Blog do Gesner Oliveira

Atrasar reforma é atrasar recuperação e privilegiar os que ganham mais
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Gesner Oliveira

Nesta terça feira (7), o Índice Bovespa fechou em baixa de 2,55%, a 72.414 pontos. A maior queda diária desde 18 de maio, na divulgação das gravações da JBS que desencadearam nova crise política no país. O motivo desta vez, porém, é outro: o adiamento da reforma da Previdência.

A equipe econômica e o governo têm cada vez mais manifestado as suas preocupações pela possibilidade de uma derrota do governo ao tentar aprovar a proposta de reforma da previdência. A cada notícia contra a reforma, o mercado cai. A alta volatilidade do Índice Bovespa nos últimos tempos devido a notícias referentes à previdência mostra a sensibilidade do mercado para o tema.

De alguns anos para cá, o governo tem mostrado que têm dificuldade de fechar as contas. A previsão para este ano de 2017 é que as contas do governo em 2017 tenham um déficit de R$ 159 bilhões. Ou seja, o governo gastará – de novo – mais do que arrecadou. A surpresa – para alguns – está no quanto deste déficit se refere ao pagamento de aposentadorias e pensões. Neste ano, o déficit da previdência está previsto para R$ 260 bilhões. Ou seja, não é exagero dizer que todo o déficit público provém da Previdência.

Isso significa que – embora necessárias – não adiantam privatizações, redução das taxas de juros e controle da inflação, se não for aprovada esta fundamental reforma. A inflação voltará a aumentar e as taxas de juros voltarão a subir à medida que o governo continua sinalizando que não tem capacidade de pagar as suas contas.

Mais do que isso, a permanência dessa situação, coloca em risco a possibilidade das novas gerações receber esses benefícios que estão sendo oferecidos hoje. É caso do Rio de Janeiro que não conseguiu colocar as contas públicas em dia e se viu obrigado a parcelar salários e não consegue pagar os benefícios para os funcionários públicos do estado.

Além de colocar as contas públicas no azul, necessária para garantir os benefícios das próximas gerações, a reforma da previdência tem um caráter redistributivo. Ela acabará com alguns privilégios e anomalias no país. Hoje, o sistema previdenciário beneficia aqueles que ganham mais. Os pobres que ganham menos (desempregados e trabalhadores informais) transferem renda para aqueles que ganham mais. A reforma é urgente e não deveria ficar para 2018.


O que muda no mundo do trabalho a partir deste sábado?
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Gesner Oliveira

A nova legislação trabalhista entrará em vigor neste sábado, 11 de novembro. A modernização do mercado de trabalho dada pela Lei 13.467 não fará milagres, mas constitui peça importante na geração de empregos no médio prazo. A pergunta que fica é o que efetivamente irá mudar no mundo do trabalho a partir deste sábado.

Levará um tempo para a sociedade absorver as novidades. Primeiro, há um período natural de assimilação da legislação, que exige uma mudança na maneira de pensar as relações do trabalho por parte das empresas, trabalhadores e sindicados. A consolidação de uma nova cultura do negociado prevalecer sobre o legislado não ocorrerá da noite para o dia.

Segundo,  o acordo feito entre o governo e o Senado prevê algumas alterações no texto da nova lei. Dentre os itens que causaram divergências, que devem ser editados no Congresso via projeto de lei, estão as regras para os contratos de trabalho intermitente, dos serviços autônomos e o trabalho de gestantes e lactantes em locais insalubres.

Terceiro, a polêmica com a Justiça do Trabalho, em que parte dos seus membros consideram que a nova lei viola direitos previstos na Constituição ou em convenções internacionais. A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) divulgou recentemente documento questionando 125 pontos da lei e defendendo a livre interpretação de seu texto pelos juízes e procuradores.

De qualquer maneira, e embora leve algum tempo para ser totalmente absorvida, a lei passa a valer neste fim de semana. Contratos firmados a partir de então entre os trabalhadores, empresas e sindicatos serão afetados pelas mudanças.

Para os trabalhadores, uma importante mudança é a regulamentação de serviços como o teletrabalho e trabalho intermitente. Haverá muito mais flexibilidade nas regras e acordos com a empresa podem definir os detalhes de tempo de férias, dias de feriados, intervalo de almoço e a jornada de trabalho. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que 73% dos trabalhadores querem ter mais flexibilidade no expediente. Para os que trabalham em empresas com 200 empregados ou mais, há a possibilidade de eleger uma Comissão de Representantes com a função de dialogar com a direção da empresa em seu nome.

Para as empresas, a principal mudança é a redução do custo da excessiva regulamentação, que incentivava reclamações exageradas e até descabidas. Trata-se, de acordo com o último relatório do Doing Business, do segundo fator mais problemático para fazer negócios no país. A tendência é que haja menos processos sobrecarregando a Justiça do Trabalho dado que a testemunha receberá multa se faltar com a verdade. Segundo o Ipea, entre 2006 e 2010 houve 13,8 milhões de reclamações. Número que saltou para mais de 17 milhões entre 2011 e 2015.

Com relação aos sindicatos, há ganhos para a aqueles que fizerem por merecer. Hoje um dia de trabalho por ano é gasto pelo trabalhador para pagar sindicatos que não necessariamente o representam. Essa obrigatoriedade acabou e agora os cerca de 12 mil sindicatos de trabalhadores terão de se reinventar. A partir de agora, a tendência é que haja menos sindicatos, mas com mais poder. Agora a negociação entre empresa e trabalhador pode sobrepor à lei em alguns casos e são eles que farão o meio de campo.

A despeito da demora para a assimilação da nova legislação, com a consolidação de uma nova jurisprudência nas decisões judiciais, a nova CLT já traz novidades importantes a partir deste fim de semana. Começa um mercado de trabalho pró-crescimento, mais flexível e com maior segurança jurídica.


A CLT já vai tarde
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Gesner Oliveira

Com 74 anos de idade, chegou a hora da CLT se aposentar. A rígida e ultrapassada legislação, que protege apenas pouco mais de um terço da população economicamente ativa, deixará de valer a partir do próximo sábado, dia 11 de novembro.

As novas regras trazidas pela Lei 13.467 não eliminam direitos dos trabalhadores, pelo contrário. Regulamenta diversos serviços, privilegia a negociação entre patrões e empregados, diminui a desigualdade de renda, traz segurança jurídica e tem potencial de estimular a geração de empregos.

Não restavam dúvidas acerca da urgência de uma modernização das relações trabalhistas. De acordo com o Instituto Fraser, em 2015 o Brasil estava na zona de rebaixamento do ranking mundial de flexibilidade da legislação trabalhista, ocupando a posição 152 de um total de 159 países. Tal fato é trágico na medida em que diversos estudos na literatura acadêmica apontam para uma relação inversa entre nível de emprego e grau de engessamento no mercado de trabalho.

Flexibilizar as regras não significa eliminar direitos dos trabalhadores. Os dados do Fórum Econômico Mundial mostram que não há relação direta entre o Índice Global de Direitos dos Trabalhadores (elaborado pela Confederação Sindical Internacional, ITUC em inglês) e a flexibilidade do mercado de trabalho. Os trabalhadores podem muito bem estar protegidos e com regras flexíveis. Buscar ambos significa mais igualdade e mais emprego.

Ainda de acordo com o Fórum Econômico Mundial, a excessiva regulamentação do mercado de trabalho no Brasil é considerada pelas empresas como o segundo maior entrave para fazer negócios no país, perde apenas para a absurda carga tributária. Regras rígidas, que não protegem inúmeras formas de trabalho e que dificultam contratações e demissões representam custo na veia. Se é ruim para a empresa, é ruim para o trabalhador e milhares de projetos que absorvem mão de obra deixam de ser realizados.

A Lei 13.467 visa  modernizar o mercado de trabalho no Brasil. A principal mudança é privilegiar os acordos entre patrões e funcionários sobre o que está escrito na lei e vale para todo mundo. Com a exceção de direitos básicos como férias, licença maternidade e segurança, pode-se negociar qualquer tema, com a devida mediação dos sindicatos. Além de dar mais liberdade para os trabalhadores, isso significa mais segurança jurídica, com menos processos na Justiça do Trabalho.

Outra vitória para os trabalhadores é a regulamentação dos serviços que antes eram ignorados pela velha CLT, como o trabalho intermitente (aquela atividade que ocorre em dias alternados na semana ou sem horários fixos) e o por conta própria. Milhões de trabalhadores antes condenados à informalidade agora têm direitos garantidos por lei, o que contribui para a redução da desigualdade. Dado que parte dos impostos que incidem nas empresas são repassados para os preços, o trabalhador informal e sem direitos é quem subsidia os benefícios do trabalhador formal.

No curto prazo, a expectativa de tempos melhores com regras mais claras e flexíveis tende a impulsionar a economia. No médio prazo, a reforma deve ser geradora de empregos. Segundo estudo do Banco Mundial, a redução da rigidez do mercado de trabalho poderia gerar 2 milhões de postos de trabalho. Exercício do Santander aponta que a reforma trabalhista irá criar 2,3 milhões. Por sua vez, o Ministério da Fazenda aponta que reduzir pela metade a “cunha trabalhista”, hoje equivalente a um terço do total pago pelo empregador, criará 6 milhões de empregos.

Embora tais projeções possam ser viáveis sob determinadas hipóteses, é preciso ser realista em relação à reforma trabalhista. A modernização do mercado de trabalho, por si só, não fará milagres. Mas constitui peça necessária para promover um crescimento de médio prazo com mais competitividade. Em última análise, é isso que vai gerar as oportunidades de emprego nas próximas décadas.


Fosso entre homens e mulheres é enorme no Brasil e no mundo
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Gesner Oliveira

Serão necessários mais de dois séculos ou 217 anos para acabar com as diferenças entre homens e mulheres no local de trabalho. Este é um dos resultados contidos no Relatório de Desigualdade Global de Gênero 2017 elaborado pelo  Fórum Econômico Mundial.

O estudo realizado anualmente desde 2006 aponta que, mantido o ritmo atual, serão precisos 100 anos para acabar com as diferenças entre homens e mulheres em escala mundial, contra os 83 anos calculados em 2016. Já as diferenças entre gêneros no local de trabalho, mantidas o ritmo atual, persistirão por mais 217 anos.

O Brasil também perdeu posições no ranking. Entre 144 países da pesquisa, o Brasil caiu para a 90ª posição, atrás da Argentina (33º), Colômbia (36º), Peru (48º), Uruguai (56º) e Chile (63º). No ano passado, o Brasil ficou no 79º lugar e na primeira edição da pesquisa, em 2006, o Brasil estava em 67º.

São quatro sub-índices: participação econômica, educação, saúde e empoderamento político. As principais disparidades estão na representatividade política. O Brasil apresenta uma baixa participação no Legislativo. Para se ter uma ideia, dos 513 deputados federais, apenas 10% são mulheres. No Senado, dos 81 parlamentares, 16% são cadeiras femininas.

Do lado positivo, o desempenho é um pouco melhor em saúde e educação do país. Dos 144 países, o Brasil ocupou a primeira posição mostrando que está entre os melhores no combate à desigualdade nestas áreas.

Não há diferença entre homens e mulheres no quesito saúde. A expectativa de vida feminina é de 68 anos, enquanto os homens vivem em média 63 anos. Outro bom indicador é o da educação. Enquanto 91,4% dos homens são alfabetizados, este índice é de 92,1% para os homens. Além disso, as mulheres também são maioria no ensino superior com 59% versus 42% dos homens. Ressalve-se apenas a baixa qualidade da educação no país que afeta igualmente brasileiros e brasileiras.

Em educação e saúde o Brasil está ao lado de países como Finlândia, Noruega e Suécia. Em relação a empoderamento político e participação econômica estamos ao lado de países como Senegal, Paraguai e Lesoto. É a desigualdade dentro da desigualdade.

O talento é um dos fatores essenciais para o crescimento econômico e competitividade. Para construir economias que sejam dinâmicas e inclusivas, deve-se garantir que todos tenham a mesma oportunidade. O Brasil ainda está longe deste objetivo.


Como a nomeação de Jerome Powell por Trump afeta seu bolso
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Gesner Oliveira

A esperada nomeação de Jerome Powell para o Banco Central dos EUA (FED, na sigla em inglês), formalizada nesta tarde pelo Presidente Donald Trump, vai ajudar a reduzir os juros, frear a subida do dólar e contribuir para a alta da bolsa aqui no Brasil.

Jerome Powell representa a continuidade na política monetária dos EUA. Em termos práticos, isso quer dizer que será mantida a elevação gradual da taxa de juros no país. Se Trump tivesse optado por John Taylor, um renomado professor da Universidade de Stanford, na California, e crítico da atual política monetária dos EUA, haveria uma imediata reação do mercado esperando uma elevação dos juros e consequente encarecimento do dólar em relação às outras moedas (como o Real) e queda nas bolsas.

Com Powell, parte da aflição com elevação súbita da taxa de juros nos EUA foi embora. Isso é bom para o Brasil que precisa reduzir juros para fortalecer a recuperação que está em curso. Também alivia a pressão sobre o preço do dólar em reais que subiu no período recente.

Uma subida súbita na taxa de juros dos EUA desviaria os capitais para o mercado americano em prejuízo dos investimentos nos países emergentes.

A atual presidente Janet Yellen, primeira mulher a liderar o banco central dos EUA, deixa o cargo com o melhor desempenho em termos de baixa inflação e desemprego. Foi criticada pelo candidato Trump na campanha eleitoral, mas recebeu elogios  do agora presidente Trump na cerimônia de anúncio do novo presidente do FED.

O FED é importante, mas não é tudo. Além da política monetária, é preciso levar em conta a situação fiscal. Trump quer fazer uma audaciosa redução de impostos que pode piorar ainda mais a situação da dívida nos EUA e exigir aumento dos juros.

Por fim, a economia dos EUA está aquecida e o aumento dos juros é iminente. A boa política monetária requer muito mais do que a técnica. O segredo do sucesso reside na arte de calibrar corretamente o estímulo à economia. O desempenho de países emergentes como o Brasil depende em grande medida dessa habilidade. Estamos no mesmo barco de Jerome Powell.


Simplificação tributária urgente
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Gesner Oliveira

O Brasil é campeão mundial da confusão tributária. O relatório elaborado pelo Banco Mundial, Doing Business, mostra que o país continua ganhando um troféu do qual não deveria se orgulhar. O Brasil é o País onde as empresas gastam mais tempo para calcular e pagar impostos: 1.958 horas por ano, em média. É uma medida da complexidade da estrutura tributária brasileira.

O relatório, divulgado anualmente, é um termômetro de como as leis e regulações e burocracia impactam no funcionamento das empresas. Dentre os itens avaliados estão o número de dias gastos na abertura de empresas, pagamento de impostos, obtenção de alvarás, conexão com a rede elétrica e registro de uma propriedade, para citar alguns exemplos que fazem parte do calvário do empreendedor no Brasil. A confusão tributária gera insegurança jurídica e inibe o investimento. Isso no melhor cenário. No pior, abre chance para o achaque e a corrupção.

Atrás do Brasil em tempo para calcular e pagar impostos está a Bolívia. A diferença é gritante. São 1.025 horas por ano praticamente metade do tempo brasileiro. Na Argentina, por exemplo, o tempo médio é de 311,5 horas/ano. Já no México o número cai para 240,5 horas/ano.

O ranking compara 190 países. No quesito ambiente de negócios o Brasil caiu da 123ª para a 125ª posição, apesar de ter registrado uma pequena melhora na pontuação. É uma posição ruim mesmo comparada a países emergentes. semelhantes com o Brasil. Todos os países do Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul) estão à frente no ranking. O país também está atrás dos vizinhos Argentina (117º), Peru (58º) e Chile (55º). A liderança na classificação é da Nova Zelândia, seguida por Cingapura, Dinamarca, Coreia do Sul e Hong Kong.

Para que o país dê um salto de produtividade e a atual recuperação não vire mais um voo de galinha, é fundamental melhorar o ambiente de negócios no país. Uma reforma tributária que simplifique o pagamento de impostos constitui uma das componentes mais importantes neste processo.


Em vez de feriadão, Congresso precisa aprovar reforma da Previdência
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Gesner Oliveira

Em vez de fazer feriadão, o Congresso deveria aprovar as medidas orçamentárias para 2018. Sem a ilusão de que com isso dá para adiar a reforma da Previdência. Não dá. O chamado pacote do governo só evita o aumento do rombo fiscal. Não resolve o problema.

O governo apresentou ontem a nova versão do Orçamento de 2018 e encaminhou as Medidas Provisórias (MPs) que visam garantir R$ 12,6 bilhões extras para os cofres públicos no ano que vem. Tais medidas já estavam sendo preparadas nos bastidores, são necessárias para administrar um rombo elevado, mas não resolvem o problema. Sem reforma da Previdência não tem recuperação sustentável.

Para aumentar a receita em 2018, elevou-se a alíquota previdenciária dos servidores federais de 11% para 14%. Quem recebe até o teto do INSS (R$ 5.531,31) continua contribuindo com 11% de seu salário, quem recebe acima deste valor pagará 14% sobre o excedente. O reajuste destes trabalhadores foi adiado para 2019. Além disso, o governo passará a taxar anualmente fundos de investimentos exclusivos fechados, de clientes de alta renda. Atualmente só há uma cobrança de imposto no resgate das aplicações.

Com o cumprimento da meta de déficit primário de R$ 159 bilhões desse ano cada vez mais encaminhada, a preocupação passa a ser a meta do ano que vem, de mesmo valor. Com tamanho rombo, algumas medidas impopulares serão necessárias, mas não suficientes. Mesmo com a regra do teto para os gastos públicos e o ajuste fiscal em curso, a situação continua dramática. Estima-se que apenas em 2022 o país terá superávit primário. Somente em 2024 é que a dívida bruta em termos do PIB, hoje em 73,9%, deve parar de crescer.

A ata do Copom divulgada hoje pelo Banco Central também faz alerta neste sentido. Para os membros do comitê, a aprovação e implementação das mudanças de natureza fiscal e de ajustes na economia são fundamentais para a sustentabilidade do cenário de inflação baixa e estável. A principal delas todo mundo já sabe, apesar de o Congresso ainda se esforçar em ignorar: a reforma da Previdência.

Basta uma rápida olhada nos resultados do Tesouro para ver o tamanho do problema. Enquanto o Tesouro e o Banco Central acumulam superávit de R$ 33,3 bilhões em 2017, a Previdência tem déficit de R$ 142,1 bilhões, uma alta real de 6,8% no período. Junto com os gastos com pessoal, as despesas previdenciárias são as que mais pressionam o déficit público.

Para se ter uma ideia, hoje as despesas obrigatórias do governo, que incluem Previdência, gastos com pessoal, saúde, educação, entre outros, já ultrapassam sua receita líquida (103,7%). Isso significa que mesmo cortando o que dá para cortar, o resultado primário do governo central ainda seria deficitário. A Previdência responde hoje por mais da metade das despesas obrigatórias (53,6%). Em 2010 este percentual era de 35,3%.

Se nada for feito e prevalecer a demagogia, os gastos com a previdência vão comer todo o orçamento até não sobrar nada. Nem para os aposentados.


Queda dos juros ainda não aliviou o bolso do cidadão
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Gesner Oliveira

Todo mundo fala que os juros estão caindo, mas o cidadão ainda não sentiu grande diferença no bolso. Apesar da recente queda, os juros baixos ainda parecem estar muito longe do bolso do consumidor. A Selic, atualmente em 7,5%, estão muito longe dos 332% de juros do cartão de crédito, mostrando o elevado custo do crédito ainda no país.

O Banco Central divulgou as informações sobre o crédito do sistema financeiro, referentes ao mês de setembro. Os números divulgados reforçam o cenário de recuperação gradual do mercado de crédito voltado para as famílias, enquanto o crédito para as empresas segue mostrando números fracos.

O consumo está em recuperação. O investimento das empresas continua parado. Os saldos totais de crédito na carteira dos bancos corresponderam a R$ 3,1 trilhões no mês, queda real (excluindo a inflação) 4,4%, na comparação com setembro do ano passado.

As concessões de crédito registraram queda de 0,6% no mês, refletindo o resultado fraco do segmento empresarial, que caiu 6,0% em setembro. Por outro lado, as concessões para o segmento para as pessoas físicas subiram 0,6%.

A taxa média das operações de crédito caiu para 27,0%, uma redução de 1,45 p.p. contra o mês anterior. A queda das taxas de juros e dos spreads mostram que, diante da queda da taxa básica de juros da economia (Selic), dos sinais de recuperação, inclusive do mercado de trabalho, os bancos estão mais dispostos a conceder mais empréstimos já que a chance de calote é menor.

Para este ano, a expectativa é que as taxas de juros continuem caindo, refletindo tanto a queda da taxa Selic e a melhora da atividade econômica e do mercado de trabalho. Mas nada disso é possível se o ajuste fiscal for interrompido sem a continuidade das reformas.


Governo parece acuado, mas pode contra-atacar com reformas
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Gesner Oliveira

Terminado o lenga-lenga da segunda denúncia no Congresso, o Brasil pode voltar a discutir o que realmente importa para a população. Com apenas 251 votos contrários à denúncia, a grande questão que fica é se o governo terá força para continuar tocando a agenda de reformas. Ao contrário do que muitos acreditam, a resposta é afirmativa.

Em agosto deste ano, na votação da primeira denúncia, Temer obteve 263 votos a seu favor, 12 votos a mais do que desta vez. Além disso, são precisos bem mais votos para votar uma proposta de emenda à Constituição (PEC), como a da Previdência: 308 ou 3/5 do total de deputados. Isso levaria a crer que o governo, apesar de ter sobrevivido, teria saído enfraquecido da votação da segunda denúncia, incapaz de obter uma maioria qualificada no Congresso.

Mas a questão não é aritmética. Muitos votos obtidos pelo governo para barrar a denúncia não irão para as reformas. E muita gente que votou pelo prosseguimento da denúncia pode votar pelas reformas. A votação de medidas reformistas neste final de governo será diferente. Um outro jogo.

A chance de recomposição da base para a votação das reformas dependerá de dois fatores principais. Primeiro da economia. Os indicadores de atividade vão surpreender os mais otimistas O PIB vai crescer próximo de 1% neste ano e de 3% em 2018. Com inflação baixa e juros caindo, o contraste com o Governo Dilma será patente.

Segundo, não há cardápio alternativo. O déficit estrutural da previdência é um fato. Sua negação é jogo para arquibancada. Vários setores gostariam de ver uma reforma já, feita por um presidente impopular, a deixar a bomba para o próximo presidente. Vão continuar malhando o Temer, mas torcendo para que medidas fundamentais sejam tomadas ainda em seu mandato.

De fato, a agenda positiva pós-denúncia já começou. A Previdência, embora em uma versão mais enxuta, constitui a peça mais polêmica. Mas há outras medidas em curso como a liberação, no primeiro trimestre de 2018, de uma nova rodada de saques do PIS/Pasep e o processo de privatização da Eletrobras.

Amanhã ocorrerão a 2ª e 3ª Rodadas do Pré-Sal, cujo bônus de assinatura já está fixado em R$ 7,75 bilhões. Espera-se forte concorrência com a presença de diversos grupos estrangeiros e mais um sucesso no âmbito do Programa de Parcerias de Investimento (PPI). Os investimentos estimados nas áreas leiloadas chegam a R$ 100 bilhões para um período de dez anos.

O placar de votações individuais é ilusório, mais ou menos como o tempo de posse de bola em um jogo de futebol. Por vezes, um time fica pouco tempo com a bola nos pés, mas é eficiente na finalização. Da mesma forma um governo dominado, aparentemente acuado no campo de defesa pode acertar dois ou três contra-ataques que colocam a economia brasileira em outro patamar.


Taxa Selic caiu para 7,5%, mas juro civilizado só com reformas
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Gesner Oliveira

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros da economia (Selic) em 0,75 p.p. Com isso, a taxa que estava em 8,25% passou a 7,5%, nível próximo da mínima histórica de 7,25%, atingida em outubro de 2012.

É o fim de um ciclo de corte nas taxas de juros teve início em outubro de 2016, quando os juros ainda estavam em 14,25%. De lá pra cá foram mais de 6 p.p. de cortes nas taxas de juros.

Ao atingir a mínima histórica em dezembro, surge a pergunta: vem mais cortes por aí ou é o fim da queda na taxa de juros?

A inflação acumulada de 12 meses em 2,5%, o cenário externo de alta liquidez e câmbio em níveis comportados, devem fazer o comitê levar os juros para 7,0%, na última reunião do Copom em dezembro. O comunicado pós-decisão foi claro a respeito.

Seja 7,25% ou 7,0% a estabilização da Selic, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Estamos longe de um juro civilizado. Enquanto vários países desenvolvidos têm juro real (isto é, juro descontado a inflação) abaixo de zero, no Brasil o juro real ainda é superior a 3%.

Embora positiva. a própria queda atual ainda está sob risco. Conforme o mesmo comunicado do Copom, dois fatores podem mudar o cenário de queda dos juros. Primeiro, os juros internacionais que dependem da política monetária dos EUA, sujeita aos humores de Donald Trump. Se os juros dos EUA subirem rápido, não haverá muito espaço para continuar a queda do custo do dinheiro no Brasil.

Segundo, se as reformas não prosseguirem no Brasil, ajustando a economia, não será possível baixar os juros de forma sustentada. Não será por decreto, como tentou a Dilma e muito menos no grito como promete demagogicamente o Bolsonaro que os juros cairão.

Terminado o longo, custoso e inútil processo da segunda denúncia de Janot, o país precisa começar a discutir uma agenda séria para transformar a recuperação em crescimento sustentado.