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Morte de Teori não compromete recuperação
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Gesner Oliveira

A tragédia que levou a morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, não chega a ter forte impacto no mercado.

O relativo atraso da Lava Jato pode abrir uma janela parcial para os avanços nas reformas no Congresso, sem novas turbulências políticas, pelo menos no curtíssimo prazo. Mais importante, a provável melhora da economia a partir do segundo trimestre também concorre para tornar menos difícil a aprovação da reforma da Previdência.

Este espaço adicional para a agenda reformista não deverá representar retrocesso na Lava Jato. Após especulações, o anúncio do presidente Michel Temer de que a indicação do novo ministro só ocorrerá após a definição da relatoria da Lava Jato foi hábil ao indicar o compromisso do Planalto de não ingerência no processo.

No entanto, há divergências entre os ministros da Corte. De um lado, alguns defendem a remessa dos processos a um dos integrantes da Segunda Turma da Corte, da qual Teori fazia parte. Nesse caso, a relatoria ficaria com Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli ou Celso de Mello. Outros alegam que, como há processos relacionados à Lava Jato sob exame no plenário, a distribuição deveria ser feita entre todos os magistrados do Supremo.

Enquanto a presidente do STF, Cármen Lúcia, não se manifesta, a probabilidade de homologação das delações até o fim do período de recesso, é remota.

O desempenho da economia em 2017 deverá ser melhor do que em 2016.  A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a taxa de juros básica (Selic) em 0,75 ponto percentual e de manter um afrouxamento na política monetária criou um clima mais favorável sobre a possível retomada da atividade.

O boletim Focus mostra uma nova queda na inflação, com as expectativas de mercado em 4,71% para 2017 versus 4,80% na semana anterior. A projeção para o crescimento do PIB de 2017, embora modesta (0,50%), tem se mantido estável nas últimas quatro semanas.

Assim, criou-se um espaço de tempo para que o ritmo da economia gere os resultados tão esperados no mundo político.


Morte de Teori atrasa Lava Jato, mas não afeta mercado
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Gesner Oliveira

A trágica morte trágica do ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, gera nova fonte de incerteza na conjuntura.

A homologação de todo conteúdo das delações premiadas da Odebrecht estava sob a responsabilidade de Teori.

A morte do ministro pode atrasar em meses a retomada da operação Lava Jato pelo Supremo. Pela norma regimental expressa, o artigo 38 prevê que a designação do substituto de Teori deve ser realizada pelo Presidente da República. No entanto, o artigo 68 permite tratar a questão com caráter extraordinário, permitindo que a substituição seja feita pela presidente do Supremo, Carmen Lúcia.

De qualquer forma, o ritmo antes imprimido na análise das delações não será o mesmo. Isto reduz a pressão que a Lava Jato sobre o governo no curto prazo, conferindo espaço para dar continuidade na agenda reformista.

A possibilidade de que a Delação a Odebrecht, que envolve mais de 200 políticos dos mais diversos partidos, seja tornada pública em fevereiro não deve mais ocorrer. Hoje, em Porto Alegre, Eliseu Padilha disse que a morte do ministro do STF vai dar um pouco mais de tempo para a homologação das delações dos 77 executivos da Odebrecht no âmbito da Operação Lava-Jato.

Esse processo pode abrir uma janela parcial para os avanços nas reformas no Congresso, sem que novas turbulências políticas ocorram em Brasília por causa da delação da construtora.

Este possível espaço adicional para a agenda reformista não deverá representar retrocesso na Lava Jato. O governo deveria retomar seu apoio incondicional à Lava Jato e contribuir para que a sucessão do Ministro Teori ocorra de forma ágil de acordo com a melhor técnica.

Segundo Padilha, Temer pretende indicar um novo ministro para a vaga de Teori no STF com a maior brevidade possível. Ele destacou que o andamento da Lava-Jato independe dessa nomeação porque Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, deve colocar o regimento do STF acima de qualquer outra questão.

Se isso ocorrer, a triste perda de um ilustre magistrado não gerará turbulência na instável conjuntura política e econômica do país.


O dolar está caro ou barato? O Big Mac ajuda a responder
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Gesner Oliveira

A revista britânica The Economist divulgou esta semana, como de praxe, o seu índice Big Mac. O objetivo desde índice é medir o grau de sobre ou subvalorização de uma moeda em relação ao dólar americano. Segundo a revista, a taxa de câmbio no Brasil está sobrevalorizada em 1,1%, ou seja, o real deveria estar cotado em R$ 3,26 por dólar, mas, conforme a publicação, está em R$ 3,22.

O índice Big Mac, embora não seja perfeito, tornou-se um padrão global, incluído em diversos livros de economia e pelo menos 20 estudos acadêmicos. O índice tornou-se uma referência em todo o mundo. Quanto vale um mesmo tipo de maçã nos Estado Unidos e no Brasil? Esta é a pergunta por trás do índice Big Mac.

Em teoria, a maçã deveria valer o mesmo, pois é o mesmo bem nos dois países. Caso a maçã estivesse muito mais cara nos Estados Unidos, um americano poderia importar a maçã mais barata do Brasil e vender nos Estados Unidos. Com isso, a demanda por maçã no Brasil aumentaria, elevando o seu preço. No Estados Unidos haveria maior oferta de maçã, o que faria o preço cair. Após estas trocas, as maçãs tenderiam a ter preços iguais.

Mas a característica particular dos países faz esse preço muitas vezes ser diferente. O Japão, por exemplo, não tem a mesma quantidade de terras que os Estados Unidos para plantar maçãs. A fruta, por este motivo, tenderia a ter preços mais altos no Japão.

A maçã, portanto, não é um bom candidato para comparar dois bens similares em países diferentes. Mas o Big Mac é. Os procedimentos operacionais do McDonald's são os mesmos em todos os países; os ingredientes também, inclusive a margem de contribuição por produto.

O índice Big Mac foi inventado 1986 como um guia para saber se as moedas estão em seu nível ''correto''. As taxas de câmbio de longo prazo devem se mover para a taxa que igualaria os preços de uma cesta idêntica de bens e serviços (neste caso, um hambúrguer) em dois países.

Por exemplo, o preço médio de um Big Mac nos Estados Unidos em janeiro de 2017 foi de US$ 5,06; na China foi de apenas US$ 2,83, nas atuais taxas de câmbio do mercado. Assim, o índice Big Mac diz que o yuan (moeda chinesa) está subvalorizado em 44%.

No Brasil, o preço do Big Mac é de R$ 16,50. Com a taxa de câmbio de mercado usada na pesquisa de R$ 3,22, o lanche brasileiro custa US$ 5,12. Já o mesmo sanduíche americano é vendido por US$ 5,06. Assim, o índice Big Mac mostra uma sobrevalorização de 1,1%.  A última vez que o real estava sobrevalorizado foi em janeiro de 2015 (+8,7%). Em julho do ano passado, o real estava subvalorizado de 5,1%.

A moeda com maior valorização frente ao dólar em 2017 é o franco suíço (25,5% acima), seguida da coroa norueguesa (12%), a coroa sueca (4%) e o bolívar venezuelano (3,7%). As moedas mais desvalorizadas são: libra egípcia (-71,1%), grívnia ucraniana (-69,5%) e ringgit malaio (-64,6%).

 De 43 países analisados pela revista The Economist, 38 estão com a moeda desvalorizado em relação ao dólar e cinco com a moeda sobrevalorizada, indicando que a perspectiva de alta de juros nos EUA já levou a um fortalecimento do dólar.

A publicação lembra que, para moedas emergentes, estar subvalorizada no índice Big Mac não é necessariamente sinal de que a taxa de câmbio deve subir em breve. Isso porque o custo do hambúrguer depende parcialmente de itens não comercializáveis, como aluguéis e salários, que tendem a ser menores em países mais pobres.


Juros menores. Onde investir?
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Gesner Oliveira

O ano de 2017 começa agitado do ponto de vista econômico. Depois da aprovação da PEC dos gastos e do avanço da reforma da previdência, agora é hora de o mercado voltar a sua atenção para as novas expectativas de juros, alteradas pelas últimas ações do Banco Central.

A principal mudança é que o mercado agora espera uma queda mais forte da taxa Selic para este ano. A aceleração da redução dos juros pelo Copom marcou nova reversão de expectativas. Segundo o boletim Focus, divulgado hoje pelo Banco Central, o mercado espera que a taxa Selic chegue em 9,75% aa até o fim do ano. A expectativa da semana passada era de uma taxa de 10,25% aa.

Caso a previsão se concretize, será a primeira vez que taxa Selic cairá para o patamar de um dígito desde outubro de 2013. A diferença é que, naquela ocasião, a expectativa de inflação vinha aumentando. Neste caso, a inflação tem convergido para o centro da meta. A expectativa para inflação em 2017 é de 4,80% (ante 4,81% na semana anterior) e de 4,50% para 2018.

Outra variável que, pela terceira semana consecutiva, sofre revisões para baixo é a taxa de câmbio. Depois de ser projetada em R$ 3,50 para o fim do ano, agora o mercado espera que o dólar encerre 2017 em R$ 3,40. Atualmente, o câmbio está na casa dos R$ 3,20, nível próximo ao registrado antes da eleição de Donald Trump, no começo de novembro.

Esta queda recente do dólar tem um novo fator: o aumento dos preços das commodities. Com a expectativa que o governo de Donald Trump faça um amplo programa de expansão de infraestrutura nos EUA, o preço das matérias-primas, como o minério de ferro e o petróleo, voltou a subir.

Como o Brasil é exportador de tais produtos, quando os preços de destes produtos sobem no exterior, a expectativa é que mais dólares entrem no país. Como há uma mesma quantidade de reais para mais dólares, o real se torna mais valorizado.

Diante deste panorama de juros menores, a pergunta natural que surge para as famílias é: qual o impacto deste novo cenário nas finanças pessoais?

Apesar da expectativa de queda para os juros, a renda fixa segue atrativa. Principalmente nos títulos pré-fixados, os quais as pessoas travam, no momento do investimento, a taxa que irão receber ao final da aplicação.

Um investidor com R$ 10 mil, ao investir na poupança teria 7,4% aa de rendimento (R$ 744). Ao investir em título prefixado com vencimento para 2019, este mesmo investidor consegue um rendimento de 10,50% aa (R$ 1.050). É uma diferença considerável. Com uma taxa de inflação de 4,80% esperada para este ano, a poupança traria ganho real de apenas 2,5%, enquanto o investimento em título prefixado significa 5,43% de ganho acima da inflação.

Além dos prefixados, títulos pós-fixados – aqueles que acompanham a taxa de juros básica da economia – também possuem rendimentos acima da poupança, mas se tornam menos atrativos com a queda da Selic. Para investimentos com prazos mais longos, títulos que pagam a inflação mais uma taxa real (atualmente acima de 5% aa), também são opções interessantes.

Mas a dica mais valiosa é para que o leitor esteja constantemente informado e atualizado. Como diria o físico dinamarquês Niels Bohr “é muito difícil fazer previsões, principalmente sobre o futuro”. Nada é imutável. A conjuntura continua muito instável. Tudo pode mudar radicalmente com alguma fase da Operação da Lava Jato ou um tuíte de Donald Trump.


Redução da Selic de 0,75 p.p. foi acertada
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Gesner Oliveira

Foi anunciada há pouco a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic para 13,00% a.a., reduzindo a taxa primária de juros da economia em 0,75 ponto percentual (“p.p.”). A maioria do mercado esperava um corte de 0,5 p.p.

O Copom acertou. Era necessário sinalizar uma aceleração no ritmo de corte que até então vinha sendo feito em doses de 0,25 p.p.

O comunicado do órgão destacou que a atividade econômica ainda está muita fraca. Os índices de emprego e produção ainda estão em queda. O Copom também reconheceu que a inflação no curto prazo está abaixo do esperado e as expectativas de inflação próximas à meta de 4,5%.

Ressalte-se que o Copom avaliou que a eleição de Trump não gerou nenhum efeito forte na taxa de câmbio, que voltou a girar em torno de R$ 3,20. Na cifrada linguagem do Copomês, “…até o momento, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados”. Leia-se, o Trump foi eleito, mas o mundo não acabou.

Por fim, o Copom reconheceu que o ajuste fiscal segue em ritmo mais rápido que o esperado. A   aprovação da PEC de limitação de gastos e o envio da reforma da previdência constituem os exemplos mais importantes.

Diante dessas evidências, o Copom decidiu, de forma correta, acelerar o ritmo de queda dos juros. E o mais importante é que o comunicado explicita que deve manter esse ritmo de queda de 0,75 p.p. nas próximas reuniões.

Diante de uma economia em frangalhos, acelerar a redução da taxa de juros tem diversos impactos na economia.

Quando o Banco Central diminui a taxa, todas as outras taxas tendem a cair, pois a taxa Selic serve como taxa básica de juros de referência para o mercado. Do lado das empresas, elas podem se financiar com juros menores e, portanto, podem, em princípio, investir mais. Do lado das famílias, os indivíduos podem obter mais créditos e passam a consumir mais. Com a demanda maior, as empresas passam a produzir mais, efeitos que aquecem a economia com efeitos multiplicadores.

Foi a maior redução da taxa básica de juros da economia desde de abril de 2012. Sinal promissor para 2017.

Veja na integra o comunicado do Copom

Copom reduz a taxa Selic para 13,00% ao ano

 

O Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 13,00% a.a., sem viés.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

O conjunto dos indicadores sugere atividade econômica aquém do esperado. A evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente;

No âmbito externo, o cenário ainda é bastante incerto.  Entretanto, até o momento, os efeitos do fim do interregno benigno têm sido limitados;

A inflação recente continuou mais favorável que o esperado. Há evidências de que o processo de desinflação mais difundida tenha atingido também componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico;

A inflação acumulada no ano passado alcançou 6,3%, bem abaixo do esperado há poucos meses e dentro do intervalo de tolerância da meta para a inflação estabelecido para 2016;

As expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus recuaram para em torno de 4,8% para 2017, e mantiveram-se ancoradas ao redor de 4,5% para 2018 e horizontes mais distantes;

As projeções condicionais do Copom também recuaram em relação às divulgadas no Relatório de Inflação passado, que foram baseadas no conjunto de informações disponíveis até 9 de dezembro de 2016. Dentre outros fatores, os recuos nas projeções foram influenciados por dados de inflação e atividade econômica divulgados desde então. As projeções no cenário de referência encontram-se em torno de 4,0% e 3,4% para 2017 e 2018, respectivamente. Já no cenário de mercado, situam-se em torno de 4,4% e 4,5% para 2017 e 2018, respectivamente; e

Os passos no processo de encaminhamento e aprovação das reformas fiscais têm sido positivos até o momento.

O Comitê ressalta os seguintes riscos para o cenário básico para a inflação:

Por um lado, (i) o alto grau de incerteza no cenário externo pode dificultar o processo de desinflação; (ii) o processo de desinflação de alguns componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária requer atenção contínua; (iii) o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia é longo e envolve incertezas;

Por outro lado, (iv) a atividade econômica mais fraca e o elevado nível de ociosidade na economia podem produzir desinflação mais rápida que a refletida nas projeções do Copom; (v) a inflação tem se mostrado mais favorável, o que pode sinalizar menor persistência no processo inflacionário; e (vi) o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia pode ocorrer de forma mais célere que o antecipado.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, pela redução da taxa básica de juros para 13,00% a.a., sem viés. O Comitê entende que a convergência da inflação para a meta de 4,5% no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui os anos-calendário de 2017 e, com peso gradualmente crescente, de 2018, é compatível com intensificação da flexibilização monetária em curso.

O Copom avaliou a alternativa de reduzir a taxa básica de juros para 13,25% e sinalizar uma intensidade maior de queda para a próxima reunião. Entretanto, diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização. A extensão do ciclo e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco mencionados acima.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Ilan Goldfajn (Presidente), Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Viana de Carvalho, Isaac Sidney Menezes Ferreira, Luiz Edson Feltrim, Otávio Ribeiro Damaso, Reinaldo Le Grazie, Sidnei Corrêa Marques e Tiago Couto Berriel


Hora de acelerar a redução dos juros
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Gesner Oliveira

 A primeira reunião do Copom de 2017 ocorre hoje e amanhã. Depois de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual nas duas últimas reuniões de 2016, a decisão é importante para sinalizar uma aceleração no corte de juros.

Por mais longínqua que pareça, a decisão do Copom afeta seu cotidiano.  Menos inflação significa maior poder de compra para as famílias e empresas, maior capacidade de previsibilidade dos preços, e um ambiente mais favorável para se planejar para o futuro. Além disso, o Banco Central poderá reduzir a taxa de juros e ajudar na recuperação da economia no curto prazo.  Juros menores significam menor custo para as famílias e empresas tomarem novos empréstimos ou conseguirem renegociar com taxas mais baixas de dívidas antigas. Juros menores estimulam as empresas a fazerem novos investimentos produtivos, e as famílias a adquirirem bens de consumo duráveis.

Uma coisa é saber o que o Banco Central vai fazer. Outra é o que seria recomendável que a autoridade monetária fizesse. A opção provável é de um corte de 0,50 p.p., levando a taxa Selic para 13,25% ao ano, patamar de abril de 2015. Mas o Banco Central deveria reduzir mais rápido: algo como uma redução de 0,75 p.p. já nesta reunião.

Vários fatores justificam esta aceleração na redução dos juros: a inflação desacelerou e as expectativas estão convergindo para a meta de 4,5% a.a.

Amanhã o IBGE divulgará o resultado final do IPCA de 2016. O mercado espera que o índice oficial de inflação suba cerca de 0,35% em dezembro e assim, encerre 2016 com alta de 6,35%, abaixo do teto da meta, de 6,5%.

A atividade econômica, por sua vez, segue muito fraca. Há elevada ociosidade tanto na capacidade instalada das empresas, e elevado desemprego. O crescimento da produção industrial de apenas 0,2% em novembro, frustrou o mercado, que esperava uma alta maior.  E no geral, os indicadores de atividade e emprego têm mostrado sido pouco animadores.

Um outro ponto a favor de uma maior redução da taxa Selic é o comportamento dos mercados. O dólar tem estado nos últimos dias perto de R$ 3,20. Próximo da taxa de R$ 3,17, registrada no dia anterior à eleição de Donald Trump nos EUA. Depois de um período turbulento inicial, os mercados acalmaram; e com a perspectiva de um crescimento econômico maior nos EUA nos próximos anos, os preços das commodities voltaram a subir, o que ajuda a explicar esta recente queda do dólar. Outro fator positivo que ajuda a conter a alta da inflação aqui dentro.

Por fim, e ainda que se quisesse mais, u dever de casa ainda por fazer. A PEC do teto de gastos foi aprovada no fim do ano passado e a reforma da previdência já foi encaminhada para o Congresso. Ambos acontecimentos ajudam a reduzir o temor sobre a sustentabilidade da dívida pública.

Uma atividade econômica ainda fraca; Inflação em desaceleração e com expectativas ancoradas; ajuste fiscal avançando no Congresso; nenhum grande choque nos mercados, em especial na taxa de câmbio, depois da eleição de Donald Trump geraram um cenário favorável para o Copom acelerar o corte da taxa Selic em pelo menos 0,50 ponto percentual, embora haja mais espaço para uma redução de 0,75 p.p.

A condução da política monetária exige enorme sensibilidade e talento. Ás vezes até maior do que na mais requintada gastronomia. A ver se o Banco Central não perde o ponto do açúcar.

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados


Por que os automóveis são caros no Brasil? Está na hora de comprar?
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Gesner Oliveira

Esta semana a Fenabrave, entidade que representa as concessionárias de veículos, divulgou a impressionante retração de 20,2% nas vendas de veículos em 2016. As quedas foram mais fortes nas vendas dos ônibus (-32,9%) e caminhões (-29,9%). Automóveis de passeio e comerciais leves caíram 19,8% e as vendas de motos, 21,6%.

A tragédia é maior quando se compara o volume de vendas de 2016 com o de 2012. Naquela época, o governo buscou incentivar o setor através da desoneração de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), liberação de R$ 18 bilhões em depósito compulsório pelo Banco Central e outras medidas de incentivo ao crédito. Em 2012 foram vendidos 3,8 milhões de veículos. Em 2016, o número foi de apenas 2,05 milhões de unidades, uma queda de 46,1%.

A bolha estourou. Depois dos anos de ouro da chamada política dos três Cs (Crédito, Consumo e Commodities), este mercado perdeu fôlego com a maior crise da história brasileira. Com a alta dos juros, do desemprego e queda da renda, o mercado automotivo foi fortemente atingido, uma vez que depende fortemente de renda e crédito.

Mas há outros fatores além da economia. O primeiro é urbano. As pessoas estão dando preferência maior ao transporte público. E isso não é exclusividade do Brasil, é uma tendência mundial. Como diria o prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, ''uma cidade desenvolvida não é aquela onde até os pobres usam carros, mas onde até os ricos usam o transporte público''.

O segundo fator é tecnológico. Aplicativos como Uber, Cabify e outros aplicativos de aluguéis e caronas de carro, têm otimizado a utilização dos automóveis. Por serem alternativas baratas, esses aplicativos tendem a criar alternativas ao automóvel.

Mesmo com uma grande queda no mercado, não houve uma redução exagerada no preço dos automóveis. O preço médio dos veículos teve queda de apenas 0,27% em termos reais, segundo um estudo feito pela consultoria Jato Dynamics. Diferente do setor imobiliário. O preço dos imóveis apresentou queda real de 5,48% em 2016, segundo o Índice FipeZap.

Em contraste com o mercado imobiliário, as montadoras ajustam mais rapidamente a oferta à menor demanda das pessoas. Dessa forma, o preço tem oscilações menores. Diferentemente dos imóveis, que não há como parar a construção uma vez iniciada. Portanto, as construtoras são forçadas a venderem a preços mais generosos.

Igualmente relevante, o mercado automotivo no Brasil ainda é concentrado com elevado grau de proteção externa. Considerado um oligopólio, isto é, poucas empresas fazendo parte deste mercado. De acordo com os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), o Brasil possui mais de treze montadoras. Porém, as quatro maiores empresas detêm mais de 80% do mercado. Esta característica tem reflexos nos elevados preços. Segundo a consultoria Jato Dynamics, a média do preço dos automóveis no Brasil ficou em R$ 66 mil em 2016.

Claro, não podemos esquecer dos elevados impostos. No Brasil, o imposto médio sobre o carro é de 32%, a média mundial é 16% e nos Estados Unidos varia de 6% a 9%, de acordo com a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Este número pode chegar a 38%, dependendo do modelo do carro.

No caso dos automóveis importados, este aumento é ainda maior. O IPI para automóveis nacionais é 2% a 8%. Para automóveis importados, porém, há 30 pontos percentuais adicionais, ou seja, o IPI varia entre 32% a 38% do preço do automóvel. Esta alta alíquota de imposto faz o consumidor brasileiro sentir no bolso. Um exemplo: o valor atual de um modelo Hyundai Elantra no mercado nacional é de R$84.990. Nos Estados Unidos, com o câmbio atual, sai por R$ 54.880, um valor 55% maior.

Para quem ainda assim se sente encorajado em adquirir um novo automóvel em 2017, ter um colchão de liquidez é uma poderosa arma para obter grandes descontos. Além de fugir dos juros de financiamento de automóveis que estiveram entre 1,0% e 4,4% segundo o Banco Central em dezembro de 2016, pode ser um ótimo poder de barganha na hora de negociar. Em um mercado que teve queda de 20% em 2016, ter dinheiro à vista coloca o comprador como um cliente disputado entre as concessionárias. Como diria Paulinho da Viola, “Dinheiro na mão é vendaval. Dinheiro na mão é solução”. Mas para isso, poupar é preciso.

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados


Caso ou compro um imóvel?
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Gesner Oliveira

Esta semana foi divulgado o Índice FipeZap – indicador que acompanha o preço de venda e locação de imóveis no Brasil. O Índice mostrou que o preço médio do metro quadrado anunciado dos imóveis avançou 0,57% em termos nominais, no ano 2016. Considerando a inflação esperada de 6,40% para o período, isto significa que em 2016 o preço dos imóveis recuou 5,48% em termos reais (já descontada a inflação do período).

Goiânia foi a capital com a maior queda real dos preços, de 8,5% e Curitiba apresentou a menor queda, com 1,5%. Das 20 cidades pesquisadas, nenhuma apresentou variação positiva real em 2016. Apesar da queda, o Rio de janeiro se mantém como a cidade com metro quadrado mais caro do Brasil, com preço médio de R$ 10,2 mil. O Leblon é o metro quadrado mais caro do país, chegando a R$ 21,6 mil. São Paulo é o segundo Estado mais caro, com R$ 8,6 mil por m². O bairro da Vila Nova Conceição tem o metro quadrado mais caro na cidade: R$ 15,9 mil.

O mercado de imóveis depende de renda e crédito. Após ter vivido seus anos de ouro entre 2003 e 2009 com o governo incentivando o crédito e o consumo das famílias, não surpreende que este mercado tenha sofrido nos últimos dois anos que marcaram a maior recessão da história econômica brasileira. Com a alta dos juros, do desemprego e queda da renda, o mercado imobiliário foi fortemente atingido.

Em contraste com outros segmentos, no mercado imobiliário o ajuste da oferta é lento, provocando maior variação nos preços. Mesmo com a queda na demanda, as obras de construção de novas unidades não são paralisadas. Por sua vez, quando famílias asfixiadas pelas dívidas devolvem apartamentos financiados, o banco leva a leilão aumentando ainda mais a oferta.

A moral da estória é que apesar da esperada modesta recuperação de 2017 e declínio previsto da taxa de juros, o mercado imobiliário continuará sobreofertado e os preços ainda vão cair, pelo menos nos próximos meses.

Portanto, para aqueles que estão pensando em comprar, não tenham pressa! O mercado continuará favorável ao comprador, pelo menos no primeiro semestre de 2017, quando os estoques ainda devem permanecer elevados.  Faça um colchão de liquidez (isto é, deixe seu dinheiro engordar com a taxa de juros), pesquise bem e pechinche por descontos.

Enquanto espera por quedas maiores de preços, o potencial comprador pode deixar o dinheiro aplicado em investimentos com taxas de juros ainda elevadas. O comprador, por exemplo, que possuísse o dinheiro para comprar em imóvel no início de 2016 e optou por investir esse capital em renda fixa, ganhou ao longo do ano 13,9% em rendimentos, segundo a consultoria Economática. Com o aumento de apenas 0,57% no preço dos imóveis divulgados pelo índice FipeZap, isso significa que o consumidor precavido teve um ganho de aproximadamente 11,7%, apenas por esta decisão de investir.

Para aqueles que não possuem este colchão de liquidez – como é o caso da maioria dos brasileiros – é necessário alertar que os financiamentos imobiliários possuem prazos muito longos. Um financiamento tem prazo máximo de 35 anos. Apenas a título de comparação: de acordo com o IBGE um casamento no Brasil dura em média 15 anos. Portanto, cuidado redobrado com financiamentos que podem colocar obrigações futuras mais altas do que o seu orçamento pode suportar. A decisão de comprar um imóvel deve ser tão ou mais planejada do que a de contrair matrimônio!

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados


Como sofrer menos com as despesas de início de ano
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Gesner Oliveira

O começo do ano é marcado por uma série de despesas: IPVA, IPTU, compra de materiais e mensalidades escolares, ou mesmo dívidas que sobraram do ano anterior são algumas das principais preocupações dessa ressaca depois das Festas.

Para pagar estas despesas, o ideal é que as pessoas tenham reservado uma fração de seu 13⁰ salário. Porém, o mundo não é perfeito. Muito menos nossas finanças pessoais, sobretudo em meio à maior crise da história brasileira.

Para aqueles que não conseguiram poupar dinheiro neste período de festas, e se há alguma reserva financeira em caderneta de poupança ou outro investimento que renda pouco, recomenda-se utilizá-la. Mas esta não é uma regra geral.

Muitas vezes é preferível pagar à vista, com desconto, como é o caso do IPVA. O desconto oferecido é de 3% no caso de pagamento à vista. A outra opção é parcelar em até três vezes. Dado que o desconto é maior que a rentabilidade no período da maioria dos investimentos, neste caso o pagamento à vista é uma boa opção.

No caso do IPTU, na maioria dos municípios brasileiros é possível parcelar o pagamento do IPTU em até dez vezes; porém, é necessário verificar o valor do desconto. No Município de São Paulo, este valor é de 4%.

Fazendo uma simulação de um IPTU de R$ 1.500, considerando que o morador investiria esse valor em títulos de renda fixa do governo (rendimento de proximamente 13,75% ao ano da taxa SELIC), o benefício de pagar à vista não supera o rendimento que o usuário teria investindo esse valor. Valeria a pena, portanto, parcelar. Mas cuidado, não perca a data dos pagamentos da parcela, pois há juros e multa. Não adianta ser bom de conta e desorganizado.

A última coisa que deve ser feita é se endividar ainda mais com créditos suicidas. Exemplo: cheque especial ou rotativo do cartão de crédito.  Se necessário, caso o orçamento não esteja fechando, busque um crédito pessoal, que possui taxas mais baixas de juros. E não deixe de renegociar dívidas.

Além dos tradicionais impostos IPVA e IPTU, o contribuinte deve se lembrar do seguro do automóvel, do material e das mensalidades escolares que, além de também serem despesas deste período, iniciam o ano com reajustes.

No caso de seguro de automóvel e, principalmente, do material escolar os preços podem variar bastante. Segundo o Procon, a diferença para um mesmo produto pode ultrapassar 400%. Neste caso, a internet facilita as comparações. Há aplicativos com essa função de comparar preços em diferentes estabelecimentos.

Ficam, assim, algumas dicas e muitos desejos de um excelente 2017!

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados


Reforma tributária: gradualismo ou guerra civil
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Gesner Oliveira

No balanço de 2016, o presidente Michel Temer afirmou que a reforma tributária será prioridade em 2017. Esta é uma reforma importante para a economia brasileira, mas não seria realista colocá-la como uma prioridade para ser aprovada e muito menos implementada imediatamente.

Não há dúvidas de que a reforma tributária é oportuna. O Brasil tem uma carga tributária muito elevada, da ordem de 33,4% do PIB, segundo relatório da OCDE. Para se ter ideia, do exagero deste valor, em outros países da América Latina, esta carga é cerca de 21,7% do PIB.

Além da enorme carga tributária, o pesadelo dos contribuintes é com o excesso de burocracia. Anualmente, o Banco Mundial elabora um relatório chamado Doing Business. Este estudo classifica os países de acordo com a facilidade de se fazer negócios. Na edição de 2017, o Brasil ficou na 123ª posição, de um total de 190 países, mostrando a dificuldade de se empreender no país.

Quando se analisa alguns indicadores específicos, a situação piora. O Brasil está na 181ª posição, quando o critério é facilidade para pagar impostos. No Brasil, as empresas gastam 2.038 horas por ano – cerca de 85 dias ou quase três meses para pagar seus impostos. A título de comparação, a média dos países da América Latina e Caribe é de 342 horas ou cerca de 14 dias.

Quanto mais complexo o sistema, mais caro para as empresas cumprirem todas as regras. Recursos que poderiam ser empregados para investimento em capacidade produtiva, treinamento, pesquisa e desenvolvimento, acabam sendo drenados por esse sistema confuso. Sem falar em inúmeros outros problemas decorrentes dele, e o mais grave deles: a corrupção.

Apesar de toda a importância da reforma tributária, é preciso ser realista quanto ao prazo de sua aprovação e implementação. Toda a reforma tributária é complexa. Em uma federação como a brasileira, é ainda mais difícil, dada a necessidade de conciliar interesses da União com os dos Estados e municípios. É algo que exige gradualismo e negociação. Ou guerra civil!

A reforma tributária é tarefa para vários governos. Seria difícil imaginar que apenas uma administração pudesse realizá-la, especialmente um governo que, apesar de reformista, que cumpre um mandato reduzido após um impeachment e em meio a uma crise política.

Isso não quer dizer que a reforma não possa ser iniciada. E que alguns pontos possam ser atacados, como, por exemplo, o cronograma de unificação do ICMS ou um mecanismo de criação de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA), substituindo as alíquotas do PIS/COFINS, amplamente utilizado em países desenvolvidos.

A agenda de 2017 coloca desafios mais urgentes: a reforma da previdência, fundamental para reverter a trajetória de déficits públicos e criar um ambiente mais favorável para a retomada da atividade econômica e do emprego. Ou a reforma trabalhista que pode estimular as empresas a contratar mais pessoas de forma a atenuar o enorme desemprego atual. A reforma tributária é tão importante e complexa que exigirá mais tempo.

 

Gesner Oliveira
Professor da EAESP-FGV e Sócio da GO Associados