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Arquivo : PIB

Rebaixaram o Brasil, e daí?
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Gesner Oliveira

O rebaixamento da nota de crédito do Brasil pela Standard & Poor´s (S&P) mal arranhou a economia brasileira. De certa forma, o anúncio já estava precificado. O otimismo moderado permanece e se reflete na Bolsa e nas projeções para o próximo ano.

Em sua máxima histórica, o índice Ibovespa começou o ano com tudo. De 76.402 pontos no último pregão de 2017, o índice hoje tangencia os 80 mil pontos, com viés de alta. As expectativas estão otimistas com a provável manutenção dos juros em patamares baixos ao longo do ano. Com a melhora das receitas do governo, a notícia de que o déficit fiscal do ano passado deve fechar com folga de ao menos R$ 30 bilhões frente à meta de R$ 159 bilhões também agradou o mercado.

A bolsa acumulou alta de 76% no biênio 2016/17. Dois anos seguidos de crescimento que não ocorriam desde 2010. Apesar da volatilidade com as eleições, a previsão é de um tricampeonato neste ano, em parte porque a mera recuperação da economia terá efeito positivo sobre os resultados operacionais das empresas.

Os “gringos” também parecem otimistas. Estima-se que a entrada de recursos estrangeiros na bolsa nos oito primeiros pregões do ano seja a maior em pelo menos 14 anos. Os cerca de R$ 3,3 bilhões injetados representa um quarto do montante total do ano passado. O volume a ser captado pelas empresas que já se posicionam para fazer IPO (Initial Public Offering) pode passar dos R$ 10 bilhões. São ao menos 11 empresas, com destaque para os setores de shopping centers e de saúde.

Em 2017 foram movimentados mais de R$ 42 bilhões com ofertas de ações, incluindo IPOs e operações de empresas já listadas na bolsa. Foi o maior resultado desde 2009, quando R$ 47 bilhões foram captados. Para 2019 a expectativa é que as ofertas de ações atinjam cerca de R$ 35 bilhões.

Pela primeira vez o boletim Focus do Banco Central trouxe as projeções dos analistas para o ano que vem. A alta esperada de 2,8% no PIB e a Selic em 8% indicam relativo otimismo.

Não se sabe quem concorrerá para a Presidência, quanto mais o que acontecerá em 2019. Mas é possível fazer algumas estimativas. A depender do vencedor das eleições e de sua agenda de governo, o PIB no médio prazo poderia variar, em média, entre 1,5% e 3,5%. Da mesma forma, a evolução da dívida bruta/PIB pode sair de 75,1% neste ano e caminhar para 114,6% em 2030. Ou 41,7%, se tudo der certo.

O cenário pessimista supõe a volta do populismo. A agenda de reformas que o país precisa e que é vendida como “impopular” ficaria de lado, com total descaso das contas públicas. A reforma da Previdência não seria aprovada e o Orçamento continuaria engessado. A relação dívida/PIB continuaria subindo de forma explosiva, elevando o preço do dólar e refletindo na alta de inflação e juros.

O cenário mais otimista supõe uma aceleração da aprovação de agendas de ajuste fiscal e de produtividade. Uma reforma da Previdência “ousada” seria aprovada e o Congresso atacaria outras despesas obrigatórias como subsídios de baixo retorno social. A reforma tributária conseguiria contemplar a racionalização do ICMS, o Brasil e o Mercosul avançariam em acordos comerciais e a agenda de privatizações e concessões estimularia o investimento em infraestrutura.

Nem com Neymar, Coutinho e companhia dá para cravar o hexa, o que dizer do cenário otimista para a economia no médio prazo? Por ora, a certeza é que, a despeito do rebaixamento do Brasil pela S&P, a recuperação em curso deve manter a bolsa aquecida e fazer o PIB em 2018 fechar acima de 3%. Para além de 2018 o exercício de projeção pode precisar de uma bola de cristal.


Teimoso, 2017 desmentiu os pessimistas
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Gesner Oliveira

A maioria dos analistas erraram feio os números de 2017. No final de 2016, havia gente que falava em mais um ano de recessão. O que se viu foi um ano de inflexão, com a queda da inflação e dos juros, uma melhora no desemprego e aprovação de reformas importantes para o país. Depois de cair cerca de 7% no biênio 2015/16, a economia deve fechar o ano com alta de 1%.

Nessa época do ano é divertido reler as previsões que eram feitas no final do ano passado sobre 2017. O último relatório Focus deste ano do Banco Central finalmente corrigiu as projeções para o PIB de 2017. Agora o mercado espera alta de 0,98%, contra 0,5% no final do ano passado. Há um mês, a expectativa ainda era de 0,73%. A GO Associados apontava para alta de pelo menos 0,8% em dezembro de 2016.

O mesmo ocorreu com o desemprego, principal efeito da crise de 2015/16. No final do ano passado havia previsões para a taxa de desemprego em 16% na virada do primeiro para o segundo trimestre. O pico ocorreu no mês de março, mas em patamar bem mais baixo, em 13,75%. A GO Associados previa uma taxa de 13% para a média do ano, já considerando a resposta defasada do mercado de trabalho à melhora da economia. 2017 deve fechar com uma média de 12,7%.

A inflação e os juros surpreenderam a todos. Com a safra agrícola recorde neste ano, os preços dos alimentos caíram fortemente e puxaram a inflação para o menor patamar da história. Demorou para o mercado acreditar, mas o IPCA deve fechar o ano em torno de 2,8%. As previsões no final do ano passado rondavam a casa de 4,8%. Será a primeira vez que o índice termina abaixo do piso da meta do Banco Central, de 3%, exigindo que a autoridade explique através de carta pública ao governo o porquê de não ter cumprido seu objetivo. Melhor assim.

Com a derrocada dos preços dos alimentos, abriu-se mais espaço para a queda dos juros. E foi isso que aconteceu. A Selic caiu pela metade e saiu de 14% em outubro de 2016 para 7% ao ano no final deste ano. Provavelmente ainda sofrerá nova queda para 6,75% ao ano na próxima reunião do Copom, nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2018. Com isso as previsões erraram feio, já que rondavam acima de 10% no final de 2016.

O desafio agora é transformar a recuperação em crescimento sustentando. E para isso ainda há um longo caminho a se percorrer. O aumento do investimento em infraestrutura ainda não está assegurado e o adiamento da reforma da Previdência só piora o rombo fiscal.

Uma coisa é certa: será ainda mais divertido comparar os cenários para 2018 com os números efetivos que o próximo ano nos reserva.


Temer vs Temer: o popular e o reformista
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Gesner Oliveira

Pela primeira vez a popularidade do Governo Temer subiu. O nível de popularidade permanece baixo, mas algo aconteceu, a curva virou. A parcela dos que aprovam sua maneira de governar subiu de 7% para 9%. E os que avaliam o governo como bom ou ótimo avançou de 3% para 6%.

A recuperação da economia explica uma boa parte da virada. O prato típico do brasileiro leva arroz e feijão. Os preços destes dois itens caíram 11% e mais de 50%, respectivamente.  O preço da carne caiu cerca de 3%. Tudo bem , o tomate ficou um pouco mais caro, mas quem liga pra salada?

A deflação nos alimentos (isto é, queda de preços) foi ótima para o consumidor, especialmente de baixa renda. A inflação vai fechar o ano em um mínimo histórico, algo como 2,8%, impensável há menos de dois anos atrás. Segundo o Ipea, a inflação das faixas de renda mais baixas deve ser ainda menor, de 2%. Isso porque os alimentos pesam mais no orçamento dos mais pobres.

O PIB voltou a crescer em 2017 e há expectativas positivas para 2018. O mercado de trabalho dá os primeiros sinais de melhora e a inflação segue bastante baixa, especialmente dos preços dos alimentos. Dessa forma, a população começa a perceber uma pequena melhora em seu dia-a-dia.

Mas essa melhora não garante um salto de popularidade como aquele experimentado pelo Presidente Itamar com o Plano Real em meados dos anos noventa. Na ocasião, a popularidade de Itamar saltou de menos de 20% para mais de 40%. E impulsionou a eleição do ex-presidente FHC, então Ministro da Fazenda, ainda no primeiro turno.

No caso do Plano Real, houve um aumento abrupto do poder de compra dos trabalhadores, com o fim da hiperinflação. Algo que equivale a baixar um imposto, na realidade o pior dos impostos, o imposto inflacionário. Este aumento do poder de compra gerou uma rápida sensação de melhora no bem-estar das famílias.

A recuperação da economia na atualidade é diferente daquela que ocorreu em 1994. Tem um caráter mais lento, envolve contenção de gasto e demorará mais para ser percebida pela população. Assim, dificilmente o presidente Temer deixará a presidência com uma popularidade tão alta quanto a de Itamar, embora provavelmente superior à atual.

Se a popularidade continuar crescendo à mesma taxa que subiu neste quarto trimestre até o fim do próximo ano, encerraria 2018 em 24%. Ainda abaixo de quando ele começou seu governo (31%) e muito inferior àquela de Itamar Franco ao término de seu mandato (45%).

Embora limitada, a melhora da avaliação do governo é um capital político importante, que pode ajudar muito para a necessária aprovação da reforma da previdência, se for usado com sabedoria.

Em contraste, se servir para uma eventual candidatura de Temer poderia retirar e não somar apoio às reformas. Reconhecido como mais um candidato na disputa, Temer popular poderia comprometer a missão já difícil o suficiente do Temer reformista.


Crescimento de 2018 será maior do que o mercado espera
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Gesner Oliveira

Apesar das incertezas na política com relação aos candidatos à presidência e suas propostas de governo, a economia vai crescer no ano que vem. Hoje a projeção do mercado está em alta de 2,58% do PIB em 2018. Mas as condições são propícias para um crescimento até maior, acima de 3%.

Apesar do cenário incerto na política, há motivos para ser otimista com a economia. Ao menos no ano que vem. De acordo com o relatório Focus divulgado hoje pelo Banco Central (BC), a expectativa do mercado para a alta do PIB em 2018 passou de 2,51% na última semana para 2,58%. A projeção da GO Associados é mais otimista, de 3,2%.

Primeiro, a inflação deve permanecer bem-comportada. A expectativa é que termine 2017 em torno de 3,1% e salte para 4% no ano que vem, ainda abaixo da meta de 4,5%. Segundo a Conab, a safra agrícola ano que vem terá queda de cerca de 5,6% em relação a desse ano. No entanto, o balanço entre oferta e demanda dos principais produtos continua confortável. Não haverá deflação no preço dos alimentos como em 2017, mas nada que constitua uma bomba inflacionária.

Segundo, a taxa de juros Selic deve ficar em torno de 7% ao ano em 2018. Na próxima semana, o Copom deve reduzir a taxa de 7,5% em 0,5 ponto percentual, levando-a ao seu menor nível. Com a inflação bem-comportada, a expectativa é que os juros permaneçam assim no ano que vem. Os juros “baixos”, para padrões brasileiros, tendem a estimular os investimentos e o consumo.

Terceiro, em contraste com as eleições de 2002, quando o risco Lula assustou o mercado, o preço do dólar não deve oscilar tanto dada a situação confortável das contas externas.

Por fim, a recuperação mostra-se disseminada na economia. O Índice de Difusão da GO Associados, que acompanha 35 séries econômicas de diferentes segmentos, indica que 85,7% do total vêm melhorando. A indústria e o varejo têm trazido números melhores e o mercado de trabalho dá sinais de vida.

Na próxima sexta-feira (1), será divulgado o PIB do terceiro trimestre. A expectativa é que a economia tenha crescido pelo terceiro trimestre consecutivo, em 0,2% ante o trimestre anterior. Do lado da demanda, a principal novidade será o crescimento dos investimentos, que devem ter voltado a crescer, depois de 14 quedas em 15 trimestres. Do lado da oferta, indústria e serviços lideram a recuperação.

Com os dados positivos de sexta-feira, espera-se que o mercado atualize suas projeções para o ano que vem. Para um crescimento sustentado no médio e longo prazo, há muito o que ser feito. Mas para 2018, apesar da bagunça na política, há espaço para um otimismo moderado.


Brasil à espera do lenga-lenga da segunda denúncia
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Gesner Oliveira

A segunda denúncia do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, ilustra como o Brasil vive no mundo da fantasia. Imerso em profunda crise fiscal com desdobramentos trágicos sobre o restante da economia, o Congresso passará as próximas semanas concentrado na votação de mais uma denúncia inepta, cujo resultado formal será o arquivamento.

Os efeitos práticos todo mundo já sabe: barganha político-partidária da pior espécie e procrastinação das reformas em benefício exclusivo daqueles que não querem perder seus privilégios.

Na economia há sinais de melhora. A começar pelo otimismo crescente com relação à recuperação. O relatório Focus do Banco Central mostrou que pela quinta vez consecutiva caiu a expectativa do mercado para a inflação neste ano, agora em 2,97%. É a primeira vez que o número fica abaixo dos 3%. Para o PIB, as projeções tiveram leve alta de 0,60% para 0,68% em 2017 e de 2,20% para 2,30% em 2018. As estimativas para os juros permanecem no menor patamar histórico.

O problema é o rombo nas contas públicas que beira R$ 160 bilhões. E olhe lá, porque pode ser mais.  As receitas extraordinárias como os recursos do programa Refis e dos leilões na infraestrutura serão fundamentais para fechar a conta no final do ano. Há grande expectativa com relação às concessões das usinas hidrelétricas amanhã, que podem render cerca de R$ 11 bilhões para os cofres públicos.

Os desdobramentos sobre o restante da economia são trágicos. Basta olhar para a situação fiscal em estados como Rio de Janeiro ou Minas Gerais. Sem dinheiro, não tem como pagar salários e é preciso até cortar gastos de setores fundamentais para a população. Ministérios como o da Saúde e Educação, por exemplo, viram seus orçamentos serem cortados em cerca de 10% e 20%, respectivamente.

Daí a importância da reforma da Previdência. Apesar do ajuste nos gastos sob controle do governo, despesas com a Previdência seguem em alta. O déficit do governo central é cada vez mais previdenciário e é por isso que é fundamental atacar o problema de frente. Era o que se esperava ver em discussão no Congresso e na sociedade. E não o lenga-lenga da segunda denúncia que deve durar até a terceira semana de outubro; para, depois de muita politicagem, ser arquivada.

Apesar desse descompasso entre a agenda política e os reais problemas do país, os indicadores econômicos continuam positivos. Mas o atraso da agenda reformista aliado à precoce discussão das candidaturas às eleições de 2018 representam riscos ao ajuste da economia no médio prazo. Em vez de ficar barganhando votos e defendendo privilégios, o Congresso deveria estar discutindo o que realmente importa para os brasileiros.

 


Enquanto a política derrapa, a economia começa a decolar
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Gesner Oliveira

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,2% no segundo semestre de 2017. Pode parecer pouco, mas dado que o país passou pela pior crise de sua história é algo a se comemorar. Foi a primeira alta contra o mesmo trimestre do ano anterior, após 12 trimestres seguidos de queda.

O PIB não é a única variável que importa para as pessoas, mas também não é a única que tem mostrado recuperação. A taxa de desemprego divulgada esta semana ficou em 12,8% no trimestre encerrado em julho. Foi um recuo de 0,2 ponto percentual contra o trimestre terminado em junho. Após atingir o pico de 13,7% no trimestre terminado em março, foram quatro quedas seguidas e mais de 1,1 milhão de brasileiros saíram da fila do desemprego.

Na semana que vem o Comitê de Política Monetária (Copom) decide sobre a taxa de juros básica da economia (Selic) que hoje se encontra em 9,25%. O Copom deve reduzir os juros em 1 ponto percentual, levando a Selic para 8,25%. Será a menor taxa desde julho de 2013. Isso ajuda na recuperação da economia.

A inflação sob controle, apresentando alta de apenas 2,7% nos últimos doze meses, somado a um desemprego em queda, um PIB crescente e uma taxa de juros cada vez menor, mostram que o pior já passou.

Ninguém se iluda. Ainda é pouco considerando o potencial de crescimento do Brasil e a necessidade de gerar oportunidades de emprego. Mas para isso, é fundamental avançar nas reformas e investir na infraestrutura.


Recessão acabou, mas já dá mostras de que pode voltar
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Gesner Oliveira

A recessão acabou, mas não há muitos motivos para se comemorar. O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre deste ano, depois de oito trimestres consecutivos de queda.

Quando a economia parecia estar voltando aos trilhos a nova crise política balançou o país e trouxe muitas incertezas com relação ao futuro. No pior cenário, de paralisia das reformas no Congresso e dos investimentos em infraestrutura, o PIB poderia cair até 2%, levando o país a um terceiro ano consecutivo de recessão.

Além do PIB, nas últimas 24 horas houve outras duas notícias que deram certo alívio à economia, mas que pouco dizem sobre o que pode ocorrer ao longo de 2017. A Pnad contínua surpreendeu positivamente e mostrou uma leve melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego saiu de 13,7% no trimestre encerrado em março para 13,6% no trimestre encerrado em abril. O número de desempregados recuou de 14,2 milhões para 14 milhões, enquanto o número de ocupados apresentou alta de 88,9 milhões para 89,2 milhões.

Apesar dos números positivos, não dá para celebrar. O crescimento do pessoal ocupado foi puxado por ocupações como conta própria (+167 mil), setor público (+140 mil), informal (+77 mil) e trabalhador doméstico (+44 mil). O trabalho com carteira assinada, por exemplo, recuou 120 mil em relação ao trimestre encerrado em março. Com isso, o estoque de trabalhadores CLT atingiu 33,3 milhões, o menor valor desde o início da série em 2012.

O número de pessoas que entrou no mercado de trabalho diminuiu no último mês, o que também ajuda a conter o aumento do desemprego. Desacelerou o crescimento da população em idade ativa, capaz de trabalhar: depois de crescer 1,37% em março, desacelerou para 1,22% em abril.

Se a política não atrapalhar, o segundo semestre deve mostrar um início mais consistente do processo de recuperação do mercado de trabalho. Mas se o nevoeiro ficar mais forte, essa melhora fica ameaçada. Em vez de serem criados 150 mil empregos neste ano, como era previsto antes da delação da JBS, poderá haver perda de 760 mil postos com carteira assinada, diferença de 910 mil vagas. No pior cenário, o número de desempregados pode superar 16 milhões no final do ano.

Outro refresco foi a decisão de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa de juros em 1 ponto percentual. A taxa básica de juros da economia, a chamada Selic, passou de 11,25 para 10,25% ao ano.

O corte poderia ter sido mais agressivo, não fosse a instabilidade política. As incertezas com relação ao avanço das reformas e seus efeitos negativos sobre o preço do dólar tornaram o Copom mais cauteloso. O comunicado, inclusive, aponta um futuro incerto: diante da maior incerteza, o Copom deverá reduzir o ritmo de queda dos juros.

Fazer projeções econômicas hoje no Brasil é como dirigir sob forte nevoeiro. Você não consegue enxergar um metro à frente! O único jeito é ir devagar, quase parando. Olhar no retrovisor para prever o futuro nem sempre ajuda. Há alguns meses, quando olhávamos para trás, a gente via o PIB cair, mas as expectativas eram positivas. Agora o PIB subiu, mas pode voltar a cair nos próximos trimestres. Eis o perigo de uma crise prolongada nublando o horizonte de planejamento. A economia pode parar.


Acabou a recessão, mas o desemprego ainda é muito alto
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Gesner Oliveira

A recessão acabou, mas não para cerca de 14 milhões de brasileiros desempregados e suas famílias. Após oito trimestres de queda, o PIB deve voltar a crescer. Mesmo com uma recuperação será lenta e gradual, setores como indústria e serviços já mostram que os números para o primeiro trimestre deste ano devem vir positivos. A maior crise econômica da história do país parece estar indo embora, mas deixou sequelas importantes. O desemprego ainda é muito alto.

O índice de atividade econômica IBC-Br, divulgado ontem pelo Banco Central, subiu 1,31% em fevereiro ante o mês anterior, quando a alta havia sido de apenas 0,62%. O resultado é reflexo da melhora de 0,7% no volume de serviços prestados no país e da alta de 0,1% da produção industrial no período. Caso o indicador fique estável em março, espera-se que para o primeiro trimestre do ano o resultado seja de alta de 1,47%, o que romperia uma sequência de oito trimestres de queda.

A agenda de reformas continua viva apesar das delações da Odebrecht. Aos trancos e barrancos, é verdade, as reformas da Previdência e trabalhista têm avançado. Além disso, tanto a inflação como os juros têm caído, o que tende a estimular o crescimento econômico. Mas nem tudo na economia são flores. Para cerca de 13,5 milhões de desempregados, a crise continua.

O elevado desemprego continua sendo o maior drama atual da economia brasileira. No mês de fevereiro o desemprego atingiu a marca de 13,2%, maior nível desde 2012. Apenas de empregos com carteira assinada (CLT), nos últimos doze meses haviam sido perdidos cerca de 1,1 milhão de vagas. Para março, a estimativa é de que a taxa continue subindo e atinja 13,6%, equivalendo a cerca de 14 milhões de desempregados.

A demissão em massa de trabalhadores levou ao avanço do trabalho por conta própria. De junho de 2014 até agora, a participação deste tipo de ocupação saltou de 22,8% para 25,6% do total. Tipicamente, quando a economia vai mal e as empresas demitem empregados CLT, há uma migração para modalidades de ocupação com menor produtividade e remuneração. Tem sido tão difícil achar um trabalho que nem emprego informal subiu muito, passando de 11,2% para 11,5% no período.

Mas se o desemprego está piorando, por que vimos o anúncio da criação líquida positiva de empregos em fevereiro? O resultado positivo de 35,6 mil vagas, anunciado pelo presidente Michel Temer, diz respeito apenas aos empregos formais. Como a economia já vem se recuperando, as empresas passam a contratar mais empregados CLT. Depois de 22 meses seguidos de queda houve finalmente um resultado positivo. Ocorre que o segmento formal representa apenas 37,8% do total do mercado de trabalho.

Com a retomada da atividade, os dados sugerem que a ocupação com carteira assinada deva crescer mais que a ocupação total nos próximos trimestres. O emprego formal voltará a ganhar participação no total enquanto deve cair a parcela de emprego informal e de trabalho por conta própria. O efeito é positivo sobre a produtividade da economia.

Outra dúvida comum é com relação à defasagem do mercado de trabalho. Por que o desemprego deve continuar subindo se a economia já dá mostras de recuperação? O primeiro motivo é a rigidez no mercado de trabalho. A legislação é tão rígida que a empresas pensa dez vezes antes de voltar a contratar. Daí a importância de modernizar as leis vigentes com a reforma trabalhista.

O segundo motivo é o crescimento da força de trabalho no país, ou a chamada população economicamente ativa (PEA), que corresponde à soma de trabalhadores ocupados e desocupados procurando emprego. Em dezembro do ano passado a PEA crescia a uma taxa de 1,37% ao ano, fruto da incorporação de jovens ao mercado de trabalho. Para que o desemprego permaneça constante, portanto, é preciso que o mercado absorva no mínimo o mesmo montante de novos desocupados. Quando o mercado, ao contrário, passa a destruir empregos, a taxa de desemprego leva muito mais tempo para se recuperar.

Apesar das boas perspectivas para os próximos trimestres na economia, o drama do desemprego continua. Estima-se que apenas no terceiro trimestre do ano a taxa comece a cair. A volta vai exigir pleno emprego vai exigir alguns anos. Isso só reforça a importância da aprovação das reformas estruturantes na economia.

 


Bye bye, recessão…e a recuperação?
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Gesner Oliveira

Os dados do PIB divulgados hoje ilustram a profundidade da maior recessão da história do país em 2015/16. No ano passado o produto brasileiro caiu 3,6%, após encolher 3,8% em 2015, representando uma queda do PIB superior a 7% e do PIB por habitante maior do que 10%. Mas isso é passado. O que interessa é saber se 2017 será diferente.

Segundo os dados do IBGE, em 2016 houve recuo de 6,6% na agropecuária, de 3,8% na indústria e de 2,7% nos serviços. No quarto trimestre do ano o PIB teve baixa de 0,9% em relação ao trimestre anterior, sendo o oitavo resultado negativo consecutivo nessa base de comparação.

Chama atenção a queda dos investimentos (formação bruta de capital físico), de -10,2%, variável fundamental para a capacidade produtiva da economia. Foi o terceiro ano seguido de declínio do investimento, totalizando uma contração de quase 26% desde 2014!

A despesa das famílias caiu 4,2% em relação a 2015, refletindo a deterioração do emprego, renda e dos indicadores de juros e crédito ao longo de todo o ano passado. A despesa do governo, por sua vez, caiu 0,6%, ante queda de 1,1% em 2015.

Vale destacar ainda os resultados no setor externo. As exportações de bens e serviços cresceram 1,9%, enquanto que as importações caíram 10,3%.

Embora importantes, os dados para 2016 não constituem um bom indicador do que vai acontecer em 2017. A economia neste ano deve apresentar uma recuperação modesta, de cerca de 0,6%. Uma recuperação mais consistente deveria ser liderada pelo investimento e pela competitividade, mas o que se nota é que tais condições ainda não parecem sólidas o suficiente.

Essencial para girar a roda da economia, a taxa de investimentos ainda engatinha. Na média do ano passado, os investimentos representaram 16,4% do PIB, valor muito baixo dadas as necessidades estruturais do país. Países emergentes como Colômbia e México, por exemplo, possuem taxas acima de 20%. A China investe mais de 40% do seu PIB.

Em termos de competitividade o Brasil também deixa muito a desejar. Segundo o ranking 2016/17 de competitividade do Fórum Econômico Mundial, o país está na 81ª posição, atrás de países como Irã (76ª), Botswana (54ª) e Azerbaijão (37ª). O resultado é um setor externo dependente de um câmbio competitivo e refém dos preços de commodities como minério de ferro e soja.

As condições estão dadas para uma recuperação modesta em 2017. Há muita capacidade ociosa, a inflação caiu, os juros estão caindo e a safra agrícola será recorde.  Mas o desafio é estabelecer as bases para uma recuperação consistente que permita resgatar a capacidade de crescimento do país. Tal tarefa passa por gerar um ambiente propício para as exportações e sobretudo o investimento.


A recessão acabou. Mas e o desemprego?
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Gesner Oliveira

O cenário para 2017 é animador. Taxa de juros em queda, inflação sob controle e um crescimento positivo do PIB depois de dois anos de recessão. Porém, a realidade da economia real e do mercado de trabalho é outra.

Do total dos 54,3 milhões de trabalhadores empregados no setor privado, 10,4 milhões estão sem carteira de trabalho, número 6,4% maior comparado com o mesmo período de um ano atrás. Além do aumento da informalidade, aumentou-se o número de trabalhadores autônomos, os chamados, trabalhadores por conta própria. Ao todo eles representam 22,2 milhões de pessoas, aumento de 3,9% em relação ao ano anterior.

Além do aumento do número de desempregados, aumento da informalidade e o número de funcionários autônomos, chama atenção a taxa de subocupação que atingiu 12 milhões de pessoas ao final de 2016. Esta taxa mostra o número de pessoas que trabalhavam menos horas do que gostariam. Com isso, a subutilização – taxa que soma o número de pessoas desempregadas mais o número de pessoas que trabalham menos horas do que queriam – somou 24,3 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2016.

O número de desempregados atingiu 12,9 milhões em janeiro, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, um em cada cinco brasileiros desempregados estão há dois anos ou mais procurando trabalho. Este número representa 2,3 milhões de brasileiros do total de 11,7 milhões que, na média, de 2016, procuram sem sucesso a recolocação no mercado de trabalho.

A taxa de desemprego que atingiu 12,6% era 9,5% no mesmo período de 2016, um aumento de 3,1 pontos percentuais. O número é surpreendente. Desde o início da série histórica em 2012, esta é a maior taxa registrada até hoje.

O primeiro semestre deste ano marca o início da retomada na economia do país. Se alguns indicadores econômicos recentes mostram a saída da recessão, o olhar detalhado sobre os dados do mercado de trabalho mostra que o brasileiro ainda tem um longo caminho até sentir a melhora no bolso. Ao que tudo indica essa virada será no segundo semestre de 2017.