Blog do Gesner Oliveira

Carne brasileira barrada nos Estados Unidos não é o fim do mundo
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Gesner Oliveira

Em tempos de crise, a sorte não costuma ajudar. Um choque sobre um dos produtos mais importantes da pauta de exportação era a última coisa que o país precisava. Os Estados Unidos decidiram suspender todas as importações de carne bovina in natura (fresca) do Brasil.

O argumento é que esta medida se deve aos problemas sanitários dos produtos brasileiros. Como ninguém é bonzinho no comércio internacional, não é improvável que os Estados Unidos estejam tirando proveito do péssimo efeito de imagem da desastrada Operação Carne Fraca para jogar duro com o Brasil.

Inda bem que o impacto da medida dos EUA não é tão grande, pelo menos em termos quantitativos. A relevância financeira é pequena. O Brasil não é grande exportador para o mercado norte-americano. Os EUA não estão entre os dez maiores importadores de carne brasileira. Em carne in natura, os Estados Unidos é apenas o nono colocado. De janeiro a maio deste ano, o valor das exportações de carne bovina in natura do Brasil para os EUA somou US$ 49 milhões. A China importou US$ 330 milhões do produto brasileiro e, em segundo lugar, Hong Kong comprou US$ 316 milhões. A Rússia, que acaba de receber a visita do Presidente Temer, ficou em terceiro com US$ 190 milhões.

Porém, em termos qualitativos, a decisão dos Estados Unidos influencia o resto do mundo. A chancela dos EUA dava ao país possibilidade de conseguir entrar em mercados importantes para a carne in natura, como Rússia, China, Hong Kong. Uma vez que os americanos retiram o selo de qualidade da carne brasileira, há um dano à marca Brasil.

O Brasil teve as carnes “in natura” suspensas após o episódio da Vaca Louca em 2006. Desde então este tipo de exportação estava parado. Após uma década de intensas discussões e convencimento, conseguiu-se reabrir o mercado norte-americano de carne in natura, em maio de 2016. A felicidade durou pouco. 3 meses depois da Operação Carne Fraca que aconteceu em março deste ano e 11 meses de ter reaberto este mercado. O Brasil volta no tempo.

A imagem da carne brasileira saiu arranhada. Fica a lição de que qualquer investigação que possa ter impactos dessa magnitude seja conduzida com muito rigor, mas também com muita cautela. Afinal, os excessos de alardes nessa matéria podem ser um tiro no pé.


“O mago das mentiras”: verdades e lições sobre um golpe financeiro
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Gesner Oliveira

No mês passado, entrou em cartaz no Brasil o filme “O Mago das Mentiras” (The Wizard of Lies), estrelado por Robert de Niro e Michelle Pfeiffer. A trama descreve a história de Bernard Madoff, um ex-consultor financeiro norte-americano que criou uma das maiores empresas de investimentos de Wall Street. Condenado a 150 anos de prisão por fraude, ele foi responsável por uma sofisticada operação, nomeada Esquema Ponzi, ou uma Pirâmide de Investimentos, que foi considerada a maior fraude financeira da história dos EUA.

A fraude de Madoff resultou em prejuízos de US$ 65 bilhões para seus clientes. Foram quase duas décadas criando aplicações falsas em fundos inexistentes, gerando uma fortuna bilionária para ele mesmo e sua família. O dinheiro tem sido recuperado gradualmente pelo Departamento de Justiça Americano, que teria resgatado quase 70% dos recursos.

Um esquema Ponzi consiste em uma sofisticada operação fraudulenta, do tipo Pirâmide, em que os investidores mais antigos recebem rendimentos consideravelmente altos (no caso de Madoff, 1% ao mês), à custa do dinheiro novo pago pelos investidores que chegarem posteriormente, em vez da receita gerada por um negócio real. O nome do esquema refere-se ao criminoso financeiro ítalo-americano Charles Ponzi.

Bernie Madoff utilizou-se do seu prestígio (foi um dos fundadores da Bolsa eletrônica Nasdaq, em Nova York) para criar um fundo de investimentos altamente exclusivo, onde não era necessário apenas dinheiro para investir. Entre os clientes que confiaram em Madoff e perderam muito dinheiro no golpe a Wunderkinder Foundation, liderada pelo cineasta Steven Spielberg, e a Fundação para a Humanidade do Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, que foi sobrevivente do Holocausto.

Com a pressão da crise financeira de 2008, era uma questão de tempo até que esse frágil castelo de cartas desmoronasse. Quando o Banco Lehman Brothers quebrou e as Bolsas mundiais começaram a despencar, começou uma grande corrida de saques aos fundos de investimentos. Percebeu-se neste momento que Madoff nunca tinha comprado ações para seus clientes, remunerando-os com os novos depósitos.

Pasmem, a fraude passou despercebida pelos órgãos reguladores americanos. Quando o esquema foi desmascarado, já era tarde demais. Várias famílias perderam toda a poupança acumulada. O governo americano conseguiu recuperar US$ 11 bilhões e gradativamente as vítimas têm recebido os valores aplicados.

Moral da história: não se impressione com nomes famosos, ouça várias opiniões antes de investir, seja cético em relação à capacidade dos reguladores e desconfie de promessas de rendimentos muito acima do mercado. E tenha um bom filme!


Combinando com os russos (e com o resto do mundo)
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Gesner Oliveira

Apesar da crise, o país não pode ficar parado no tempo e se isolar do resto do mundo. A maior inserção do Brasil nas cadeias globais de comércio e nas discussões sobre temas como o meio ambiente é fundamental para o desenvolvimento.

Como alertado pelo Garrincha na Copa de 1958, para o esquema do então técnico Feola contra a seleção soviética funcionar faltava combinar com os russos. No futebol o Brasil costumava se sair bem, mesmo sem muita preparação e diálogo internacional: na Copa da Suecia, o Brasil levou a taça e no caminho venceu a Russia por 2 a 0.

Infelizmente, não tem Garrincha na economia. Ficar de fora dos acordos e querer resolver tudo sozinho não funciona no mundo globalizado. É preciso tática e estratégia para se sair bem na arena internacional.

Nesse sentido, a iniciativa do governo de buscar acordos comerciais e diplomáticos com a Rússia e Noruega é positiva. Na mesma linha, o bloco comercial Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela) retomou negociações com a União Europeia (EU), que já se arrastam há mais de 20 anos. Canadá e países latino-americanos como o México, além do bloco econômico EFTA (sigla em inglês para Associação Europeia de Livre Comércio), composto por Suíça, Noruega, Islândia e Liechstenstein, também têm recebido mais atenção.

Dentre os objetivos do encontro do presidente Michel Temer com as autoridades russas estão o estreitamento das relações nas áreas de segurança de informação, cooperação técnico-militar e espacial, além de captação de investimentos para as áreas de energia, gás e petróleo. A previsão é de que os dois países assinem acordos bilaterais em temas como promoção de comércio e investimentos, intercâmbio cultural e consultas políticas. O Brasil deve apoiar a candidatura de São Petersburgo como sede da Expo 25 e os russos a tentativa brasileira de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A Rússia é o 16º maior parceiro comercial brasileiro em termos de corrente de comércio, isto é, exportações mais importações. O governo aposta na diversificação da pauta exportadora, que em 2016 atingiu US$ 2,3 bilhões. Do total, 22% correspondeu a carne de suíno e 18% de soja triturada. Os russos por outro lado são importantes fornecedores de nutrientes e fertilizantes para a agricultura brasileira.

Não apenas com a Rússia, é fundamental que o Brasil avance em acordos com outros países. O início das conversas com a UE, por exemplo, data de 1999 e até hoje pouco foi feito. No ano passado os europeus importaram cerca de US$ 33,8 bilhões do Brasil, principalmente produtos básicos e semimanufaturados. Mais de 7 mil empresas brasileiras exportam para a UE e quase 20 mil importam produtos do bloco econômico europeu.

A ida à Noruega, por sua vez, tem como foco a agenda ambiental. O país é o que mais investe em ações de conservação e preservação de florestas tropicais em todo o mundo e é hoje um dos principais parceiros do Brasil no combate ao desmatamento na Amazônia. Os noruegueses já doaram cerca de US$ 1 bilhão para o Fundo Amazônia, mas novos investimentos dependem da redução do desmatamento da floresta.

É importante que o Brasil participe do debate internacional sobre meio ambiente e demonstre, por exemplo, engajamento com o cumprimento do Acordo de Paris, visando reduzir emissões de gases de efeito estufa. Como uma das maiores economias do mundo, o país precisa ser um exemplo de como é possível conciliar crescimento som sustentabilidade.

O mundo não para. Mesmo em crise, o Brasil precisa ter uma estratégia inteligente de inserção na economia internacional. Até recentemente, prevalecia muito discurso e ideologia. É hora de priorizar aquilo que é fundamental para o desenvolvimento, com um novo olhar para o meio ambiente.


Na crise (e fora dela), diversificar traz bons resultados
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Gesner Oliveira

O ditado popular “não coloque todos os ovos na mesma cesta” é muito conhecido, mas faz ainda mais sentido na atual crise econômica e política.

Distribuir seus investimentos em diferentes ativos pode ser a solução para se proteger do bombardeio de escândalos e denúncias (falsas e verdadeiras) que afetam a economia como um todo e, não menos importante, nossas economias. A diversificação não elimina todos os problemas, mas ao menos garante o sono mesmo quando o mundo vira de cabeça para baixo da noite para o dia.

Diversificar dilui o risco em momentos de incerteza sem comprometer os rendimentos. Investir em ativos que reagem de forma diferente ao mesmo evento certamente reduz o perigo em uma conjuntura adversa. A velha e batida estratégia de não colocar todo o seu dinheiro no mesmo lugar tem se mostrado eficiente.

Não existe mágica: quanto maior o retorno, maior o risco. Mas há dois tipos de risco principais: o não diversificável (chamado sistemático) e o diversificável (não sistemático). Como o próprio nome já diz, o segundo tipo de risco pode ser minimizado com uma boa escolha de diferentes cestas.

O risco não diversificável é também conhecido como risco de mercado. Ou seja, está associado a toda e qualquer empresa ou indústria. Os motivos variam de taxas de inflação e taxas de câmbio até instabilidade política ou guerras. Países emergentes, como o Brasil, possuem maior volatilidade nessas variáveis e por isso são mais arriscados do que países desenvolvidos, como a Noruega.

Quanto maior a diversificação, mais protegido fica o capital do investidor. Na verdade, funciona como um seguro. Como a crise de 2008 deixou claro, diversificar apenas com diferentes ações pode não ser o suficiente.

Para isso, uma sugestão interessante pode ser a criação de uma carteira com diferentes produtos: ações (um banco, uma mineradora e uma empresa de varejo, por exemplo), um título de renda fixa, como um Certificado de Depósito Interbancário (CDI), uma moeda estrangeira e um imóvel ou fundo imobiliário, para auferir os rendimentos dos aluguéis.

Os percentuais para cada um dependem de vários aspectos, especialmente do perfil mais cauteloso ou agressivo do investidor. Em futuros artigos, veremos cestas para os avessos ao risco e para os amantes do risco.

Para aqueles que querem se proteger de grandes incertezas na economia, a estratégia de diversificação é uma ótima alternativa. Não colocar todos os investimentos na mesma cesta, aliado a uma boa análise da relação entre os diferentes investimentos pode proteger o investidor de maiores riscos. Como dizem que, no Brasil, até o passado é incerto, vale a pena mesclar os investimentos.


Governo precisa fazer mais, com menos
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Gesner Oliveira

Investir em infraestrutura é importante para uma retomada consistente do crescimento, desde que não comprometa o processo de ajuste das contas públicas. Para recuperar os empregos no país, a roda da economia precisa voltar a girar. Em um contexto de crise fiscal, isso exigirá um governo que faça mais, com menos.

O investimento em infraestrutura gera dois resultados fundamentais para o Brasil atual. Primeiro, estimula a demanda, gerando aumento da produção e do emprego. Segundo, eleva a oferta de serviços como transporte e saneamento que fazem tanta falta hoje.

O desafio é melhorar a infraestrutura em tempos de vacas magras. Diante da atual crise fiscal, o governo terá de aumentar sua eficiência e estabelecer prioridades. Algo que governos em geral não fazem bem.

A expectativa é de que o presidente Michel Temer anuncie o programa Avançar assim que voltar de sua viagem à Rússia e Noruega. Ao contrário do Programa de Parcerias de Investimento (PPI), que busca conceder ativos de infraestrutura para investimento do setor privado, o novo programa deve ficar restrito a investimentos pelo próprio setor público.

A ideia é substituir o antigo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), criado durante a gestão petista. Mas não pode ser só uma troca de nome. Só sairá do papel com três ingredientes: planejamento, gestão e boa regulação.

No total, estima-se que o governo federal invista, até o fim de 2018, R$ 56,6 bilhões em projetos de infraestrutura em diversos estados. Dentre os cinco estados mais beneficiados estão São Paulo (R$ 5 bi), Bahia (R$ 3,26 bi), Pernambuco (R$ 2,2 bi), Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro (R$ 2,07 bi). Tais recursos serão investidos em diferentes setores, como habitação, saneamento, mobilidade urbana e transportes. Este último será o foco do programa e deve ficar com algo próximo a um terço do orçamento.

O governo federal possui uma meta de déficit primário de R$ 139 bilhões para 2017, além de uma dívida bruta acima de 70% do PIB e em trajetória crescente. Por mais que o investimento previsto já esteja no orçamento deste ano, cobrir os problemas na infraestrutura com o cobertor curto pode significar deixar as contas públicas descobertas. E quando o governo não paga suas contas, cai o nível de confiança dos empresários, investidores e consumidores. A economia para.

Não há melhor solução para os investimentos em infraestrutura que a integração com o setor privado, acelerando o andamento do PPI. Projetos logísticos normalmente são complexos, exigem eficiência e elevadas quantias de dinheiro, além de só gerarem efeitos positivos para a população no médio e longo prazo, após o fim dos ciclos eleitorais. Por isso, a importância de criar um ambiente propício para as empresas que têm incentivos e competência para investir.

São diversas as alternativas do governo de envolver o setor privado nos projetos de infraestrutura. O setor público pode ajudar as empresas interessadas com parte dos custos, pode dar o direito de exploração dos serviços e apenas fiscalizar, pode pagar empresas caso alcancem metas de qualidade pré-definidas, ou pode simplesmente privatizar e alocar o dinheiro em outro setor. A exigência do lado das empresas é que os projetos sejam transparentes e bem desenhados, e que não haja insegurança jurídica.

Nada disso requer grandes investimentos em dinheiro. Com os recursos disponíveis, já é possível aperfeiçoar as regras do jogo e criar um ambiente propício para negócios e investimentos. O programa Avançar, sobre investimentos públicos em infraestrutura, é uma boa iniciativa, mas não pode comprometer o ajuste nas contas públicas. Quando o cobertor é curto, é preciso fazer mais, com menos.


O que as eleições na França têm a ver com os brasileiros?
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Gesner Oliveira

A França hoje pode ser o Brasil amanhã. Ainda que em contexto muito diferente, as eleições legislativas francesas guardam semelhanças com desafios do Brasil atual.

A eleição de Macron seria impensável há um ano. Quando ocorreu, a maioria dos analistas previu que ele não faria a maioria no Congresso. Nova surpresa. O partido centrista La République en Marché! (LRM), do presidente Emmanuel Macron, conquistou cerca de 359 cadeiras do total de 577 da Assembleia Nacional francesa. Grandes partidos como o dos republicanos e dos socialistas perderam espaço e agora Macron terá amplo espaço para implementar sua agenda de reformas.

Dois pontos chamam atenção para pensar o caso brasileiro. Primeiro, assim como ocorre no Brasil, há na França uma crise do sistema partidário convencional. Se antes os dois principais partidos dominavam quase 90% do Legislativo, agora detêm apenas 31%. O movimento centrista que praticamente não existia há 15 meses tomou o poder e transformou empresários, professores e fazendeiros em novos deputados.

A desilusão com quem está no poder aqui no Brasil não é diferente. Pesquisa de maio do Datafolha mostra que 44% da população acha que o nível de corrupção continuará o mesmo após a operação Lava Jato. Cerca de 60% vêm os políticos como os principais beneficiados dos esquemas de corrupção. Tanto lá como aqui, há uma descrença em relação à representação política.

O segundo ponto tem a ver com as reformas. Ainda que em graus distintos de urgência, tanto na França quanto no Brasil ganham importância medidas de redimensionamento do Estado e de implementação de uma agenda de reformas. Em ambos os países cresce a ideia de que o setor público precisa intervir menos na economia e na vida das pessoas.

Macron prometeu que em breve apresentará propostas para uma reforma no mercado de trabalho, visando torná-lo mais moderno e flexível. Vale notar que o desemprego por lá também atinge dois dígitos e hoje está em 10%.

Além das semelhanças, o resultado das eleições francesas traz boas notícias para o Brasil, tanto do lado da economia real, ou seja, do bolso do brasileiro, quanto do ponto de vista ideológico.

Do ponto de vista econômico, a vitória de Macron traz maior estabilidade aos mercados internacionais. Sua agenda pró-Europa e de maior integração mundial fortalece a União Europeia (UE), que tinha riscos de se desfazer com eventual vitória de Marine Le Pen, candidata da extrema-direita. Tal cenário traria muitas incertezas no mercado internacional, o que faria muitos investidores fugirem de mercados mais arriscados como o Brasil. Em outras palavras, o dólar não dispara por aqui, impactando menos na inflação e deixando espaço para a queda da taxa de juros. Isso permite voltar a crescer com menos inflação.

Além disso, o discurso em prol da globalização é positivo para o setor externo brasileiro. A estabilidade da UE, bem como a manutenção da disposição dos europeus em comercializarem com outros países, é fundamental para as exportações e importações do Mercosul (bloco comercial que inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). As negociações do bloco com a UE, que se arrastam há mais de 20 anos, voltaram a ser prioridade e a expectativa é que um acordo comercial seja concluído no início do próximo ano.

Por fim, o novo contexto político francês pode ser comemorado sob uma perspectiva ideológica. A França sempre foi o berço de grandes ideias, como o iluminismo no século XVIII, e naturalmente suas políticas econômicas e sociais continuam influentes no mundo.

A corrente política que surge com Macron não vai produzir milagre, nem na França nem aqui. Mas em um mundo carente de lideranças pode inspirar uma nova agenda de política pública para o Brasil.


Novos sinais de retomada e novas denúncias. Agora vai?
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Gesner Oliveira

Quando terminará a fase de vacas magras na economia? O Banco Central divulgou um indicador da produção mensal com alta de 0,28% em abril, comparativamente a março. É pouco, mas é um começo.

Os consumidores e empresários foram pegos de surpresa pelo acordo de delação da JBS e a confusão na política. A economia tem tudo para se recuperar mas persistem dúvidas e incertezas.

A enxurrada de notícias no campo político jogou um balde de água fria nas empresas e famílias que tinham decisões de gasto.  Mas o mundo econômico parece resistir. A produção industrial avançou 0,6% em abril ante março, melhor mês desde 2013. As vendas do comércio varejista cresceram 1% em abril, melhor resultado para este mês em mais de 10 anos.

Serviços, como transporte, também cresceram 1%. Por último, o Comitê de Política Monetária que decide sobre o custo do dinheiro, reduziram a taxa de juros.

A economia saiu da UTI, mas ainda está internada. O maior desafio é manter a frágil recuperação em clima político tão conturbado. Nas próximas semanas a dúvida é o estrago potencial que novas denúncias podem trazer.

É positivo que a Lava Jato tenha representado um marco na vida política do país. Seu efeito de médio e longo prazo pode ser muito positivo para o país.

Mas, até para garantir tais ganhos, é necessário rigor na investigação. A denúncia amplamente anunciada do Procurador Geral da República contra o Presidente Temer pode provocar ruído. Nenhuma investigação deve ser inibida. Porém, para não arriscar todo o legado já conquistado pela Lava Jato, as autoridades devem conduzir o processo com fatos, denúncias e provas e não somente especulações e boatos.

Para que a economia volte a crescer de forma consistente, é necessário mais rigor e menos espetáculo nas investigações e respeito ao direito de resposta. Delação premiada é uma ferramenta útil, mas delação está longe de constituir verdade absoluta. Os 14 milhões de desempregados que aspiram uma vaga no mercado de trabalho agradecem.


Ninguém mais vive sem rede social, e é difícil fazer leis que regulem isso
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Gesner Oliveira

Lançado no Brasil em 2011, o Netflix conta hoje com mais de 7 milhões de assinantes no país. Cerca de oito em cada dez brasileiros usuários de internet estão no Facebook. Algo parecido pode ser dito acerca do Youtube que se tornou a plataforma preferida para assistir filmes e programas de TV, na frente dos canais por assinatura e TV aberta. O avanço das chamadas “novas mídias” é exponencial e irreversível. O consumidor quer mais variedade e novidade. Os reguladores que se virem.

Jogos de futebol e novela deixaram de ser, necessariamente, eventos caseiros, com hora marcada. Hoje quem quiser acompanha seu time ou sua novela preferida pelo celular, Ipad, computador, seja em casa ou na rua. Quanto mais crescem os novos aplicativos e plataformas digitais, melhor para o consumidor.

A migração da audiência para as novas mídias também é cada vez mais clara, no Brasil e no mundo. Pesquisa elaborada pela empresa de mídia Defy, fez uma pergunta curiosa a jovens americanos entre 13 e 24 anos: quais serviços de mídia você não viveria sem? O Youtube foi citado por cerca de 64% dos entrevistados, Netflix por 51%, mídias sociais como Facebook e Instagram por 48% e apenas 36% mencionaram TV a cabo e por satélite.

O futuro da comunicação aponta para consumidores cada vez mais ativos, buscando espaço para escolher, criar e até produzir seu próprio conteúdo. Cabe às agências reguladoras, que definem as normas e fiscalizam os mercados, se adaptarem aos novos tempos. Do contrário, a imposição de restrições rígidas pode causar inúmeras distorções nos mercados e inibir o processo de inovação.

Além de acompanhar a convergência tecnológica, é fundamental que haja, cada vez mais, um diálogo claro entre os diferentes reguladores. No Brasil há um enorme potencial de descoordenação entre as agências, que não raro batem cabeça. O resultado é insegurança jurídica. As inovações trazidas pelas novas mídias dependem de investimentos, que por sua vez dependem de regras claras e objetivas.

Por fim, um outro desafio é evitar tratamentos distintos para empresas que concorrem no mesmo mercado. Por exemplo, a TV por assinatura é fortemente regulada no Brasil em contraste com serviços sob demanda, como o Netflix.

Ninguém mais vive sem rede social, Youtube ou Netflix. E quem sabe em alguns anos essas plataformas já serão substituídas por outras. O importante é o consumidor sair ganhando, com melhores preços, qualidade e alternativas. O regulador é que se vire.


Por que você ainda não percebeu a queda da inflação no seu dia a dia
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Gesner Oliveira

O índice de inflação oficial está caindo rapidamente. Há um ano atrás a inflação acumulada de 12 meses estava em 8,84% contra 3,6% atuais. Esta é uma boa notícia para a economia e o governo comemora a cada mês que a inflação cede. Mas pergunte a algum brasileiro se os preços estão baixos e a resposta será unânime: nâo! Os produtos ainda estão caros e a queda da inflação parece estar somente nas capas de jornais e não no dia a dia. Por que?

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é considerado a inflação oficial do governo e mede a variação de preços de uma determinada cestas de bens. Itens consumidos por muitas pessoas têm mais pesos nesta cesta. Itens menos consumidos devem ser incluídos, porém, com pesos menores. Por exemplo, alimentação e bebidas, comum a todos os brasileiros, têm peso de 26%, enquanto artigos residenciais, apenas 4%.

Por representar grande parte dos gastos na renda das pessoas, os alimentos constituem um bom exemplo. O grupo alimentos cresceu apenas 2,3% nos últimos 12 meses, mais baixo ainda do que o índice oficial de inflação. Mas ao ir ao mercado, os brasileiros continuam sentido os alimentos muito caros.

Isso acontece porque a inflação mede a velocidade com que os preços estão crescendo (ou diminuindo no caso de uma deflação). E embora o ritmo recente de crescimento seja menor, eles já aumentaram significativamente nos últimos anos. Assim, o nível dos preços ainda é muito alto. Sendo mais preciso, em 2015 os alimentos cresceram 12% e em 2016 mais 8%, o que mostra o elevado crescimento nos últimos anos.

O exemplo do feijão carioca é ainda mais claro. Nos últimos 12 meses o feijão caiu 7,8%, mas em 2016 houve um aumento de 53,7%. Somente no mês de junho daquele ano a alta foi de 41%, exatamente quando o governo autorizou a importação de feijão para reduzir o preço deste alimento.

O brasileiro só sentirá mesmo uma redução nos preços quando tiver ganhos reais de salário, sem aumento nos preços dos produtos. Para isso, não basta ter a inflação controlada apenas por um ano, como está acontecendo; é preciso um longo período de tempo com preços estáveis. Aí vai dar para encher o carrinho no supermercado.


Nova política de preços de gás da Petrobrás é boa notícia para o consumidor
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Gesner Oliveira

A Petrobras aprovou uma nova política de preços para a venda de gás de cozinha em botijões. A partir de agora, os preços no Brasil acompanharão os mercados internacionais. A nova fórmula deve levar a um aumento médio nas refinarias de 6,7% em junho. Pode não parecer, mas apesar do aumento no curto prazo, essa é uma boa notícia para o consumidor.

Entre 2007 e 2014, não houve reajustes nos preços do botijão e a empresa subsidiava eventuais aumentos de custos. Com a nova regra, se os preços internacionais caírem, o gás no Brasil também acompanha esse movimento. Se isso acontecer, naturalmente o consumidor ficará feliz. Mas se os preços lá fora sobem, aqui dentro também há uma alta.

A Venezuela é um bom exemplo de como subsídios fazem mal às empresas. A gasolina venezuelana é a mais barata do mundo. Aproximadamente US$ 0,01 por litro de acordo com os “Preços Globais de Gasolina”. Durante 20 anos os preços ficaram congelados. Um consumidor poderia achar isso bom, mas não deveria.

Como o custo de produção da gasolina venezuelana é muito acima de US$ 0,01 por litro, o governo precisa subsidiar essa diferença. Estima-se que esse tipo de política tenha causado R$ 15 bilhões de prejuízo aos cofres públicos por ano. Como o dinheiro sai do bolso dos contribuintes, todos pagam esta conta, inclusive os mais pobres que sequer possuem carros. Além disso, com sucessivos prejuízos, a empresa não consegue investir em novas tecnologias, não conseguindo elevar a produção.

Voltando ao caso do gás de cozinha, um subsídio como vinha ocorrendo pressiona as margens da Petrobras e faz com que a empresa não consiga gerar caixa para investir. Este ano, a Petrobrás anunciou mais de R$ 10 bilhões em cortes de investimentos. Se esse fato acontece sucessivamente, a empresa perde competitividade, passa a produzir seus produtos com tecnologias cada vez mais ultrapassadas e não consegue reduzir o preço de produção no médio e longo prazo.

Além disso, a nova política de preços torna mais previsível as receitas da empresa. Para um credor isso é importante, pois torna as receitas mais estáveis à medida que a empresa não é utilizada por fins políticos, com uma política de preços arbitrária. Com isso, o acesso ao crédito torna-se mais barato.

A nova política de preços pode tornar os preços do botijão de gás mais barato, como aconteceu recentemente com o preço da gasolina. Mas também pode tornar mais caro. Tudo depende da flutuação externa. Mas, preços baixos de forma artificial não funcionam. Em política econômica, o barato sai caro.