas.


Até quando o brasileiro poderá gastar mais no exterior?
Comentários Comente

Gesner Oliveira

O otimismo em relação a economia brasileira continua a todo vapor. A Pesquisa Focus divulgada hoje pelo Banco Central é sintomática: expectativas de mais crescimento e menos inflação em 2018.

 A previsão para o IPCA de 2018 recuou de 3,81% para 3,73%. Foi a quarta queda seguida do indicador. A expectativa dos analistas continua abaixo da meta central de 4,5% para a inflação.

Para a expansão do PIB de 2018, os economistas dos bancos elevaram sua estimativa de crescimento de 2,80% para 2,89%. Foi a segunda alta seguida deste indicador. Para o ano que vem, a expectativa do mercado para expansão da economia continuou em 3%.

Percebe-se um otimismo em relação aos números de consumo, emprego e indústria. A projeção para a produção industrial de 2018 passou de avanço de 3,51% para alta de 3,76%. Há um mês, estava em 3,18%. No caso de 2019, a estimativa de crescimento da produção industrial foi de 3,20% para 3,35%, ante 3% quatro semanas antes. No início de fevereiro, o IBGE informou que a produção industrial subiu 2,8% em dezembro ante novembro, encerrando 2017 com alta acumulada de 2,5%.

O gasto brasileiro no exterior também cresceu. O resultado, mais alto para janeiro desde 2015, ocorreu graças a maior estabilidade da moeda estrangeira, o que torna mais previsível o custo das viagens ao exterior, por exemplo. Gasto de estrangeiros no Brasil cresceu 17,8% no mês passado.

Uma sondagem do Banco Central também mostra manutenção nas projeções para a taxa básica de juros (a chamada Selic) no fim deste ano e do próximo em 6,75% e 8%, respectivamente. Com isso, as apostas para a decisão do Copom de março permanecem em manutenção da taxa nos atuais 6,75%.

Outro número positivo foi a arrecadação de impostos e contribuições federais, que subiu 10,1% na comparação com janeiro do ano passado, já descontado o efeito da inflação. Apesar de ninguém gostar de pagar mais impostos, é um sintoma da melhora da atividade, e dos efeitos positivos para os cofres públicos.

Estes números mostram que apesar da derrota da equipe econômica em relação às reformas e do rebaixamento da nota de crédito brasileiro pelas agências internacionais, a economia continua recuperando e as expectativas se mantêm relativamente otimistas.

Mas até quando? Até os ventos externos mudarem e levarem a uma fuga de capitais de países com risco elevado, como o Brasil. Ou se uma candidatura presidencial declaradamente anti-reforma se tornar viável. Enquanto nenhum dos dois eventos ocorre, os números da economia vão bem.

O mais sábio neste momento seria aproveitar a janela de oportunidade e tirar o Brasil do grupo de países de risco elevado e voltar ao grau de investimento.  Uma economia ajustada é o melhor seguro contra as turbulências da economia internacional.


Adiamento da previdência vai doer no bolso do brasileiro. Agora e no futuro
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Embora não pareça, o adiamento da reforma da previdência dói no bolso da maioria dos brasileiros desde agora. Em breve, com um aumento dos juros; e, no futuro, se nada for feito, com um corte mais drástico de despesas.

A retirada de pauta da reforma da previdência é ruim para a classificação de risco do Brasil e vai pesar sobre a nota do país. A frustração com a reforma limitará a capacidade de cumprir a regra do teto de gasto. Não há milagre: ou as despesas são cortadas ou os impostos aumentam ou o endividamento explode. Ou ainda, uma combinação das três coisas, acompanhada por uma piora da economia.

Por enquanto, os números de curto prazo estão bons e devem continuar assim até o final do ano. As próximas eleições serão importantes para definir o caminho que o país quer trilhar.

Depois do rebaixamento na classificação de risco pela Standard&Poor’s, o Brasil está na mira das outras duas agências mais conhecidas, Moddy’s e Fitch.

Mas o que isso significa? Com o corte na nota de crédito do Brasil anunciado pela Standard&Poor’s em janeiro, o Brasil ficou mais longe do selo de país bom pagador de sua dívida. O triplo A, por exemplo, é a nota da Alemanha. Alguns fundos de investimento só colocam dinheiro em países com boa reputação e capacidade de pagamento.

O Brasil é considerado grau especulativo, que reflete uma economia problemática e menos confiável. Os investidores pensam duas vezes antes de colocar o dinheiro em países nesta situação. Se mudam os ventos lá fora, na direção de uma nova crise e juros internacionais elevados, há um risco sério de nova crise como tantas que o Brasil já enfrentou no passado.

Assim, o país fica sujeito ao humor dos investidores estrangeiros, que devem destinar seus recursos para regiões mais seguras. A Grécia é o exemplo histórico mais recente de uma economia que passou a depender da boa-vontade dos credores externos para sobreviver.

Nesse contexto, a taxa de juros fica mais alta e o dólar tende a ficar mais caro. Isso restringe a possibilidade de continuar crescendo a partir de 2019. E consequentemente, de gerar os postos de trabalho necessários para diminuir o desemprego.

No longo prazo, se não for encontrada uma solução para o déficit da previdência, o Estado quebra. O Rio de Janeiro é o exemplo mais claro a esse respeito. A resistência corporativista dói no bolso de todos. Mas os principais ameaçados com o adiamento da reforma da previdência são os aposentados de agora e do futuro, cujos proventos dependerão de um Estado falido.


Gasolina cara? Culpa não é necessariamente do dono do posto
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Encher o tanque do carro tem doído no bolso. A inflação do ano passado ficou abaixo dos 3%, mas a gasolina subiu mais do que 10%. A Petrobrás passou a reajustar o preço na refinaria de acordo com a variação dos preços internacionais.

Houve casos em que  a estatal reduziu o preço na refinaria e o consumidor não viu a boa notícia na bomba.  O governo anunciou que procuraria o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), órgão incumbido de punir o abuso do poder econômico para resolver o problema.

Mas não se iluda. Antes que o consumidor desavisado pense que o o culpado é o dono do posto e que problema está resolvido, é preciso lembrar que há um longo caminho entre a refinaria e a bomba de gasolina. E que a conta não será resolvida de forma simples pelo xerife dos cartéis, não adiantando jogar a culpa na revenda.

Há vários fatores que explicam a pressão dos preços da gasolina. Primeiro, o próprio aumento do preço no mercado internacional; e é melhor repassar do que impor um prejuízo à Petrobrás com congelamento artificial dos preços, como foi feito no Governo Dilma, impondo uma perda de cerca de R$ 60 bilhões.

Segundo, não há segurança para um papel competitivo regular das importações de gasolina porque a infraestrutura para importação é precária e dominada pela Petrobrás.

Terceiro, os impostos representam cerca de metade do preço, somando CIDE, PIS/PASEP e Cofins na esfera federal e o ICMS dos estados, cujas alíquotas variam fortemente; em alguns casos superam 30%, como é o caso do Rio de Janeiro. Em vez de amortecer as variações dos preços internacionais, em alguns momentos os impostos acirram os movimentos de alta.

Quarto, há outros fatores de custo como o do etanol anidro que tende a subir de preço em períodos de entresafra como o atual.

Quinto, o preço final também depende da margem das distribuidoras. Este segmento tem registrado uma elevação de seus índices de concentração econômica, aumentando seu poder de mercado.

Portanto, antes de xingar o dono do posto, pense nos fatores acima. É evidente que em determinados mercados locais pode haver combinação ilícita de preços, caso em que o Cade deve atuar com máximo rigor. Mas lembre-se que são milhares de mercados, cada um com suas características, exigindo investigação técnica e específica.

Em alguns casos houve punições e o preço caiu. Mas não se iluda com soluções mágicas ou gerais. É jogo pra arquibancada do governo.


Inflação de janeiro abre brecha para mais um chorinho de queda nos juros
Comentários Comente

Gesner Oliveira

A inflação oficial do país no mês de janeiro ficou em 0,29%, a taxa mais baixa para janeiro desde a criação do Plano Real em 1994. Foi uma surpresa positiva que talvez abra brecha para mais uma redução na taxa de juros pelo Copom.

Mas o Copom não falou ontem que era o fim do ciclo de queda dos juros? Sim, mas a inflação dos últimos doze meses caiu para 2,86%, abaixo do esperado.  Em 12 meses, o índice acumula avanço de 2,86%, o menor desde 2007 (2,99%).

Os preços relativos a transportes, apesar de terem registrado a maior variação em janeiro, perderam força e puxaram o resultado do IPCA. De uma alta de 1,23% em dezembro, o índice desse grupo de gastos desacelerou para 1,1%. Isso se deve, principalmente, à queda nos preços das passagens de avião, que ficaram 1,35% mais baratas depois de um dezembro com alta de 22,28%.

O leitor não percebeu a diminuição de preço nas passagens aéreas em janeiro? É assim mesmo. Aumento de preço dói no bolso. Queda, a gente nem percebe.

Por outro lado, seguem pressionando esse grupo de despesas itens como combustíveis (2,58%), principalmente a gasolina, que exerceu o maior impacto individual no IPCA, e o etanol (3,55%). Também sofreram reajuste os valores do ônibus urbano e intermunicipais.

A safra agrícola recorde em 2016/17 fez os preços dos alimentos despencarem. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a produção de grãos superou 230 milhões de toneladas, alta de 28% frente à safra anterior. Quanto maior a oferta, menores os preços. A deflação acumulada no ano dos alimentos foi de 4,9% e, sem os alimentos, o IPCA teria fechado o ano na meta do BC de 4,5%.

Além disso, os preços de serviços estão cedendo. Se tal comportamento persistir, talvez haja uma brecha para mais uma pequena queda da taxa de juros. Mas não se tenha ilusão. Juros civilizados só com contas públicas minimamente equilibradas, para o que a reforma da previdência é indispensável.


Copom reduziu os juros pela 11ª (e última) vez
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Foi a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 2018. E a última redução do ciclo recente de queda do custo do dinheiro. Pelo menos esta é a leitura possível do comunicado do Copom. A  taxa básica de juros, a Selic, passou de 7% para 6,75% ao ano, alcançando o menor patamar desde a adoção do regime de metas para a inflação, em 1999. Também é a menor taxa de juros de toda a série histórica do Banco Central iniciada em 1986.

Há recados importantes no comunicado do Copom. Pela primeira vez, a recuperação foi reconhecida como consistente. E advertiu-se que embora favorável, o cenário externo também gera volatilidade como o susto com a queda generalizada das cotações das bolsas de valores na última segunda-feira. É bom estar preparado para a montanha-russa!

Em 16 meses, o Copom cortou a taxa Selic em pouco mais da metade, com redução de 7,5 pontos percentuais. A queda da inflação abriu espaço para a redução dos juros que é essencial para a continuidade da recuperação.

Então, por que interromper a queda? Só será possível reduzir os juros no longo prazo – e, consequentemente, estimular o crescimento de forma consistente – se houver a percepção de que o governo não terá de continuar se endividando cada vez mais.

Para isso a reforma da Previdência é fundamental.  Em outubro a dívida bruta chegou a 74,4% do PIB, um novo recorde da série que começou em 2006. Enquanto isso, o país gasta cada vez mais com benefícios previdenciários. Daí a importância da reforma da previdência, mesmo que em versão reduzida.

O Brasil ainda se encontra no G3 do campeonato mundial de taxa de juros reais (descontada a inflação), atrás apenas de Rússia e Turquia. Sem a reforma da Previdência, o atingimento de juros civilizados continuará sendo um sonho distante.


Como Trump pode ajudar as exportações brasileiras
Comentários Comente

Gesner Oliveira

A despeito da bagunça na política, as contas externas brasileiras têm trazido boas notícias. Em parte, devido à safra agrícola recorde para este ano, mas em grande medida pela produtividade do agronegócio, a expectativa é que o saldo da balança comercial feche 2017 com o melhor resultado da história, acima de US$ 60 bilhões.

Tal valor pode ainda sofrer um empurrão extra do presidente Donald Trump, por conta de seus planos de cortar impostos nos Estados Unidos.

O impacto das decisões de Trump sobre a política fiscal norte-americana na taxa de câmbio é mais simples do que parece. A ideia defendida por membros do Partido Republicano é de aliviar a carga tributária para empresas e para a população de classe média. O principal argumento é que menos impostos estimulariam o crescimento econômico, compensando as perdas de receita no curto prazo.

A despeito da polêmica em torno da ideia de Trump e dos republicanos, o fato é que a menor arrecadação no curto prazo teria um impacto nas contas públicas americanas. Estima-se que o corte de impostos possa elevar a já elevada dívida pública americana, de US$ 20 trilhões, em mais US$ 2 trilhões. O efeito disso é uma pressão para o banco central americano, o Fed, subir os juros. Mas por que?

Antes de empresar um dinheiro a um amigo, normalmente as pessoas fazem (ou deveriam fazer) uma rápida avaliação de sua situação financeira. Quanto menos garantias ou mais endividado ele estiver, mais risco. Quanto maior o risco, maior o retorno exigido por quem empresta. O mesmo mecanismo funciona para empresas, bancos e governos, como o dos EUA. Quanto maior a dificuldade do governo americano em pagar suas contas, maior tende a ser os juros que irá pagar para seus empréstimos. Mas e daí?

Quanto maior o retorno dos empréstimos em países ricos e desenvolvidos como os Estados Unidos, menor a disposição dos investidores em colocar dinheiro nos países emergentes e mais arriscados, como o Brasil. De maneira simplificada, se entram menos dólares no país, a tendência é que a moeda norte-americana valha mais, isto é, tenha maior preço. O mercado costuma se antecipar a esses movimentos e isso explica parte da subida do dólar, que ontem subiu 1,30% e passou da casa dos R$ 3,23, maior patamar desde julho.

Outros sinais dos EUA também ajudaram. Indicadores da atividade industrial americana de outubro vieram acima das expectativas e no maior patamar em nove meses. Quanto mais estiver crescendo a economia americana, maior tende a ser a pressão na inflação, o que também pode resultar em juros maiores por lá. Além disso, há a expectativa no mercado pelo próximo presidente do Fed, para assumir em 2018. Dependendo do nome que Trump escolher, os juros americanos podem subir mais rapidamente.

No curto prazo, a alta do dólar é motivo de comemoração para os exportadores brasileiros. Vão receber mais reais para cada dólar vendido. É daí que vem a ajuda de Trump. Se sua reforma tributária for aprovada, é razoável esperar um dólar mais caro. Isso ajuda as exportações brasileiras.

Mas para ganhar competitividade mesmo, sem depender dos humores do Trump ou de quem quer que seja, a indústria brasileira precisa aumentar sua produtividade, produzindo mais e melhor com menos recursos. Não é impossível. Tome-se o exemplo do agronegócio.


O que muda no seu bolso com o ataque à Síria?
Comentários Comente

Gesner Oliveira

O lançamento de 59 Tomahawks contra uma base aérea Síria pegou o mundo de surpresa. De imediato o preço do petróleo subiu, assim como o ouro, reflexo do comportamento dos investidores que buscavam ativos mais seguros. As bolsas passaram a operar no vermelho sugerindo cautela. Além dessas reações momentâneas, qual o impacto deste ataque no seu dia a dia?

Um dos impactos pode ser na taxa de juro que nada mais é do que o custo do dinheiro. O Banco Central vem reduzindo a taxa Selic que é a taxa básica de juros da economia. Em setembro de 2016, a Selic estava em 14,25%; transcorridos seis meses, houve uma redução de dois pontos percentuais, levando a taxa para 12,25%. A projeção é que a taxa continue caindo e chegue ao final de 2017 em 8,75%.

Mas esta queda depende de alguns fatores. Um deles é que o cenário externo não apresente grandes reviravoltas. Com um cenário externo incerto, o preço do petróleo pode ter uma alta inesperada e investidores evitando correr para o dólar, elevando seu preço nas moedas de países emergentes como o Brasil. Um aumento do preço do dólar em reais aliado à elevação do preço do petróleo tornaria os importados mais caros, aumentando o preço dos combustíveis no país e tornando o cenário de queda da inflação mais difícil.

No entanto, até agora é razoável supor que a crise da Síria ainda continua localizada. Por enquanto, não há porque esperar forte impacto negativo sobre as bolsas, tampouco sobre as moedas. Os eventos recentes não alteram a projeção de continuidade de redução da taxa de juros. Na reunião do Copom a ser realizada dia 12 de abril para definir a nova taxa de juros, a previsão ainda é de queda de 1 pp., levando a nova taxa para 11,25%. Menos mal para o consumidor que que já paga juros elevadíssimos.

Mas uma coisa é certa: o mundo está mais incerto. E, portanto, sujeito a crises frequentes que alteram os principais preços para as economias nacionais. Uma escalada da guerra da Síria que leve a uma fuga em direção ao dólar poderia obrigar uma nova elevação dos juros, abortando a frágil recuperação da economia brasileira. Neste cenário, persistiria o elevado desemprego que atualmente atinge 13,5 milhões de pessoas.

Na era da globalização, qualquer conflito mesmo que do outro lado do planeta pode afetar o poder de compra de seu salário, sua poupança financeira e até mesmo o seu emprego.