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Privatização da Eletrobras e sua conta de luz
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Gesner Oliveira

Na última sexta-feira (19), foi encaminhado ao Congresso o Projeto de Lei sobre a privatização da Eletrobras. A reação do mercado foi positiva e hoje as ações da empresa foram as que mais subiram na Bolsa. O negócio é positivo por diversos fatores, dentre eles o estímulo a mais investimentos no setor, a ajuda nas contas públicas e preços menos artificiais aos consumidores.

Criada em 1962, a empresa é a líder em geração de energia elétrica no Brasil, respondendo por cerca de 1/3 do total da capacidade instalada no país. Também tem atuação importante no segmento de transmissão e de distribuição de energia. A animação recente do mercado com sua desestatização, no entanto, dá pistas sobre a atual situação financeira da empresa.

Estima-se que até 2011 a perda do país com a ineficiência da Eletrobras chegava a R$ 122 bilhões com impostos e dividendos não pagos. Isso sem considerar os prejuízos de suas seis distribuidoras nas regiões Norte e Nordeste. A famosa Medida Provisória nº 579 de 2012 caiu como uma bomba no setor e só piorou a situação da empresa. A estimativa é de prejuízos da ordem de R$ 30,7 bilhões entre 2012 e 2015.

Os números sugerem que caso a Eletrobras não seja vendida, o governo teria que gastar cerca de R$ 10,0 bilhões em sua capitalização. Dinheiro que hoje o governo não tem e que, se tivesse, poderia ser usado em Saúde e Educação, entre outras prioridades. A diluição da participação da União no capital da empresa traz vários benefícios, a começar pelos cerca de R$ 12 bilhões aos cofres públicos e que ajudarão o governo a manter sob relativo controle o rombo fiscal neste ano.

A União continuará tendo participação relevante no comando da estatal, apenas deixará de ser a sócia majoritária. Além de proibir que qualquer um dos acionistas detenha mais de 10% do capital total, o projeto prevê que o governo tenha uma “golden share”, com poder de veto sobre assuntos vitais da empresa e da política pública. Algo semelhante ocorre com a Embraer na qual o governo pode exercer veto em assuntos estratégicos.

Hoje o governo possui quase tudo de uma empresa falida. Com a privatização, passará a ter pouco de uma empresa eficiente e que gera mais impostos e dividendos.

E, mais importante aumentarão os necessários investimentos para o setor de energia elétrica. É o resultado natural de uma empresa com menos ingerência política e uma gestão preocupada em trazer bons resultados. Em parte, devido às dificuldades financeiras, as empresas do grupo Eletrobras ficaram impedidas de concorrer nos últimos leilões de transmissão de energia.

Além disso, o projeto define a obrigatoriedade de ações efetivas para a revitalização da bacia hidrográfica do Nordeste. Serão destinados cerca de R$ 9 bilhões para restaurar a bacia do rio São Francisco durante o período de concessão.

Mas e o efeito no bolso do consumidor? Uma das principais mudanças que a privatização trará diz respeito a comercialização de energia. Atualmente, a Eletrobras utiliza as usinas sob o regime de cotas, um sistema que gerou uma perda direta de R$ 10,3 bilhões à empresa. A ideia é voltar ao sistema antigo, de concessões, no qual a empresa paga uma outorga à União para ter direito de explorar a usina hidrelétrica por determinado período.

Em contrapartida, em vez de ser obrigada a vender toda sua energia às distribuidoras por um preço fixado pela Aneel, pode vender a energia produzida para qualquer agente no livre mercado, por um preço a ser negociado. Isso poderia encarecer a conta de luz dos consumidores.

Por outro lado, há sinais positivos. Primeiro, com menos politicagem os preços passariam a ser menos artificiais para o consumidor. O que se viu recentemente foi o governo ditando preços de um lado enquanto usava os recursos de impostos para cobrir o rombo de outro. A partir de uma regulação adequada, a empresa cobrará dos consumidores de acordo com as condições de mercado e não com base em objetivos políticos imediatistas.

Segundo, o projeto prevê que parte dos recursos oriundos com a privatização da empresa será destinado para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) para abater parte dos encargos setoriais. Junto com os custos de compra e transmissão de energia, tais encargos respondem hoje por 53,3% do preço final da tarifa de energia elétrica.

É evidente que do jeito que está a Eletrobras mais atrapalha do que ajuda. Sua situação financeira restringe a expansão da oferta de geração e transmissão de energia elétrica e acaba consumindo recursos da população que poderiam ser destinadas ao que realmente importa.

Se no curto prazo os efeitos no bolso do consumidor são incertos, no médio prazo são positivos. A experiência recente com populismo tarifário demonstrou uma vez mais que a tarifa artificialmente barata sai muito caro para todos.


Metrô privado dá menos dor de cabeça
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Gesner Oliveira

O pesadelo do paulistano ontem com a greve no metrô ilustra bem a pobreza do serviço público. Sem alternativas, muita gente perdeu várias horas de seu dia no trânsito. Em contraste, a Linha-4 Amarela, operada pela iniciativa privada, serviu regularmente o público. Muita gente é contra privatização, mas o importante não é se a operação é pública ou privada. O importante é oferecer um serviço de boa qualidade.

Quem mora na Zona Leste da cidade, por exemplo, levou mais de quatro horas de casa até o trabalho. Isso significa mais da metade de uma jornada de oito horas no trânsito. Estima-se que um dia sem metrô em São Paulo custe 1,9 milhão de horas adicionais em tempo de viagem, ou um total de 216 anos!

Mas os custos não param por aí. Com mais carros, ônibus e congestionamento, estima-se que uma greve signifique mais de 1,3 milhão de litros de consumo adicionais de combustível, cerca de 2,5 mil toneladas a mais de emissão de poluentes e, em média, mais 40 acidentes! Sem falar nos custos adicionais de manutenção de vias e na perda gigantesca de bem-estar da população.

Se os grupos contrários às concessões realizadas hoje das linhas 5-Lilás e 17-Ouro do metrô queriam convencer a população que o leilão destas linhas deveria ser impedido, fizeram exatamente o contrário. Apenas a linha concedida à iniciativa privada não deixou a população na mão.

O leilão foi vencido pelo consórcio Via Mobilidade, liderado pela empresa CCR. Além dos R$ 553,8 milhões recebidos pelo governo estadual com a concessão das linhas, o contrato prevê que o vencedor terá de investir mais de R$ 88 milhões em melhorias no serviço. Outro ponto importante foram os subsídios cruzados entre as duas linhas. As receitas com a Linha 5-Lilás, que já possui trecho em operação e movimenta mais passageiros, ajudarão a financiar a Linha 17-Ouro, menos atraente.

Em menos de um ano, o governo de São Paulo arrecadou cerca de R$ 3,5 bilhões com leilões em infraestrutura. Além do metrô, foram leiloadas duas rodovias no ano passado: os lotes Rodovia do Centro-Oeste e a Rodovia dos Calçados, esta última com investimentos previstos de R$ 5 bilhões. O trecho Norte do Rodoanel Mário Covas foi concedido no início deste ano e outros cinco aeroportos estaduais passaram para o setor privado em 2017.

Quando o setor público não tem condições de oferecer um bom serviço para a população, faz todo sentido passar para o setor privado. São diversos os tipos de contrato e na maioria deles o governo ainda participa, seja como administrador ou como uma espécie de fiscal. Trata-se de uma forma de não só fechar o rombo nos cofres públicos como de estimular investimentos em serviços para a população.

Em vez de um Estado inchado que intervém em tudo, é melhor ter um Estado enxuto, menos interventor e mais regulador. Pelo menos daria mais segurança ao cidadão que madruga para chegar cedo no trabalho de que terá um serviço minimamente confiável.


Como a mudança nos preços do gás de cozinha afeta seu bolso?
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Gesner Oliveira

A Petrobras anunciou hoje uma mudança na política de reajuste de preços do gás liquefeito de petróleo (GLP) de uso residencial, mais conhecido como o gás de cozinha. A partir desta sexta-feira (19), haverá redução de 5% do preço cobrado nas refinarias. Qual o efeito disso no bolso do consumidor?

O GLP é um dos produtos derivados do petróleo de consumo mais popular e é utilizado principalmente nos fogões residenciais, através do botijão de 13 kg. Em 2017 a inflação do gás de cozinha foi um dos itens que mais doeu no orçamento das famílias, com alta de 16%. Este ano a expectativa é que não suba tanto, mas vale a pena entender o que está por detrás de seu preço.

A Lei nº 9.478/97 (Lei do Petróleo) flexibilizou o monopólio no setor de óleo e gás antes exercido pela estatal e permitiu a livre concorrência em suas atividades a partir de 2002. Hoje, além da Petrobras, o GLP pode ser produzido por outros refinadores instalados no Brasil, centrais petroquímicas ou, ainda, importado por qualquer empresa autorizada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). No entanto, como a Petrobras é a principal produtora, sua política preços influncia o mercado e bate no bolso do consumidor.

Há dentro da cadeia de produção e comercialização do GLP, diversos componentes que podem afetar seu preço final. Um deles é a política de reajustes da Petrobras, com um peso de cerca de 36%. Aproximadamente 16% vem do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), atualizado quinzenalmente por cada um dos Estados. Cerca de 45% depende dos distribuidores e revendedores, de acordo com suas margens, custos de logística e concorrência na região. Outros 0,3% vem do PIS/Pasep e Cofins.

Portanto, com a redução de 5% dos preços nas refinarias da Petrobras, caso os demais componentes do custo total não sofram mudanças, espera-se uma queda de 1,8% do preço do produto aos consumidores finais. Isso implica uma redução de 0,025 ponto percentual no IPCA entre os meses de janeiro e fevereiro.

Em janeiro, o produto ainda deve mostrar alta, refletindo a elevação de 8,9% anunciada em dezembro. Mas em fevereiro, o produto deve registrar queda. A expectativa é que o preço não suba tanto como no ano passado, pressionando menos a inflação do ano, que deve fechar em 4%, ainda abaixo do centro da meta do Banco Central para 2018, de 4,5%.

Além da redução imediata nos preços das refinarias, a Petrobras também anunciou outras mudanças em sua política de reajuste. A partir do dia 5 de fevereiro, os reajustes passarão a ser trimestrais em vez de mensais e alterações de preços superiores a 10% terão que ser autorizadas pelo Grupo Executivo de Mercado e Preços da companhia. Além disso, o período de apuração das cotações internacionais e do câmbio que definirão os percentuais de ajuste será a média dos 12 meses anteriores ao período de vigência.

O objetivo das mudanças é manter o valor do gás de cozinha referenciado no mercado internacional, mas evitando o efeito de aumentos de preços tipicamente concentrados no fim de cada ano, como a alta de 8,9% em dezembro de 2017. Haverá, assim, variações menos frequentes no preço do botijão e, para fevereiro, um impacto negativo no IPCA.

Como os preços no mercado de gás são livres, não dá para garantir o reflexo no bolso do consumidor. O efeito dependerá dos repasses dos distribuidores e revendedores, que, por sua vez, depende do grau de concorrência em cada mercado regional. Em todo caso, não há justificativa para ocorrer os 5% cheios. Possivelmente algo em torno de 1,8% pode ser associado à medida da Petrobras. Quando não há controle de preço é preciso zelar pela defesa da concorrência.


Não caia no cheque especial!
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Gesner Oliveira

O Banco Central (BC) tem pressionado os bancos para que reduzam as taxas de juros do cheque especial. A medida é positiva e tem o mesmo objetivo das mudanças nas regras do rotativo do cartão de crédito feitas no ano passado: diminuir o endividamento das famílias. Mas a dica continua a mesma: com BC ou sem BC, não caia no cheque especial!

O cheque especial é uma das formas de os bancos emprestarem às famílias. Com base nas informações do cliente e de sua movimentação financeira, é estipulado um limite de crédito. A pessoa pode então gastar mais do que tem na conta, mas como não oferece nenhum tipo de garantia ao banco, as taxas de juros são estratosféricas.

De acordo com os últimos dados disponíveis, para o mês de novembro, as taxas de juros para pessoas físicas que tomam crédito via cheque especial são, em média, de 323,7% ao ano. Um empréstimo de R$ 1 mil, por exemplo, se transforma em uma dívida de R$ 4.237 ao final de um ano! Trata-se da segunda maior taxa, só perdendo para o rotativo do cartão de crédito, de 333,8%. O pagamento parcelado no cartão de crédito está um pouco mais em conta e terminou o mês com uma taxa média de 168,5%.

A taxa do cheque especial já foi maior. Ao longo de 2017, até novembro, a queda na taxa do cheque especial foi de cerca de cinco pontos percentuais. Em 12 meses, houve queda de quase sete pontos percentuais. A iniciativa do Banco Central pode induzir a uma queda maior.

O problema do cheque especial e de modalidades de crédito muito caras é que o risco de um empréstimo virar uma bola de neve é enorme. Além das taxas elevadas, há cobrança de multa sobre o total da dívida, caso a pessoa não tenha o dinheiro na hora da cobrança ou tenha gastado mais que o crédito estipulado.  O melhor a se fazer é manter-se longe dessas taxas e só usá-las em casos de emergência!

A ideia do BC é exatamente a de reduzir o nível de endividamento, criando mais alternativas para os consumidores tomarem emprestado. No ano passado foram feitas mudanças nas regras do rotativo do cartão de crédito, induzindo a criação de linhas de crédito mais baratas.

Independente do que acontecer com as taxas do cheque especial, é difícil imaginar novas taxas que não pesem tanto no bolso do brasileiro. Portanto, não caia no cheque especial. Muito menos no rotativo do cartão de crédito! Para isso, o primeiro passo é organizar as contas em casa e montar um orçamento. Saber quanto (e onde) gasta é fundamental. Ficou no vermelho? Há alternativas mais baratas do que o cheque especial.


Rebaixaram o Brasil, e daí?
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Gesner Oliveira

O rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela Standard & Poor´s (S&P) mal arranhou a economia brasileira. De certa forma, o anúncio já estava precificado. O otimismo moderado permanece e se reflete na Bolsa e nas projeções para o próximo ano.

Em sua máxima histórica, o índice Ibovespa começou o ano com tudo. De 76.402 pontos no último pregão de 2017, o índice hoje tangencia os 80 mil pontos, com viés de alta. As expectativas estão otimistas com a provável manutenção dos juros em patamares baixos ao longo do ano. Com a melhora das receitas do governo, a notícia de que o déficit fiscal do ano passado deve fechar com folga de ao menos R$ 30 bilhões frente à meta de R$ 159 bilhões também agradou o mercado.

A bolsa acumulou alta de 76% no biênio 2016/17. Dois anos seguidos de crescimento que não ocorriam desde 2010. Apesar da volatilidade com as eleições, a previsão é de um tricampeonato neste ano, em parte porque a mera recuperação da economia terá efeito positivo sobre os resultados operacionais das empresas.

Os “gringos” também parecem otimistas. Estima-se que a entrada de recursos estrangeiros na bolsa nos oito primeiros pregões do ano seja a maior em pelo menos 14 anos. Os cerca de R$ 3,3 bilhões injetados representa um quarto do montante total do ano passado. O volume a ser captado pelas empresas que já se posicionam para fazer IPO (Initial Public Offering) pode passar dos R$ 10 bilhões. São ao menos 11 empresas, com destaque para os setores de shopping centers e de saúde.

Em 2017 foram movimentados mais de R$ 42 bilhões com ofertas de ações, incluindo IPOs e operações de empresas já listadas na bolsa. Foi o maior resultado desde 2009, quando R$ 47 bilhões foram captados. Para 2019 a expectativa é que as ofertas de ações atinjam cerca de R$ 35 bilhões.

Pela primeira vez o boletim Focus do Banco Central trouxe as projeções dos analistas para o ano que vem. A alta esperada de 2,8% no PIB e a Selic em 8% indicam relativo otimismo.

Não se sabe quem concorrerá para a Presidência, quanto mais o que acontecerá em 2019. Mas é possível fazer algumas estimativas. A depender do vencedor das eleições e de sua agenda de governo, o PIB no médio prazo poderia variar, em média, entre 1,5% e 3,5%. Da mesma forma, a evolução da dívida bruta/PIB pode sair de 75,1% neste ano e caminhar para 114,6% em 2030. Ou 41,7%, se tudo der certo.

O cenário pessimista supõe a volta do populismo. A agenda de reformas que o país precisa e que é vendida como “impopular” ficaria de lado, com total descaso das contas públicas. A reforma da Previdência não seria aprovada e o Orçamento continuaria engessado. A relação dívida/PIB continuaria subindo de forma explosiva, elevando o preço do dólar e refletindo na alta de inflação e juros.

O cenário mais otimista supõe uma aceleração da aprovação de agendas de ajuste fiscal e de produtividade. Uma reforma da Previdência “ousada” seria aprovada e o Congresso atacaria outras despesas obrigatórias como subsídios de baixo retorno social. A reforma tributária conseguiria contemplar a racionalização do ICMS, o Brasil e o Mercosul avançariam em acordos comerciais e a agenda de privatizações e concessões estimularia o investimento em infraestrutura.

Nem com Neymar, Coutinho e companhia dá para cravar o hexa, o que dizer do cenário otimista para a economia no médio prazo? Por ora, a certeza é que, a despeito do rebaixamento do Brasil pela S&P, a recuperação em curso deve manter a bolsa aquecida e fazer o PIB em 2018 fechar acima de 3%. Para além de 2018 o exercício de projeção pode precisar de uma bola de cristal.


A recuperação da economia vai bem, obrigado
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Gesner Oliveira

Mesmo sem contar a Copa, 2018 promete emoção. De julgamento do ex-presidente Lula, votação da reforma da Previdência, às eleições presidenciais. Apesar de tantas incertezas, a recuperação continua.

O Banco Central divulgou hoje que o índice de atividade econômica IBC-BR, considerado a prévia mensal do PIB, apresentou alta de 0,49% em novembro em relação a outubro. O resultado surpreendeu o mercado, que esperava alta de 0,40%, além de ter sido a terceira alta mensal consecutiva. Na comparação com novembro do ano passado, houve crescimento de 2,82%, reforçando os sinais de otimismo quanto à recuperação para 2018.

O resultado é fruto de sinais positivos em diferentes setores. Em novembro, o varejo restrito expandiu 0,7% e o ampliado, que inclui automóveis e materiais de construção teve alta de 2,5%. A indústria também cresceu 0,2% no período. Até o setor de serviços, que anda atrasado nesta retomada, voltou a crescer 1,0% depois de quatro quedas consecutivas.

O Índice de Difusão da Atividade Econômica da GO Associados (ID-GO), que mede a temperatura da economia, aponta na mesma direção. O índice acompanha 35 séries econômicas de diferentes dimensões da atividade, como mercado de trabalho, indicadores setoriais e mercado de crédito, e mostra com a porcentagem de setores que estão melhorando. Entre julho e novembro, o indicador se manteve no patamar de pelo menos 80% contra 5,7% no vale da recessão em setembro de 2015.

Com o resultado do IBC-Br, a GO Associados ajustou para cima sua projeção para o PIB de 2017, para uma alta de 1,1% no ano, em vez da projeção anterior de alta de 1,0%. O último trimestre do ano deve registrar crescimento 2,4% ante o último trimestre de 2016, a primeira taxa acima de 2,0% nesta base de comparação desde 2014.

Tal projeção também reflete uma série de indicadores setoriais antecedentes já divulgados para o mês de dezembro. É possível prever bons dados para o mês na indústria, por exemplo, com base nos resultados da produção de veículos (+4,2%), fluxo de veículos pesados nas estradas (+2,5%) e confiança da Indústria (+1,3%).

Para 2018 o mercado espera crescimento do PIB da ordem de 2,70% em 2018. É possível ser mais otimista. Diante do bom cenário externo, da queda dos juros e da melhora da confiança, o Brasil pode crescer mais de 3%. Apesar da política.


Rebaixamento é resultado do lenga-lenga com a reforma da Previdência
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Gesner Oliveira

A agência de classificação de riscos Standard & Poor´s (S&P) anunciou ontem um novo rebaixamento da nota de crédito do Brasil, de BB para BB-. O principal motivo todos já sabiam: demora para a aprovação da reforma da Previdência. O anúncio tende a significar piores condições para o país se financiar lá fora, mais um sinal de que o lenga-lenga no Congresso pode sair caro.

Pra baixo todo santo ajuda. Com um certo atraso, a classificação do Brasil começou a rolar ladeira abaixo em 2014. De degrau em degrau a nota do Brasil chegou a BB em 2016, sob “grau especulativo”. A queda de ontem colocou o país um degrau acima da Argentina, em B+…E se nada for feito, o Brasil seguirá rumo à Grécia, em B-.

O papel das agências de risco é avaliar a capacidade de países, instituições e empresas honrarem suas dívidas. Quanto maior o risco de calote, pior a nota e maior os juros exigidos para um empréstimo. Na classificação da S&P, a melhor nota é AAA e a pior é D. O risco soberano do Estado brasileiro, agora em BB-, três níveis abaixo da categoria “grau de investimento”, uma espécie de selo de bom pagador.

Quanto mais arrumadas as contas fiscais, melhor tendem a ser as condições de pagamento do país. Em meados de 2008, quando o Brasil surfava com o boom das commodities, a S&P elevou a nota de BB+ para BBB-. Um ano depois a capa da revista The Economist mostrava uma imagem do Cristo Redentor decolando como um foguete, sinalizando para um rumo promissor da economia. No final de 2011 a nota foi novamente elevada de BBB- para BBB.

A previsão para o rombo fiscal da Previdência Social neste ano é de déficit de mais de R$ 185 bilhões. A expectativa é que continue crescendo dado que a população brasileira está envelhecendo rapidamente e que a previdência do setor público tem privilégios inaceitáveis.

As despesas previdenciárias respondem por mais da metade das despesas obrigatórias (Previdência, Saúde, Educação, entre outras), que por sua vez representam 104% das receitas líquidas do governo central. Isto é, mesmo que o governo zere as despesas não obrigatórias, o resultado ainda seria negativo. E a Previdência é a maior responsável por isso.

Sem reforma na Previdência não há saída. Se nada for feito, os gastos com outras áreas, até mesmo com programas sociais, serão esmagados. Sem dinheiro e com o endividamento subindo, não sobrará nem mesmo previdência para futuras gerações. Com condições cada vez piores para o crédito soberano, os financiamentos externos para empresas brasileiras ficam mais caros. Todo mundo sai perdendo.

A bolsa hoje só não despencou porque boa parte do mercado já olhava com desconfiança para a aprovação da reforma e já esperava o rebaixamento. Apesar disso, as condições para o crescimento da economia em 2018 estão dadas. A principal preocupação é com os próximos anos. O alto endividamento terá efeitos negativos por toda a economia, inviabilizando um crescimento sustentado.

Quando há uma onda de otimismo e as agências de classificação de risco dizem que está tudo bem, desconfie. Elas costumam errar feio. Mas nenhum investidor é louco a ponto de abrir a carteira com dinheiro barato para países rebaixados. Quem sabe depois da folia do Carnaval, o Congresso deixe a fantasia e encare o mundo real para o bem da produção e do emprego.


Cenários para a economia em 2018
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Gesner Oliveira

Já é difícil fazer cenários. A tarefa fica ainda mais espinhosa quando se trata de ano eleitoral e quando o país é o Brasil atual. Mas empresas e famílias não têm opção. Cenários são necessários para tomar decisões como a de construir uma nova fábrica, comprar uma casa ou vender o carro.

A fórmula conhecida é estimar três cenários: base, otimista e pessimista. O PIB pode crescer de 2% a 4% neste ano, a depender das eleições e da reforma da Previdência.

O cenário base considera que tudo continuará caminhando como nos últimos meses. Trata-se do cenário com maior chance de ocorrer. Não contempla a aprovação da reforma da Previdência, mas sim a continuidade da aprovação de reformas estruturais, tanto de cunha fiscal como das privatizações (Eletrobrás) e concessões. Neste cenário base, a economia deve consolidar a recuperação iniciada em 2017 e crescer 3,2% neste ano.

A inflação deve manter-se bem comportada, sem nenhum choque negativo relevante e encerrar 2018 em 4%. Não repetiria a baixa taxa de 2,95% de 2017 porque os preços dos alimentos não vão cair como ocorreu em 2017. Isso permitiria o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduzir em mais 0,25 ponto percentual em fevereiro para 6,75% ao ano e então manter a taxa estável ao longo do ano.

A taxa de câmbio, apesar da volatilidade esperada, principalmente no período eleitoral, deve permanecer próxima dos R$ 3,20 refletindo o cenário externo relativamente favorável e a folga nas contas externas, refletida nos quase US$ 400 bilhões de reservas internacionais. Por sua vez, o cenário otimista depende principalmente da aprovação da reforma da Previdência, prevista para depois do Carnaval (como tantas outras coisas no Brasil).  Tal fato emitiria sinais positivos ao mercado, à população e ao resto do mundo de que as contas do governo devem se organizar no médio prazo.

Isso teria impacto positivo sobre as expectativas, reforçando a recuperação. Por sua vez, a melhora da economia fortaleceria uma plataforma de continuidade das reformas, criando um círculo virtuoso de recuperação e onda de otimismo. Se este cenário otimista vier a acontecer, haveria uma recuperação mais forte da produção, emprego e investimento.

Em números, o real tenderia a se apreciar, isto é, ficar mais barato em relação ao dólar, em um patamar próximo a R$ 3,00. A inflação ficaria em torno de 3,5% no final de 2018 e a taxa Selic em 6%. Isso significa uma alta de até 4% do PIB neste ano.

Em contraste, no cenário pessimista, tudo pode dar errado. Suponha que a reforma da Previdência não seja aprovada e a agenda de reformas, como a tributária e medidas de ajuste fiscal, fiquem paralisadas no Congresso. E que uma sucessão de impasses políticos alimente ainda mais as tensões entre Judiciário, Legislativo e Executivo. E segundo a Lei de Murphy, se algo pode dar errado, dará. Neste caso, pode até contar com outra surra de 7 x 1 na Copa do mundo.

Neste cenário pessimista, os sinais para a economia seriam os piores possíveis e a tendência seria arrefecer investimento e consumo e consequentemente arrecadação e emprego. Tais circunstâncias não reverteriam imediatamente a recuperação, mas abortariam um novo ciclo de crescimento. A economia chegaria em 2019 sob risco de estagnação.

Isso teria impacto negativo sobre as expectativas e fortaleceria plataformas de candidaturas extremistas que prometeriam uma mudança na política econômica, criando um círculo vicioso de semi-estagnação e piora das expectativas.

O Brasil passaria por mais um de seus voos de galinha. Quando parece que voltará a crescer, pousa novamente. O aumento da aversão e dos prêmios de risco comprometeria o crescimento econômico, principalmente a partir do segundo semestre.

Em números, o dólar ficaria mais caro em reais, em cerca de R$ 3,50, impactando negativamente a inflação, para algo em torno de 5,5%. O Copom por sua vez, seria obrigado a voltar a subir os juros ainda neste ano, terminando na casa dos 8% ao ano. Nesse cenário, o PIB terminaria o ano com alta de 2%, mas com viés de baixa para os anos seguintes.

2018 promete ser um ano de muita volatilidade. O cenário base parece o mais provável (60%), seguido pelo otimista (30%). Infelizmente não é possível descartar o cenário pessimista (10%). Uma boa promessa para este ano seria eleger bem quem pode influenciar este resultado.


O que explica a queda da inflação?
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Gesner Oliveira

A inflação de dezembro do ano passado, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 0,44%. Isso significa que no acumulado de 2017 o índice fechou em 2,95%, abaixo do piso da meta do Banco Central (BC) de 3% e a menor taxa desde 1998 (1,65%). Em 2016 a inflação havia fechado em 6,29%. Três fatores ajudam a explicar esta queda.

Primeiro, a safra agrícola recorde em 2016/17 fez os preços dos alimentos despencarem. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a produção de grãos superou 230 milhões de toneladas, alta de 28% frente à safra anterior. Quanto maior a oferta, menor os preços. A deflação acumulada no ano dos alimentos foi de 4,9% e, sem os alimentos, o IPCA teria fechado o ano na meta do BC de 4,5%.

Alguns alimentos viram seu preço cair pela metade ao longo do ano passado. Foi o caso do feijão carioca (-53,98%), feijão mulatinho (-53,94%), inhame (-49,55%). Outros itens como mandioquinha (-43,18%), maçã (-25,32%) e açúcar cristal (-24,76%) também ficaram bem mais em conta.

Mas não foram apenas os alimentos que contribuíram para a queda da inflação. Dentre os chamados preços livres, que seguem as condições do mercado, os preços industriais e do setor de serviços também ajudaram. Entre 2013 e 2016, os preços industriais subiam, em média, acima de 5% ao ano. No ano passado aumentaram apenas 1,04%. Já os preços de serviços, que rondavam a casa de 8% de inflação ao ano de 2012 a 2015, tiveram alta de 4,52% em 2017.

Por fim, outro fator que contribuiu para uma inflação bem comportada no ano passado foi a mudança de orientação da equipe econômica. A maior clareza na condução da política de juros e do combate à inflação ajudou a alinhar as expectativas do mercado. Faz diferença quando há sinais claros e críveis por parte do Banco Central. Quanto menos incertezas, menor o ruído na formação das expectativas, melhor para a economia.

Mas nem tudo são flores. Para começar uma inflação baixa não significa preços caindo, apenas subindo pouco. Muitos itens, como no grupo de alimentos, de fato caíram bastante. Mas outros, como os chamados preços administrados, subiram 8% e doeram no bolso do consumidor. Como o IPCA é uma média nacional de preços de diferentes regiões e setores, a taxa de 2,95% não necessariamente reflete o orçamento de cada brasileiro.

Pelo segundo ano seguido, o maior impacto veio dos planos de saúde, que ficaram 13,53% mais caros em 2017, com um efeito de 0,47 ponto percentual no índice final. As tarifas de energia elétrica subiram 10,25% em virtude do patamar mais alto das bandeiras tarifárias no ano passado. Por conta da nova política de reajuste de preços da Petrobras, acompanhando o mercado internacional, o preço da gasolina avançou 10,32% no ano e o do gás de botijão 16%. Reflexos da alta do preço do petróleo, que subiu de cerca de US$ 45 para US$ 60 em 2017.

Conforme afirma o Decreto nº 3.088, de 1999, cabe agora ao presidente do BC divulgar carta aberta com as razões e providências a serem tomadas por não ter cumprido a meta de inflação, uma das principais funções do banco. Mas se trata de um ‘bom problema’. A inflação bem comportada reduz incertezas e beneficia toda a economia. Para 2018, a expectativa é que fique em torno de 4%, ainda abaixo do centro da meta. Se confirmada, aumentam as chances do “Feliz 2018”.


O brasileiro não pensa naquilo
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Gesner Oliveira

Mais da metade dos brasileiros não fazem um orçamento doméstico ou familiar, 43% acreditam que “dinheiro existe para ser gasto” e apenas 16,3% já ouviram falar sobre títulos do Tesouro Direto. Estes são alguns dos resultados da pesquisa divulgada hoje pelo Banco Central, em parceria com a Serasa Experian e o Ibope, com dados de 2015.

O estudo revelou o que muita gente já sabia: o brasileiro não tem costume de poupar, não prioriza gastos no longo prazo e entende pouco sobre finanças pessoais. Do total dos entrevistados, 25% avalia seu conhecimento sobre finanças como “fraco” e 9% como “muito fraco”.

O dado que mais preocupa é a baixa propensão a poupar do brasileiro. Quase 70% dos entrevistados afirmaram não ter poupado nenhuma parcela da renda recebida nos 12 meses anteriores à pesquisa. Dos que pouparam, 53% guardaram menos de 10% dos recursos. Outros 30% pouparam entre 11% e 20% da renda, enquanto 12% guardaram de 21% a 30%.

O fato de o brasileiro dar pouca importância para o futuro ajuda a explicar esses números. Cerca de um terço “prefere viver o presente e deixar o futuro se resolver sozinho” e mais da metade não possui orçamento doméstico ou familiar. O resultado não poderia ser diferente: pouca poupança, alto endividamento, altas taxas de juros.

Outro fator é o baixo grau de conhecimento sobre finanças. Foram feitas perguntas para avaliar a noção dos entrevistados sobre três conceitos: matemática básica e capacidade de calcular taxa de juros simples e compostos; entendimento de inflação; e entendimento de diversificação de risco.

O grau de acerto das perguntas sobre juros compostos foi de apenas 30%, apenas metade soube fazer contas básicas de juros e principal, e um terço não soube calcular o valor do dinheiro no tempo (que pode mudar e muito!). Temas como diversificação (77%), relação risco e retorno (84%) e direitos do consumidor (92%) registraram graus de acerto maiores.

Considerando a história de superinflação no Brasil, surpreendeu o nível de desconhecimento sobre o tema “inflação”, ou aumento no nível de preços: “Imagine que um dos amigos tenha recebido o dinheiro e guardado no seu cofre em casa. Considerando que a inflação é de 5% ao ano, após um ano ele será capaz de comprar: mais, menos ou igual?” Apenas 27% das respostas estavam corretas.

Por fim, chamou atenção a falta de conhecimento sobre alternativas de investimento. Mesmo com o rombo atual na Previdência, apenas 60% já tinham ouvido falar de Previdência privada. E 1,9% está usando! Metade dos brasileiros já ouviu falar de ações, mas apenas 0,4% aplica seu dinheiro nelas. Com rendimentos melhores e riscos até menores que a poupança, títulos de renda fixa como do Tesouro Direto, Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI) só são conhecidos por 16,3% e aplicados por 0,7%.

Há hoje poucos incentivos à poupança no Brasil. A aposentadoria e o FGTS repõem ou superam a renda atual do brasileiro na maior parte dos casos. E os sistemas de saúde e de ensino de graça, apesar de péssimos, desestimulam a poupança.

Além disso, a educação financeira é limitada. O brasileiro normalmente fica na zona de rebaixamento dos exames internacionais de matemática. Muitos currículos escolares têm todo tipo de blá-blá-blá, mas finanças pessoais que poderiam ajudar o cotidiano do aluno e suas famílias ainda passam longe da sala de aula.

É preciso mudar a maneira como o brasileiro trata seu dinheiro. Não adianta pedir só na noite de reveillon. Se não cuidar do dindim o ano inteiro, o bolso fica vazio!