Blog do Gesner Oliveira

Cenário com Temer é o melhor para a economia
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Gesner Oliveira

O melhor cenário para a economia brasileira é o de avanço das reformas e retomada dos investimentos nos projetos de infraestrutura. Qualquer outra solução para a crise política levaria tempo. E a economia não tem esse tempo.

Excluída a renúncia, haveria três possibilidades para tirar o presidente do cargo, todas custosas e demoradas.

Uma cassação da chapa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) daria margem a recursos e possíveis pedidos de vista, levando a decisão para o próximo semestre.

Um processo de impeachment, por crime de responsabilidade, seria lento e eminentemente político, seguindo o mesmo rito aplicado à presidente Dilma, com votação em dois turnos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

Por fim, a condenação por crime comum no Supremo Tribunal Federal (STF) seria ainda mais complexa. Por enquanto, o STF apenas autorizou as investigações contra o presidente, sem ter aberto uma ação penal. O julgamento por crime comum envolve a produção de provas, depoimentos e possibilidade de recursos que certamente retardariam o processo. Talvez seja o caminho mais logo.

Isso não significa que o presidente Michel Temer esteja acima da lei. Deve ser investigado e, se necessário, julgado como qualquer outro cidadão com estrita observância do devido processo legal. O rigor técnico do ponto de vista jurídico é fundamental e pode levar tempo.

Se não for garantido, o país vai virar uma republiqueta com sucessivos escândalos, muitos infelizmente reais e outros tantos criminosamente fabricados. A espetacularização do processo jurídico anula provas ao atropelar o devido processo; e destrói empregos ao afetar negativamente as expectativas, muito além daquilo que seria necessário.

Com um estoque de 14 milhões de desempregados, podendo chegar rapidamente aos 16 milhões, o país precisa dar mais atenção ao tempo da economia. Que o processo jurídico siga seu curso normal, sem atropelos. E que o foco possa novamente recair sobre as reformas e os investimentos em infraestrutura, geradores daquilo que o Brasil precisa com urgência: produção e emprego.


Informação em prol da concorrência é (quase) tudo que o consumidor quer
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Gesner Oliveira

Nada ajuda mais o consumidor do que a concorrência entre as empresas. E uma das condições para que a concorrência prevaleça é a existência de informação. Neste sentido, as novas tecnologias tornaram realidade algo que só existia na teoria: a possibilidade de escolha do consumidor.

Chegou a era da Economia da Informação, um campo de estudos que une a Economia, o mundo da Computação e a Comunicação. A Economia da Informação assumiu uma grande importância após 1980 e culminou com a outorga do Prêmio Nobel de Economia a Joseph Stiglitz, Michael Spence e George Akerloff em 2001.

Diversas empresas têm feito uso da informação para gerar valor para o consumidor. Se há muitas casas de câmbio, por que não disponibilizar em tempo real a melhor cotação para que o consumidor possa escolher a mais barata? Se há muitos aplicativos de táxis e caronas, porque não fazer uma classificação com os melhores preços para um determinado trajeto?

Isso tem sido feito! Diversas empresas têm atendido à crescente informação em tempo real. Seguem alguns exemplos. A Skyscanner e Kaiak comparam os preços de passagem de avião, mostrando inclusive se é o melhor momento para comprar. A VaH compara preços de viagens feitas por táxi, Uber, Cabify e outras empresas do segmento de transporte individual no Brasil.

No mundo financeiro, o destaque é o Câmbio Legal e a Zetra. O Câmbio Legal, aplicativo desenvolvido pelo Banco Central, mostra as casas de câmbio mais próximas e permite ao usuário comparar os diferentes preços. Já a Zetra fornece uma classificação de taxas de créditos consignados. Com isso, o tomador de crédito pode escolher a instituição financeira que possui a menor taxa.

Este novo universo de aplicativos e sites existe tem beneficiado o consumidor. As empresas têm conhecimento da existência deles e por isso são forçadas a competirem entre si. Esta concorrência tende a pressionar os preços para baixo, à medida que a informação fica disponível de maneira mais fácil. Sai ganhando o consumidor que paga mais barato por um mesmo serviço.

Chegamos, portanto, à era da soberania do consumidor? Nem tanto. É preciso assegurar a concorrência entre as plataformas tecnológicas e o direito à privacidade, apenas para citar dois aspectos importantes que afetam o bem estar. Futuros artigos abordarão estes e outros desafios da nova economia digital.


Lava Jato é necessária, mas não suficiente para acabar com a corrupção
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Gesner Oliveira

A operação Lava Jato completou pouco mais de três anos. Em um Brasil acostumado à impunidade, os números são impressionantes: mais de 200 prisões, aproximadamente 130 delações premiadas, cerca de 330 pessoas denunciadas, para citar apenas alguns. A operação coloca os atos ilícitos no centro do debate. Há quem acredite que a Lava Jato em si irá acabar com a corrupção, mas infelizmente o país precisa mais do que isso.

A Operação Lava Jato, em andamento desde 2014, demonstra grande semelhança com a Operação Mãos Limpas, tendo sido chamada inclusive de ''Mãos Limpas brasileira”. Mani Pulit, como era chamada em italiano, a operação gerou profundas mudanças no quadro partidário italiano, com o desaparecimento de vários partidos políticos. Muitos empresários cometeram suicídio quando os seus crimes foram descobertos, enquanto outros se tornaram foragidos.

Durante a campanha da operação Mãos Limpas, houve mais de 2.800 mandados de prisão, 6.059 pessoas investigadas, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros. A esperança era de que a Mani Pulit também exterminaria a corrupção na Itália. Mas não foi isso que aconteceu.

Mais de 20 anos depois a Itália continua sendo um país corrupto. No Índice de Percepção de Corrupção, a Itália é o 60° país mais corrupto de um total de 176 e não sofreu nenhuma grande evolução nos últimos anos. Para que o Brasil não tenha o mesmo destino, é preciso combater os três tipos de corrupção: sistêmica, endêmica e sindrômica. A tese é do professor Michel Sendel, da Universidade de Harvard. O nome pode soar estranho, mas o significado é bem familiar dos brasileiros.

Corrupção sistêmica é a grande corrupção, dos grandes desvios de verbas, dos financiamentos ilegais de campanha. É este tipo de corrupção que a Lava Jato combate.

A corrupção endêmica é aquela do dia a dia, a chamada microcorrupção. Ela se combate através das leis e também de uma população ativa que não permite um terceiro parar em fila dupla, por exemplo, ou pular a catraca do metrô.

Por último a corrupção sindrômica é aquela se origina da falta de preparo dos gestores. Ela é a mais sutil de todas e nasce quando alguém, geralmente um gestor público ou um executivo, desconhece o assunto sobre o qual se está decidindo. Nestas situações, nascem obras com valores inflacionados, compras de empresas por um valor acima do normal, entre outros. A corrupção sindrômica não surge, em si, pela má intenção do gestor, mas pelo despreparo dos tomadores de decisão que não conhece om real custo das coisas. O resultado, porém, é o mesmo: ela permite que os mal-intencionados possam levar vantagens impróprias.

Esta semana, foi divulgado o relatório Global de Competitividade de 2017. No quesito corrupção, o Brasil ficou em 63°, de um total de 64 países,  à frente apenas da Venezuela. Se o Brasil não quiser ter o mesmo destino da Itália, que após a operação Mão Limpas continuou sem evoluir nos rankings de corrupção, é necessário mais do que a Lava Jato. É necessário combater a grande corrupção, a do dia a dia e o despreparo dos gestores nas tomadas de decisão.


Recessão acabou, mas já dá mostras de que pode voltar
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Gesner Oliveira

A recessão acabou, mas não há muitos motivos para se comemorar. O PIB brasileiro cresceu 1% no primeiro trimestre deste ano, depois de oito trimestres consecutivos de queda.

Quando a economia parecia estar voltando aos trilhos a nova crise política balançou o país e trouxe muitas incertezas com relação ao futuro. No pior cenário, de paralisia das reformas no Congresso e dos investimentos em infraestrutura, o PIB poderia cair até 2%, levando o país a um terceiro ano consecutivo de recessão.

Além do PIB, nas últimas 24 horas houve outras duas notícias que deram certo alívio à economia, mas que pouco dizem sobre o que pode ocorrer ao longo de 2017. A Pnad contínua surpreendeu positivamente e mostrou uma leve melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego saiu de 13,7% no trimestre encerrado em março para 13,6% no trimestre encerrado em abril. O número de desempregados recuou de 14,2 milhões para 14 milhões, enquanto o número de ocupados apresentou alta de 88,9 milhões para 89,2 milhões.

Apesar dos números positivos, não dá para celebrar. O crescimento do pessoal ocupado foi puxado por ocupações como conta própria (+167 mil), setor público (+140 mil), informal (+77 mil) e trabalhador doméstico (+44 mil). O trabalho com carteira assinada, por exemplo, recuou 120 mil em relação ao trimestre encerrado em março. Com isso, o estoque de trabalhadores CLT atingiu 33,3 milhões, o menor valor desde o início da série em 2012.

O número de pessoas que entrou no mercado de trabalho diminuiu no último mês, o que também ajuda a conter o aumento do desemprego. Desacelerou o crescimento da população em idade ativa, capaz de trabalhar: depois de crescer 1,37% em março, desacelerou para 1,22% em abril.

Se a política não atrapalhar, o segundo semestre deve mostrar um início mais consistente do processo de recuperação do mercado de trabalho. Mas se o nevoeiro ficar mais forte, essa melhora fica ameaçada. Em vez de serem criados 150 mil empregos neste ano, como era previsto antes da delação da JBS, poderá haver perda de 760 mil postos com carteira assinada, diferença de 910 mil vagas. No pior cenário, o número de desempregados pode superar 16 milhões no final do ano.

Outro refresco foi a decisão de ontem do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa de juros em 1 ponto percentual. A taxa básica de juros da economia, a chamada Selic, passou de 11,25 para 10,25% ao ano.

O corte poderia ter sido mais agressivo, não fosse a instabilidade política. As incertezas com relação ao avanço das reformas e seus efeitos negativos sobre o preço do dólar tornaram o Copom mais cauteloso. O comunicado, inclusive, aponta um futuro incerto: diante da maior incerteza, o Copom deverá reduzir o ritmo de queda dos juros.

Fazer projeções econômicas hoje no Brasil é como dirigir sob forte nevoeiro. Você não consegue enxergar um metro à frente! O único jeito é ir devagar, quase parando. Olhar no retrovisor para prever o futuro nem sempre ajuda. Há alguns meses, quando olhávamos para trás, a gente via o PIB cair, mas as expectativas eram positivas. Agora o PIB subiu, mas pode voltar a cair nos próximos trimestres. Eis o perigo de uma crise prolongada nublando o horizonte de planejamento. A economia pode parar.


Prefeitura tem que gastar com educação e saúde, não com carnaval
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Gesner Oliveira

Muita gente tem medo de privatização porque acha que todos os benefícios de um negócio ou imóvel vão passar da mão do consumidor para as empresas. Isso é balela. O dinheiro gasto nos serviços públicos sai do bolso de cada contribuinte e muitas vezes é usado de forma ineficiente. O setor público tem que focar no que importa, saúde, educação e segurança. Carnaval e futebol podem ficar com a iniciativa privada.

O exemplo de São Paulo é ilustrativo. Segundo a prefeitura, gasta-se anualmente cerca de R$ 7 milhões anuais com a manutenção do Autódromo de Interlagos e R$ 10 milhões anuais com o histórico estádio do Pacaembu. Estima-se que mais de R$ 60 milhões são gastos todo ano com os 107 parques da cidade. O contribuinte é quem paga por tudo isso. Mas não precisa ser assim.

Aquilo que não for realmente importante para a população, que atrai o investidor privado ou que está sendo malfeito não precisa ficar na mão da prefeitura. O parque do Ibirapuera, que custa cerca de R$ 30 milhões por ano ao bolso do contribuinte, é um bom exemplo. Embora seja um cartão postal de São Paulo, basta um passeio no domingo à tarde para perceber que o serviço prestado deixa a desejar. Não há estacionamentos para bicicletas, os banheiros estão em péssimas condições, os gramados malcuidados e os lagos poluídos. Para não falar da iluminação e da segurança. Experimente deixar sua bicicleta encostada na árvore enquanto vai ao banheiro…

Com projetos bem desenhados é possível atrair as empresas para cuidar e investir nos parques, sem ônus para os consumidores. De um lado, o contrato pode permitir que a empresa cobre pelo estacionamento e locação de bicicletas, que construa restaurantes e praças de alimentação, e que instale serviço de Wi-fi. De outro, pode exigir que a empresa assuma despesas de manutenção, que faça investimentos de melhoria e que não cobre nenhum valor para a entrada.

O potencial de mercado é enorme. Estima-se que 38 milhões de pessoas frequentem os parques de São Paulo anualmente.

É comum ouvir reclamações de como os serviços públicos são ruins, mas continua a ilusão de que o responsável por todo tipo de serviço tem que ser o setor público. O Plano Municipal de Desestatização (PMD) na capital paulista é positivo, pois tenta acabar com esse paradigma. Foram selecionados 55 ativos que podem ser alvos de desestatização como parques, terminais de ônibus, serviços funerários, serviços de iluminação, mercados municipais, imóveis, entre outros.

O objetivo é desonerar a prefeitura e usar o que for poupado para áreas prioritárias como saúde, educação, habitação, mobilidade e segurança. São esperados cerca de R$ 7 bilhões para os cofres públicos e, para que esse dinheiro não suma por aí, criou-se um fundo para centralizar a verba e garantir os investimentos no que importa.

Ao contrário do que muita gente pensa, trazer o setor privado para algumas atividades que hoje são públicas pode ser bom para todo mundo. A empresa pode investir e lucrar no negócio; a prefeitura economizar e gastar naquilo que é prioritário do ponto de vista social; e o consumidor ter acesso a melhores serviços.


Com ou sem crise, bomba relógio da previdência continua acionada
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Gesner Oliveira

A crise política roubou a cena. Não se discute mais como será a reforma da previdência. Mas sim, como será resolvida a crise política. Infelizmente o problema do rombo da previdência persiste. Quem tiver alguma dúvida é só ver os números recentes.

O governo divulgou na última quinta-feira o superávit primário, a diferença entre tudo que o governo arrecada e o gasto governamental, excluindo os juros pagos com a dívida. Em abril, o resultado foi positivo em R$ 12,5 bilhões, ou seja, o governo mais arrecadou do que gastou no último mês. Este é o melhor resultado desde 2014. Alguns poderiam comemorar, mas uma análise mais detalhada mostra como os gastos com a previdência são insustentáveis.

As despesas com a previdência em abril foram R$ 11,9 bilhões, um aumento de 40,9% em relação a abril de 2016 quando foram da ordem de R$ 8,5 bilhões. Este aumento não é um evento pontual, mas uma tendência nos últimos anos. Desde 2011, a despesa com benefícios previdenciários saiu de 46% da receita líquida do governo, para 60% em 2016. Ao final deste ano, este valor deve chegar a 64%.

Outra preocupação é que, apesar dos números do superávit primário serem positivos em abril, no acumulado dos primeiros quatro meses o resultado é negativo. Houve um déficit de R$ 5,6 bilhões nos quatro primeiros meses do ano. O esforço de controle de gastos se expressou no resultado do Tesouro Nacional positivo de R$ 46,6 bilhões nos quatro primeiros meses do ano. Mas foi compensado pelo déficit de R$ 52 bilhões nas contas da Previdência no mesmo período.

Isto é, o governo deixa de gastar com itens prioritários como saúde, educação e segurança para cobrir o rombo da previdência. Não há algo mais perverso do ponto de vista social do que adiar um ajuste radical no atual sistema. Independentemente do nome do presidente, a retomada da economia depende da continuidade das reformas, em especial a da previdência.


Cobrar menos para quem paga à vista beneficia consumidor e estabelecimentos
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Gesner Oliveira

Mesmo em meio à confusão desta semana em Brasília, a Câmara dos Deputados aprovou várias medidas que afetam nosso cotidiano. Uma delas é a Medida Provisória  n° 764 de 2016 que autoriza desconto na compra de bens e serviços com pagamento à vista. Muitos podem pensar que a medida importa apenas àqueles que optarem pelo pagamento à vista, mas a alteração afeta o conjunto de estabelecimentos e  consumidores.

O Brasil tem as taxas de juros mais altas do mundo. A taxa do cartão de crédito em abril foi de 422% ao ano. Mas, incrivelmente, no modelo atual, quem paga à vista tem o mesmo tratamento de quem paga utilizando o cartão de crédito, ou seja, não há desconto pelo fato de liquidar a fatura no ato da compra. Como o tratamento é o mesmo, muitas vezes o consumidor prefere utilizar o cartão de crédito, pois não há incentivo algum para fazer o pagamento à vista.

Assim, os consumidores que não utilizam cartão pagam o mesmo preço dos que utilizam. Como o lojista paga taxa sobre a compra em cartão, teria uma margem maior na compra em dinheiro e portanto, teria incentivo a conceder desconto. A MP n° 764 permite isso. Estimula ao mesmo tempo a concorrência entre os meios de pagamento, dinheiro ou cartão. Com o novo incentivo de pagamento à vista, as taxas cobradas dos estabelecimentos podem diminuir.

Com a medida, o estabelecimento tende a receber mais pagamentos à vista e com isso não precisa esperar os preciosos dias para receber o pagamento das administradoras de cartão de crédito. Muitas vezes o pagamento chega a demorar até 45 dias, e essa espera custa dinheiro, ou, para usar a linguagem comercial, representa capital de giro.

Com o novo modelo de cobrança em prática, os estabelecimentos têm um prazo de recebimento menor e dessa forma mais dinheiro em caixa. Consequentemente, eles precisam recorrer menos a empréstimos para manter a empresa em funcionamento. Esse é um benefício para os estabelecimentos.

Mas o que isso significa para os consumidores? Menos necessidade de crédito, significa menor pagamento de juros. Tais custos financeiros, assim como qualquer outro, estão embutidos nos preços dos produtos. Ao diminuí-los, abre-se espaço para redução do preço final cobrado do consumidor.

Assim, a medida beneficia o consumidor que está com caixa e pode pagar à vista. É bom para os estabelecimentos que passam a ter mais pagamentos à vista e menos em cartões de crédito e reduzem seus custos. E beneficia os demais consumidores que podem ter um produto mais barato. Por que não se adotou esta medida  antes?


Uma delação mais que premiada
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Gesner Oliveira

O acordo de delação com os Irmãos Batista revelou múltiplos crimes e indícios de crimes que precisam ser investigados minuciosamente. Tudo merece ser investigado, inclusive o próprio acordo.

Imunidade para as investigações em andamento, perdão judicial para denúncias realizadas, multa de apenas R$ 110 milhões a partir de junho de 2018 e liberdade para permanecer fora do Brasil. Foi o que cada um dos irmãos Batista conseguiu com a delação para lá de premiada que fizeram com o Ministério Público Federal (MPF).

Parece um belo presente para os delatores, mas problema maior é o custo pago pela sociedade sem que se tenha a certeza de que os benefícios sociais poderão ser colhidos.

O maior ônus recai sobre os trabalhadores.  Mais um ano de recessão – o terceiro consecutivo – pode representar a perda de mais de um milhão de postos de trabalho. Somando-se a isso o aumento da oferta de mão de obra, o estoque de desempregados pode chegar a 16 milhões em 2018!

As perdas no mercado de capitais foram gigantescas. Na semana passada a Bovespa recuou 8,2%, depois de registrar sua maior queda diária desde 2008 na quinta-feira, de 8,8%. No mesmo dia o dólar comercial disparou e fechou em alta de 8,15%, em R$ 3,38, o maior salto desde janeiro de 1999. Mas ao que parece os donos da JBS ainda lucraram com o prejuízo dos outros: teriam vendido R$ 330 milhões em ações da empresa quando a delação já estava em curso e ganhado cerca de R$ 700 milhões com compra de dólares momentos antes da divulgação da notícia.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu processo administrativo para apurar se houve uso de informação privilegiada sobre o teor da delação para ganhar essa bolada. Acontece que eventual crime de “insider trading” em nada afetaria o que foi acordado na delação. Em tese, uma vez homologado, um acordo de delação premiada não pode ser alterado pela Justiça.

É lamentável que tais custos estejam associados à forma pela qual a operação foi conduzida. Uma informação parcial e incorreta foi plantada em jornal de grande circulação e depois alardeada sem um mínimo de rigor jornalístico. Lançou-se uma bomba na economia e no Congresso sem ao menos haver uma perícia detalhada do áudio que contém a gravação da conversa com o Presidente da República.

Some-se a isso um fato que gera suspeita: um procurador que atuava próximo à cúpula da Procuradoria-Geral da República (PGR) até recentemente deixou o setor público para trabalhar em escritório que negociou com a própria PGR os termos do acordo com a JBS.

Os efeitos nefastos do episódio não param por aí. A série de dúvidas acerca da robustez técnica do acordo com a JBS coloca em risco a credibilidade de um instrumento tão valioso e eficaz quanto a delação premiada. Como a Operação Lava Jato e a prática antitruste têm mostrado, a delação premiada é uma ferramenta importante no combate à corrupção na medida em que deixa qualquer acordo ilegal fragilizado. Quando mal utilizada, porém, coloca em risco a própria investigação ao tornar nulas informações valiosas que se pretendia obter.

Como os delatores foram embora também não se tem a chance de aprofundar as informações obtidas e promover acareações e exames de consistência que poderiam gerar provas melhores, mais sólidas e abrangentes.

A forma pela qual se conduziu a operação amplificou os custos e reduziu os benefícios. O conjunto da obra lembrou a Operação Carne Fraca. Em respeito aos milhões de desempregados do país, será necessário rigor técnico muito maior e cuidado com os efeitos sobre a economia.


Maior risco pós “choque JBS” é travar reformas e país afundar na recessão
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Gesner Oliveira

O maior risco da crise política desencadeada com as delações da JBS é travar a política econômica e condenar o país ao terceiro ano consecutivo de recessão.

A não aprovação das reformas da Previdência e trabalhista, juntamente com a paralisação dos leilões na infraestrutura, teriam forte impacto sobre a produção e o emprego. O Brasil pode terminar o ano com queda de 1% do PIB e mais de 14 milhões de desempregados.

O “choque JBS” fortaleceu as correntes que propõem eleições diretas, atendeu aos interesses das corporações que resistem às reformas e permitiu o desembarque de forças políticas do governo, que se mostravam relutantes em relação às mudanças na Previdência e na CLT. O custo? Interromper a modesta retomada da economia.

Depois do choque JBS, há dois cenários que servem como referência. O primeiro é pessimista. A hipótese é que a atual crise política institucional vai se arrastar ao longo ano, gerando uma paralisia na agenda de reformas econômicas no Congresso.

Neste cenário pessimista o dólar vai ficar mais caro, algo entre R$ 3,5 e R$ 4; os juros continuarão em dois dígitos, a economia continuará em recessão e o desemprego vai piorar.

O segundo é otimista. Pressupõe uma solução relativamente rápida da crise, com pequeno efeito sobre a tramitação das reformas. Apesar do choque, os juros devem cair a um dígito e a recuperação vai continuar com modesta expansão do PIB e uma lenta retomada do emprego.

Política e economia estão diretamente ligados. Mas tem tempos diferentes. Uma solução política para a crise atual requer um longo processo de negociação. A economia está a exigir providências imediatas, especialmente para fechar o rombo das contas públicas.

Quem duvidar, pode perguntar a um servidor do Estado do Rio de Janeiro que recebe seu salário com atraso e não tem segurança se continuará a receber no futuro. Por isso, a economia não pode esperar pela política. Independentemente do nome do presidente da república, será preciso um pacto em torno do ajuste e recuperação do emprego.


Não dependa do seu filho nem do pai Estado, faça sua aposentadoria
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Gesner Oliveira

Muito se fala da reforma da Previdência e como ela pode afetar a vida das pessoas na velhice. Independentemente de ela ser aprovada ou não, contudo, é fundamental que as pessoas se planejem e cuidem de suas próprias finanças. A dica é não depender dos filhos nem do pai Estado. Faça sua aposentadoria.

O brasileiro não tem costume de poupar. Aqui a taxa de poupança em termos do PIB nacional é de cerca de 16%. Em outros países emergentes poupa-se mais, com taxas de 20% no México, 27% na Rússia (27%) e 30% na Índia (30%) no ano passado. Na China a taxa chega a assustar, de 45%. Isso tem efeitos no nível de investimento do país, mas também significa que o brasileiro acaba dependendo muito do Estado para se aposentar.

Pesquisa do Banco Mundial no início do ano com pessoas acima de 15 anos, aponta que apenas 3,64% dos brasileiros fez economias para a velhice. No Chile a taxa é de 12,88%, no México de 20,85% e na Malásia de 53,98%. O Brasil também é o país mais vulnerável do continente para casos de emergência: 44% dos entrevistados, que corresponde a mais de 70 milhões de pessoas, consideram impossível levantar cerca de R$ 2.500 em uma necessidade extrema. Dos que acham possível obter tal quantia, apenas 16% dizem poder recorrer às próprias economias.

À falta de poupança soma-se a melhora na qualidade e expectativa de vida da população. Hoje no Brasil a proporção da população com 60 anos ou mais é de 12,1%. Em 2050 essa parcela saltará para quase um terço do total. Não há sistema da Previdência nem filho, por mais bondoso que seja, que banque tanta gente. Mas não precisa ser assim.

Hoje, com o avanço da tecnologia e o imenso volume de informação, cada um pode fazer seu próprio planejamento e ter uma boa aposentadoria pela iniciativa privada. São inúmeras as opções, seja por ações, títulos públicos ou fundos multimercados. Naturalmente, é preciso ter disciplina e fazer um acompanhamento constante dos investimentos, mas várias plataformas facilitam esse processo, como a Easynvest e o Rico.com.

Na hora de investir, vale uma dica: primeiro livre-se das dívidas! É impossível enriquecer no longo prazo se você tem rendimentos a 1% ao mês e dívidas a 5%, 10%, como cheque especial ou cartão de crédito. É fundamental estancar essas perdas para um melhor direcionamento e aplicação dos recursos.

Vale a pena investir um tempo para aprender um pouco sobre outras opções de investimento fora a popular poupança. Para dar um exemplo, uma pessoa que coloca R$ 1.200 na poupança tira cerca de R$ 10.300 após 28 anos. O mesmo montante aplicado em um título do Tesouro Direto, também com vencimento em 2045, teria rendimento líquido de cerca de R$ 11.600. São R$ 1.300 a mais de bandeja. Quanto mais for aplicado e quanto mais a pessoa diversificar em vários investimentos e fontes de renda, melhor.

No fim das contas, o objetivo do investimento para aposentadoria é produzir uma renda passiva e um acúmulo de capital. Ninguém melhor para fazer isso do que você mesmo.