Blog do Gesner Oliveira

Arquivo : juros

Crianças, exijam presentes melhores, economia em recuperação!
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Há bons argumentos para os pequenos na legítima barganha por um presente melhor no Dia das Crianças. Afinal, a recessão acabou.

O cenário de queda dos juros e de inflação, somado à melhora no mercado de trabalho e de crédito, têm afetado positivamente o comércio. O dado do setor de agosto mostrou que as vendas no varejo cresceram 3,6% na comparação com o mesmo mês do ano passado, a quinta alta seguida nessa base de comparação. Assim, não surpreende o otimismo com as vendas no Dia das Crianças deste ano. É a recuperação da economia.

Depois de uma queda acumulada de mais de 11% no biênio 2015/16, a expectativa para o Dia das Crianças deste ano é de alta de 3,4% nas vendas, o melhor resultado em quatro anos.

A data existe desde 1925, após decreto aprovado pelo então presidente Arthur Bernardes um ano antes. Passou a ser de fato assimilada pelos brasileiros apenas 30 anos depois, quando a marca Estrela, de fabricação de brinquedos, investiu em uma campanha para aumentar suas vendas. Hoje é uma data importante para o setor de comércio e dá bons sinais de como os consumidores devem se comportar no Natal.

De acordo com pesquisa elaborada pela FGV/IBRE, os brasileiros estão mais dispostos a gastar neste 12 de outubro. A média de intenção de gasto para o Dia das Crianças ficou em R$ 82,50 neste ano, contra R$ 78,60 em 2016. O indicador que mede o ímpeto de gastos avançou 5 pontos, de 59,3 para 64,3, interrompendo trajetória de queda iniciada em 2014.

Para se ter uma ideia, no ano passado a mesma pesquisa apontava que quase metade dos entrevistados pretendiam reduzir os gastos no feriado em relação ao ano de 2015, o que representou a menor intenção de compra de presentes em 11 anos. De fato, os resultados comprovaram a gravidade da crise. As vendas do Dia das Crianças caíram 3,6% em 2015 e 8,1% em 2016.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a expectativa é de que a data neste ano movimente R$ 7,4 bilhões, uma variação de 3,4% frente ao ano passado. Os setores de lojas de vestuário e calçados, com alta de 10,2%, seguido de brinquedos e eletroeletrônicos, com alta de 5,7% devem puxar o crescimento.

Também há otimismo no e-commerce. A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) estima faturamento de R$ 2,15 bilhões nas lojas virtuais, alta de 5% ante 2016.

O que mudou? O ambiente macro. Há um ano, a taxa de juros Selic estava em 14,25% ao ano contra 8,25% na atualidade, devendo fechar 2017 em 7%. A taxa média de juros das operações de crédito seguiu a mesma tendência, saindo de 33% ao ano em agosto do ano passado para 28,45% em agosto desse ano. Caíram o endividamento das famílias e a inflação. O acumulado em 12 meses do IPCA batia 8,48% há um ano, enquanto hoje está em apenas em 2,54%.

O impacto da inflação nos produtos mais demandados no Dia das Crianças explica parte do otimismo para este ano. O acumulado em 12 meses do IPCA de brinquedos, caiu de 9,62% em setembro de 2016 para 0,37% em setembro deste ano. Na mesma base de comparação, a taxa acumulada de chocolates em barra e bombons era de 23,42% e passou para deflação de 6,35%. Eletrodomésticos e equipamentos passaram de 4,43% para deflação de 2,44%; roupas infantis passaram de 4,29% para 2,61%; bicicletas de 6,01% para deflação de 0,42%; CDs e DVDs já vinham em queda de 0,86% e caíram ainda mais, para -1,18%; e assim vai.

Infelizmente nem todos poderão celebrar com tranquilidade. Há mais de 13 milhões de desempregados. O crescimento vigoroso para dar oportunidade a todos só virá quando não faltar para as crianças brasileiras aquilo que elas mais precisam e que até elas topariam trocar por um brinquedo: saúde e educação.


Juros em 2017: menor da história brasileira, um dos maiores do mundo
Comentários Comente

Gesner Oliveira

2017 deve terminar com a taxa básica de juros em 7% ao ano, a mais baixa da história brasileira, mas ainda elevadíssima para padrões internacionais.

Isso é possível porque a inflação está bem comportada. O índice oficial de inflação do país (IPCA) apresentou alta de 0,19% no mês de agosto. O dado surpreendeu positivamente o mercado que esperava alta de 0,32%. É a 12ª queda consecutiva do indicador no acumulado em 12 meses e mostra a força com que a inflação está caindo.

A taxa Selic atingiu o menor nível em outubro de 2012, quando chegou a 7,25% ao ano e permaneceu assim até abril do ano seguinte. Porém, na época, a situação era outra. A inflação terminou em 5,91% em 2013, muito próximo do teto da meta. Além disso, havia forte controle sobre os preços administrados e grande volatilidade no preço do dólar.

Hoje, a taxa de juros está em queda sem artificialismo. O câmbio está relativamente estável, os preços administrados como a gasolina estão liberados e a queda da inflação é consistente e disseminada em toda a economia.

Com o último resultado, o IPCA atingiu a marca de 2,46% no acumulado de 12 meses, abaixo do piso da meta de 3,0%. É provável que a inflação termine 2017 próxima a 3,0%, a menor taxa da história econômica do pós-guerra.

A taxa de juros não pode ser reduzida por decreto. É necessário que haja condições para isso. Experiências passadas mostram que, cedo ou tarde, o preço do populismo chega. Mas atualmente, há um cenário favorável, uma janela de oportunidade para uma redução ainda maior.

Depois da maior crise do país, um aumento no ciclo de redução da taxa de juros será benéfico  para as pessoas e para a produção. Ainda há um longo caminho a ser percorrido que passa pela pelas reformas. Mas pelo menos o país está na direção correta para se livrar da anomalia de uma das maiores taxas de juros do planeta.


Para os juros continuarem caindo, setor público deve parar de se endividar
Comentários Comente

Gesner Oliveira

O aumento dos preços dos combustíveis na bomba não irá comprometer a queda dos juros no curto prazo. Apesar do impacto esperado de até 0,53 ponto percentual na inflação, a queda dos preços nos últimos meses ainda deixou espaço para uma redução de 1 ponto percentual da Selic, a taxa básica de juros da economia. Pela primeira vez em quatro anos, espera-se uma taxa de juros abaixo dos dois dígitos, o que tende a estimular o consumo pelas empresas e famílias.

No índice de inflação, há um grupo que segue os preços dos transportes. Quando aumentam os preços dos combustíveis, aumenta a inflação. Dentre os diferentes combustíveis, a gasolina é a com o maior peso no índice e foi a que teve o maior reajuste nas alíquotas (11,78%). Por isso, será responsável pelo maior impacto, de 0,44 ponto percentual. A expectativa do mercado para a inflação no final do ano deve caminhar para a casa dos 3,5% a 3,6%, bem menor que os quase 11% atingido em 2015.

Mas ainda há espaço para a queda dos juros. Em primeiro lugar, o nível de ociosidade na economia é muito alto, tanto de capital, como de trabalho. Em segundo, o preço do dólar já voltou aos patamares anteriores à delação da JBS.  Terceiro, a safra agrícola recorde pressiona os preços dos alimentos para baixo.

Assim, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), na próxima reunião nesta quarta-feira, deve reduzir a taxa Selic em 1 ponto percentual, para 9,25% ao ano. Será a primeira vez desde 2013 que a taxa não fica em apenas um dígito. Até o final do ano, a inflação não deve ser um problema para o comitê e, assim, espera-se que a taxa chegue a 8% ao ano até o final do ano.

Essa é uma boa notícia para as empresas e famílias. O corte nos juros é um estímulo à recuperação do consumo e investimento. A economia mais aquecida ajuda a recuperar o mercado de trabalho, que ainda aflige cerca de 14 milhões de brasileiros.

Contudo, o que irá garantir a queda dos juros no longo prazo é a saúde das contas públicas. Quanto mais o setor público se endivida, menor sua credibilidade como bom pagador e maior o retorno exigido para emprestar para o governo.  Ou seja, sobem os juros.

A dívida pública mobiliária federal (DPF), isto é, a soma das dívidas de todos os órgãos do Estado brasileiro, incluindo o Governo Federal, Estados, Municípios e empresas estatais, atingiu R$ 3,357 trilhões no mês de junho. Uma alta de 3,22% em relação ao mês de maio e de 7,86% no primeiro semestre.

Tal dívida representa hoje cerca de 72,5% da dívida total do setor público. O restante corresponde às chamadas operações compromissadas que o Banco Central faz com o mercado financeiro (25,2%) e dívidas bancárias e externas de Estados e municípios (2,3%).

Outros países emergentes tem uma dívida menor como proporção do PIB: 17,1% na Rússia, 49,4% na Argentina e 49,3% na China.

A dívida pública brasileira não só se encontra em patamar elevado como está em trajetória de crescimento muito acelerada. A expectativa é que chegue a cerca de 90% em meados da próxima década, entre 2022 e 2023.

A queda dos juros só é uma boa notícia se for sustentável. Assim, o maior desafio da economia brasileira não é reduzir os juros no curto prazo. Mas sim, criar condições para que a queda da taxa de juros seja permanente, e se aprofunde ainda mais no médio prazo. Para isso é fundamental o setor público deixar de ser um potencial caloteiro, isto é, estancar a explosão de endividamento. Para que isso ocorra, não se pode abrir mão da reforma da previdência.


Juros menores para quem paga suas contas
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Informação é fundamental no mercado de crédito. Quando quem empresta não sabe quem paga e quem dá calote, o resultado é juros mais altos para o bom pagador. É isso que ocorre hoje no Brasil. Os maus pagadores estão escondidos no meio da multidão e acabam onerando a conta de todos.

Mas isso pode mudar. A proposta do governo é aprimorar o chamado cadastro positivo de crédito, uma ideia antiga que já virou lei, mas ainda não pegou. Atualmente existem cerca de 150 milhões de contas correntes no Brasil, mas apenas 5 milhões de pessoas fazem parte do cadastro positivo.

Estima-se que atualmente mais de 22 milhões de brasileiros bons pagadores estão fora do mercado de crédito. Isso porque ou desistem de obter um empréstimo devido aos juros altos ou porque têm seus pedidos de financiamento negados por lojas e bancos, devido à baixa quantidade e qualidade das informações sobre seu histórico de crédito no mercado. Incluir todas essas pessoas, segundo a Serasa Experian, significaria uma injeção de R$ 1,1 trilhão na economia por meio do aumento de operações de crédito.

O mercado de crédito é caracterizado por esta falha: a assimetria de informação, que ocorre sempre que dois agentes efetuam uma transação e um possui mais informações que o outro sobre o que está sendo transacionado. No caso de um empréstimo bancário, o banco possui menos informações sobre a capacidade de pagamento do indivíduo do que o próprio tomador. O risco de inadimplência é levado em consideração na taxa do empréstimo, representando um maior custo do dinheiro para todos, bons e maus pagadores. O bom pagador arca com parcela do custo representado pelo inadimplente.

A proposta em estudo no governo é de gerar mais informação no mercado de crédito, para reduzir as incertezas e, consequentemente os juros para quem paga suas contas. A ideia é aprimorar o cadastro positivo, tornando-o muito mais amplo.

Hoje o cadastro positivo é restrito por duas razões. Primeiro, os bancos resistem a abrir os dados de crédito para os gestores de dados por temerem quebrar a lei do sigilo bancário. Segundo, ainda é burocrático o processo de adesão por parte do consumidor ao cadastro positivo, havendo a exigência de prévia autorização.

Com relação ao primeiro problema, está em elaboração um projeto de lei que irá alterar a lei de sigilo bancário, de 2001. A ideia é deixar claro que o repasse pelos bancos de dados sobre o histórico de crédito de seus correntistas para o Cadastro Positivo não constitui violação do sigilo bancário.

Tal mudança abre espaço para o governo, por meio de uma Medida Provisória (MP), alterar o mecanismo atual de registro no Cadastro Positivo. Hoje a lei que disciplina a formação e consulta de dados para formação de um histórico de crédito exige autorização prévia do potencial cadastrado. Com a medida, o modelo se inverte: todos farão parte do Cadastro Positivo, e quem quiser sair pode solicitar sua exclusão, como ocorre de forma bem-sucedida nos Estados Unidos.

A estimativa é que com a mudança, haja uma redução nos juros para cerca de 74% da população adulta que hoje tem acesso a crédito. Além disso, o acesso ao histórico de crédito das pessoas tende a reduzir o número de calotes, dado que os que não honram suas dívidas terão mais dificuldade em pegar empréstimos. De acordo com a Febraban, 30% do spread dos bancos (diferença entre o custo para o banco tomar empréstimo e o quanto ele cobra do consumidor na operação de crédito) é devido aos riscos de calote. Nos Estados Unidos, tal sistema reduziu em 43% o índice de inadimplência.

Histórico de crédito é essencial. Não faz sentido quem paga suas contas pagar mais e ter menos acesso a crédito por causa dos caloteiros. Quanto mais informação neste mercado, mais crédito e menores os juros. Tem que valer a pena ser pagador.


Inflação em queda. Juros menores para os consumidores?
Comentários Comente

Gesner Oliveira

A queda da inflação é sempre uma boa notícia para o consumidor. Segundo o IBGE, o indicador oficial de inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), saiu de 0,38% em janeiro para 0,33% fevereiro, mostrando uma leve desaceleração. É a taxa mais baixa para o mês desde 2000.

No acumulado de 12 meses, o IPCA atingiu 4,76%, seguindo na sua trajetória de queda e se aproximando da meta estipulada pelo Banco Central de 4,5%. Desde junho de 2012, é a primeira vez que o acumulado de 12 meses fica abaixo de 5%. No ano passado, a inflação oficial no Brasil foi de 6,29%, dentro do limite máximo da meta.

O grupo de educação foi o que apresentou maior variação, com alta de 5,04%. Por outro lado, alimentação e bebidas apresentaram deflação (inflação negativa) de 0,45%. A variação positiva do grupo educação reflete os reajustes feitos geralmente no início do ano nas mensalidades escolares. O grande alívio veio dos alimentos em virtude da boa safra agrícola.

A queda da inflação afeta a vida econômica das pessoas de várias maneiras. Destaquem-se duas delas. A primeira é aumentando o poder de compra das pessoas. Em um cenário de inflação alta, como em 2015 onde a inflação terminou o ano em 10,67%, as pessoas compram menos bens e produtos com o mesmo salário. No sentido oposto, em um cenário de baixa inflação, não há essa perda do poder de compra. Ao que tudo indica, é nesse sentido que o país começa a caminhar.

A segunda maneira reflete como a queda da inflação tem outros reflexos na economia. O atual cenário é de inflação do centro da meta de 4,5%, câmbio relativamente apreciado entre R$ 3,10 e R$ 3,30 e relativo avanço na reforma da previdência. Essa combinação abre espaço para que o Banco Central reduza em 1 ponto percentual os juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM). A taxa de juros básica da economia (Selic) atual é 12,25%.

Dessa maneira, a queda da Selic possibilitaria a redução das taxas de juros que chegam ao consumidor, que, embora sejam muito diferentes da atual taxa Selic, apresentam certa relação. Entre diversos exemplos, a taxa do cheque especial está em 328% aa. e a  taxa média de juros do crédito pessoal 141% aa. Uma Selic menor contribui para que os juros que chegam ao consumidor também sejam menores.

Ao que tudo indica, o cenário caminha para uma inflação no centro da meta em 2017, próxima dos 4,5% e com isso juros menores para os consumidores. Apesar disso, há pontos sensíveis como o avanço das reformas no congresso, que não são triviais de serem aprovadas e podem mudar de uma hora para outra. Embora o cenário esteja melhorando, é necessário cautela para não se comemorar cedo demais.


Economia, política e seu bolso
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Um controle mais rígido dos gastos, o cenário de inflação baixa e a queda dos juros básicos da economia são indicadores que sugerem uma melhora da economia. Mas a política pode atrapalhar. A reforma da Previdência, peça essencial para o ajuste fiscal, promete uma aprovação mais difícil do que se chegou a imaginar há poucas semanas.

O primeiro mês da emenda constitucional de limite de gastos teve um resultado positivo, apresentando corte de despesas de 13,2% em termos reais. O governo central, que engloba o Tesouro Nacional, a Previdência Social e o Banco Central, obteve, no primeiro mês de vigência da emenda constitucional que fixou o limite de incremento anual do gasto público, um superávit de R$ 19 bilhões.

O número é significativo, especialmente se comparado ao déficit de R$ 60 bilhões, verificado em dezembro, e ao superávit de R$ 14,8 bilhões de janeiro de 2016. Além disso, reforça a importância da reforma da Previdência para o ajuste fiscal. Apesar do superávit, os números mostram que o déficit do INSS continua elevado e chegou a R$ 13,37 bilhões no mês. Foi compensado por um bom desempenho do Tesouro e BC, com superávit de R$ 32,34 bilhões.

Um controle mais rígido dos gastos se soma a um cenário de inflação baixa e de queda dos juros básicos da economia. O corte de 0,75 ponto percentual na Selic, para 12,25% ao ano, na segunda reunião do ano do Comitê de Política Monetária (Copom), deve ajudar na recuperação prevista para este ano, de 0,5%. Com a desaceleração da inflação, a expectativa é de que a taxa básica chegue a 9,5% no final deste ano e a 9% no encerramento de 2018.

Se a economia melhorou, a política pode atrapalhar. Há um intenso trabalho do Planalto em tentar a aprovação da reforma da Previdência ainda no primeiro semestre, com uma votação inicial na Câmara do Deputados em meados de abril. Como indicado nas contas do governo central de janeiro, trata-se de peça chave para sanar o rombo nas contas públicas. Mas tudo indica que a aprovação será mais difícil do que se imaginava há poucas semanas.

De acordo com pesquisa preliminar liderada pelo cientista político Leonardo Barreto, com uma amostra de 200 deputados federais no início de fevereiro, não há consenso na Câmara dos Deputados capaz de garantir a aprovação das principais medidas da reforma apresentadas pelo governo. O levantamento mostra que nenhum dos principais pilares da reforma previdenciária, como tempo de contribuição e idade mínima, passarão fácil pelo Congresso.

Além disso, apenas 38% dos deputados entrevistados disseram concordar com a tese da Fazenda de que “apenas com a reforma da previdência será possível retomar o desenvolvimento econômico”. Consideradas em conjunto, a média de respostas que conferem prioridade alta às propostas do governo foi de apenas 20,5%.

Embora ainda seja cedo para ter uma visão mais precisa da posição dos deputados na votação da reforma, está claro que o relativo otimismo do governo e do mercado quanto à velocidade de aprovação da reforma pelo Congresso ainda não tem uma base sólida.

Tal fato, aliado ao licenciamento do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, com reconhecida capacidade de articulação e liderança, colocará novos desafios ao governo e poderá provocar volatilidade nos mercados nas próximas semanas.

Como isso afeta seu bolso? Prepare-se para certa instabilidade nas aplicações na Bolsa Valores e no preço do dólar.


O que decidirá o Copom?
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Eis a questão mais relevante para a economia nesta semana de pré-Carnaval. A decisão dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), que será anunciada amanhã no final da tarde, afetará suas dívidas, suas aplicações financeiras e a capacidade de a economia recuperar a produção, e o mais importante, o emprego.

Do ponto de vista técnico, haveria condições para reduzir a taxa primária de juros, a chamada Selic, em 1 ponto percentual. Isto levaria a Selic dos atuais 13% ao ano para 12% ao ano.

Isso se deve à redução da taxa de inflação. As projeções do mercado nesta semana apontam para uma inflação em 2017 de 4,43%, inferior à meta de 4,5%, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Foi a sétima redução consecutiva das expectativas do mercado.

Três fatores têm colaborado para este comportamento da inflação. Primeiro, a forte recessão, que produziu uma ociosidade média na indústria de 26% em 2016, chegando a mais de 40% em alguns casos, como o da indústria de cimento, com 43%. Segundo, a queda do preço do dólar, barateando os preços dos produtos comercializáveis. Terceiro, a perspectiva de uma safra recorde neste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima produção de 219,1 milhões de toneladas, o que afasta o risco de choques de preços agrícolas que morderam tanto o bolso do consumidor no passado recente.

Mas uma coisa é a melhor decisão e outra é a mais provável. O Copom deverá ser mais conservador e restringir o corte em 0,75 pp. Isso é coerente com o discurso do Banco Central nos últimos dias. A última coisa que um banqueiro central deseja é surpreender o mercado.

Seria desejável que o comunicado emitido por ocasião da decisão trouxesse nas entrelinhas uma mensagem de continuidade da redução rápida dos juros. É raro surgir uma janela como a atual para diminuir o custo do dinheiro no Brasil. É hora de aproveitá-la e acelerar mais ainda as reformas, abrindo o caminho para a recuperação consistente da economia.


Redução da Selic de 0,75 p.p. foi acertada
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Foi anunciada há pouco a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic para 13,00% a.a., reduzindo a taxa primária de juros da economia em 0,75 ponto percentual (“p.p.”). A maioria do mercado esperava um corte de 0,5 p.p.

O Copom acertou. Era necessário sinalizar uma aceleração no ritmo de corte que até então vinha sendo feito em doses de 0,25 p.p.

O comunicado do órgão destacou que a atividade econômica ainda está muita fraca. Os índices de emprego e produção ainda estão em queda. O Copom também reconheceu que a inflação no curto prazo está abaixo do esperado e as expectativas de inflação próximas à meta de 4,5%.

Ressalte-se que o Copom avaliou que a eleição de Trump não gerou nenhum efeito forte na taxa de câmbio, que voltou a girar em torno de R$ 3,20. Na cifrada linguagem do Copomês, “…até o momento, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados”. Leia-se, o Trump foi eleito, mas o mundo não acabou.

Por fim, o Copom reconheceu que o ajuste fiscal segue em ritmo mais rápido que o esperado. A   aprovação da PEC de limitação de gastos e o envio da reforma da previdência constituem os exemplos mais importantes.

Diante dessas evidências, o Copom decidiu, de forma correta, acelerar o ritmo de queda dos juros. E o mais importante é que o comunicado explicita que deve manter esse ritmo de queda de 0,75 p.p. nas próximas reuniões.

Diante de uma economia em frangalhos, acelerar a redução da taxa de juros tem diversos impactos na economia.

Quando o Banco Central diminui a taxa, todas as outras taxas tendem a cair, pois a taxa Selic serve como taxa básica de juros de referência para o mercado. Do lado das empresas, elas podem se financiar com juros menores e, portanto, podem, em princípio, investir mais. Do lado das famílias, os indivíduos podem obter mais créditos e passam a consumir mais. Com a demanda maior, as empresas passam a produzir mais, efeitos que aquecem a economia com efeitos multiplicadores.

Foi a maior redução da taxa básica de juros da economia desde de abril de 2012. Sinal promissor para 2017.

Veja na integra o comunicado do Copom

Copom reduz a taxa Selic para 13,00% ao ano

 

O Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 13,00% a.a., sem viés.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

O conjunto dos indicadores sugere atividade econômica aquém do esperado. A evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente;

No âmbito externo, o cenário ainda é bastante incerto.  Entretanto, até o momento, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados;

A inflação recente continuou mais favorável que o esperado. Há evidências de que o processo de desinflação mais difundida tenha atingido também componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico;

A inflação acumulada no ano passado alcançou 6,3%, bem abaixo do esperado há poucos meses e dentro do intervalo de tolerância da meta para a inflação estabelecido para 2016;

As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus recuaram para em torno de 4,8% para 2017, e mantiveram-se ancoradas ao redor de 4,5% para 2018 e horizontes mais distantes;

As projeções condicionais do Copom também recuaram em relação às divulgadas no Relatório de Inflação passado, que foram baseadas no conjunto de informações disponíveis até 9 de dezembro de 2016. Dentre outros fatores, os recuos nas projeções foram influenciados por dados de inflação e atividade econômica divulgados desde então. As projeções no cenário de referência encontram-se em torno de 4,0% e 3,4% para 2017 e 2018, respectivamente. Já no cenário de mercado, situam-se em torno de 4,4% e 4,5% para 2017 e 2018, respectivamente; e

Os passos no processo de encaminhamento e aprovação das reformas fiscais têm sido positivos até o momento.

O Comitê ressalta os seguintes riscos para o cenário básico para a inflação:

Por um lado, (i) o alto grau de incerteza no cenário externo pode dificultar o processo de desinflação; (ii) o processo de desinflação de alguns componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária requer atenção contínua; (iii) o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia é longo e envolve incertezas;

Por outro lado, (iv) a atividade econômica mais fraca e o elevado nível de ociosidade na economia podem produzir desinflação mais rápida que a refletida nas projeções do Copom; (v) a inflação tem se mostrado mais favorável, o que pode sinalizar menor persistência no processo inflacionário; e (vi) o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia pode ocorrer de forma mais célere que o antecipado.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, pela redução da taxa básica de juros para 13,00% a.a., sem viés. O Comitê entende que a convergência da inflação para a meta de 4,5% no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui os anos-calendário de 2017 e, com peso gradualmente crescente, de 2018, é compatível com intensificação da flexibilização monetária em curso.

O Copom avaliou a alternativa de reduzir a taxa básica de juros para 13,25% e sinalizar uma intensidade maior de queda para a próxima reunião. Entretanto, diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização. A extensão do ciclo e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco mencionados acima.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Ilan Goldfajn (Presidente), Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Viana de Carvalho, Isaac Sidney Menezes Ferreira, Luiz Edson Feltrim, Otávio Ribeiro Damaso, Reinaldo Le Grazie, Sidnei Corrêa Marques e Tiago Couto Berriel


Hora de acelerar a redução dos juros
Comentários Comente

Gesner Oliveira

 A primeira reunião do Copom de 2017 ocorre hoje e amanhã. Depois de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual nas duas últimas reuniões de 2016, a decisão é importante para sinalizar uma aceleração no corte de juros.

Por mais longínqua que pareça, a decisão do Copom afeta seu cotidiano.  Menos inflação significa maior poder de compra para as famílias e empresas, maior capacidade de previsibilidade dos preços, e um ambiente mais favorável para se planejar para o futuro. Além disso, o Banco Central poderá reduzir a taxa de juros e ajudar na recuperação da economia no curto prazo.  Juros menores significam menor custo para as famílias e empresas tomarem novos empréstimos ou conseguirem renegociar com taxas mais baixas de dívidas antigas. Juros menores estimulam as empresas a fazerem novos investimentos produtivos, e as famílias a adquirirem bens de consumo duráveis.

Uma coisa é saber o que o Banco Central vai fazer. Outra é o que seria recomendável que a autoridade monetária fizesse. A opção provável é de um corte de 0,50 p.p., levando a taxa Selic para 13,25% ao ano, patamar de abril de 2015. Mas o Banco Central deveria reduzir mais rápido: algo como uma redução de 0,75 p.p. já nesta reunião.

Vários fatores justificam esta aceleração na redução dos juros: a inflação desacelerou e as expectativas estão convergindo para a meta de 4,5% a.a.

Amanhã o IBGE divulgará o resultado final do IPCA de 2016. O mercado espera que o índice oficial de inflação suba cerca de 0,35% em dezembro e assim, encerre 2016 com alta de 6,35%, abaixo do teto da meta, de 6,5%.

A atividade econômica, por sua vez, segue muito fraca. Há elevada ociosidade tanto na capacidade instalada das empresas, e elevado desemprego. O crescimento da produção industrial de apenas 0,2% em novembro, frustrou o mercado, que esperava uma alta maior.  E no geral, os indicadores de atividade e emprego têm mostrado sido pouco animadores.

Um outro ponto a favor de uma maior redução da taxa Selic é o comportamento dos mercados. O dólar tem estado nos últimos dias perto de R$ 3,20. Próximo da taxa de R$ 3,17, registrada no dia anterior à eleição de Donald Trump nos EUA. Depois de um período turbulento inicial, os mercados acalmaram; e com a perspectiva de um crescimento econômico maior nos EUA nos próximos anos, os preços das commodities voltaram a subir, o que ajuda a explicar esta recente queda do dólar. Outro fator positivo que ajuda a conter a alta da inflação aqui dentro.

Por fim, e ainda que se quisesse mais, u dever de casa ainda por fazer. A PEC do teto de gastos foi aprovada no fim do ano passado e a reforma da previdência já foi encaminhada para o Congresso. Ambos acontecimentos ajudam a reduzir o temor sobre a sustentabilidade da dívida pública.

Uma atividade econômica ainda fraca; Inflação em desaceleração e com expectativas ancoradas; ajuste fiscal avançando no Congresso; nenhum grande choque nos mercados, em especial na taxa de câmbio, depois da eleição de Donald Trump geraram um cenário favorável para o Copom acelerar o corte da taxa Selic em pelo menos 0,50 ponto percentual, embora haja mais espaço para uma redução de 0,75 p.p.

A condução da política monetária exige enorme sensibilidade e talento. Ás vezes até maior do que na mais requintada gastronomia. A ver se o Banco Central não perde o ponto do açúcar.

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados


Alta dos juros nos EUA é mais um fator de risco para o Brasil em 2017
Comentários Comente

Gesner Oliveira

Ontem, na última reunião do ano do comitê de política monetária dos Estados Unidos (Fomc, em inglês), o colegiado optou por subir os juros em 0,25 ponto percentual, para 0,75% ao ano. Apesar da decisão ser esperada, os mercados locais reagiram com apreensão.

A economia norte-americana apresenta sinais de aceleração da atividade, como a prévia do PIB do terceiro trimestre que subiu a uma taxa anualizada de 3,2%. Além disso, a taxa de desemprego está em cerca de 4,6%, muito abaixo da taxa de 10,0% registrada em outubro de 2009, no auge da crise financeira internacional, sem contar que a inflação mostra sinais de aceleração, mas ainda abaixo da meta de 2,0% aa.

Diante desse cenário, e dos últimos comunicados do Fomc, a decisão não foi uma surpresa. Entretanto, o que explica esta reação negativa foi a mudança na projeção dos membros do comitê, que agora veem uma taxa de juros mais alta para 2017 e 2018.

Na última reunião em setembro, a projeção era que o juro nos EUA subisse para 1,1%, agora a projeção é de 1,4%. Ou seja, ao invés de dois aumentos para o ano que vem, o Fomc agora projeta três elevações.  Tal mudança nas projeções do Fomc tem a ver com a perspectiva de uma política fiscal mais expansionista de Donald Trump, que pressionaria a inflação por lá e exigiria juros maiores para manter a inflação dentro da meta de 2,0%.

Para o Brasil esta é mais uma notícia negativa. Juros maiores, e além disso, a expectativa que eles fiquem maiores nos EUA leva os investidores a fugirem de ativos mais arriscados, como os brasileiros, fazendo o dólar subir. A princípio, a inflação aqui dentro segue sua trajetória de desaceleração, mas, caso o dólar mantenha uma trajetória de alta, isso pode ligar o sinal amarelo e fazer os juros caírem menos aqui. E seria mais um fator negativo para a tão aguardada retomada da atividade econômica em 2017.

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados