Blog do Gesner Oliveira

Queda da taxa Selic ainda não bateu no bolso do consumidor
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Gesner Oliveira

O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou ontem nova redução na taxa básica de juros da economia, a chamada Selic, em 0,75 ponto percentual, de 13% para 12,25% ao ano. Trata-se do menor patamar para a Selic desde o início de 2015, quando estava em 11,75% ao ano, e da quarta redução seguida feita pelo Banco Central.

A realidade para o consumidor, contudo, é bem diferente. Em janeiro, a taxa cobrada nas operações com cartão de crédito rotativo, voltou a subir atingindo expressivos 486,8% ao ano. É um novo recorde histórico. Em dezembro do ano passado, os juros dessa modalidade de crédito estavam em 484,6% ao ano.

No caso do cheque especial, o juro médio cobrado pelos bancos nas operações com pessoas físicas registrou pequena queda, passando de 328,6% ao ano, em dezembro do ano passado, para 328,3% ao ano em janeiro deste ano. É um valor próximo ao recorde histórico de 330% ao ano, registrado em novembro de 2016.

O governo promete reverter esse quadro. A equipe econômica anunciou recentemente um pacote de medidas com o objetivo de reduzir a taxa de juro médio da economia. O pacote tem como base três pilares: incentivar a adimplência e o controle das garantias, reduzir os custos administrativos e aumentar a concorrência, reduzindo os subsídios cruzados.

Com esse pacote pretende-se baixar os juros do cartão de crédito para mais da metade do patamar cobrado atualmente pelos bancos. Uma das medidas é limitar o prazo para o pagamento do rotativo (que é quando é feito o pagamento do valor mínimo da dívida, com o parcelamento do restante) para até 30 dias. Se implementada, a medida vai reduzir os juros do cartão dos atuais 486% para cerca de 240% ao ano.

A expectativa da equipe econômica é que isso possa acontecer já no final do primeiro trimestre de 2017, segundo o Ministério da Fazenda. Serão necessários cerca de 90 dias para as medidas começarem a ser implementadas.

Um dos principais desafios do governo em 2017 é avançar no ajuste fiscal, especialmente com a reforma da previdência. O que isso tem a ver com o seu cotidiano? Ao equilibrar as contas do Estado, abre-se espaço para reduzir os juros de forma consistente, sem gerar mais inflação.

O Banco Central vem reduzindo os juros e mantendo a inflação no centro da meta de 4,5%. Caso o pacote de medidas para reduzir os juros médio da economia seja implementado, o Brasil deixará de ostentar esta inconveniente liderança de país com as maiores taxas de juros reais do mundo.


Não houve surpresa na decisão do Copom
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Gesner Oliveira

A decisão de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa primária de juros, a chamada Selic, de 13% para 12,25% ao ano, com uma redução de 0,75 ponto percentual, não surpreendeu o mercado. A expectativa da maioria dos analistas era a de que seria mantido o ritmo de redução, como de fato ocorreu.

Uma queda além do esperado no IPCA-15, índice de inflação divulgado hoje pelo IBGE, poderia constituir um fato novo que levasse a uma redução mais acentuada dos juros. O IPCA-15 confirmou a tendência de desaceleração da inflação, mas o resultado foi um pouco superior àquilo que o mercado esperava. Segundo o indicador, a inflação cresceu 0,54%, acima da mediana das expectativas do mercado, de 0,49%. Mesmo assim, trata-se da menor taxa para o mês de fevereiro desde 2012.

O comunicado do Copom não deixou claro se haverá ou não uma aceleração na queda da taxa de juros, mas permite concluir que este é um tema de discussão entre os membros daquele Conselho. O argumento foi de que uma aceleração do ritmo de queda depende da retomada econômica; de fatores de risco, em especial o cenário externo; e das projeções e expectativas para a inflação. A próxima reunião está marcada para os dias 11 e 12 de abril.

O modelo utilizado pelo Banco Central para determinar a taxa de juros é relativamente complexo e abrangente. Porém, nem toda a modelagem econométrica dispensa o bom senso e a intuição na hora de calibrar a taxa de juros. Na atual fase da economia brasileira, a recuperação da atividade e consequentemente dos milhões de empregos perdidos na crise dependerão, em grande medida, da verdadeira arte que é fazer política monetária.


O que pode dar errado na economia?
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Gesner Oliveira

O título parece pessimista, mas é útil fazer cenários em que tudo pode dar errado para planejar suas finanças. Após nove meses do Governo Temer, o cenário aponta para um período de recuperação. Os sinais estão presentes na queda consistente dos índices de inflação, puxada em grande medida pela perspectiva de uma safra agrícola recorde; na melhora dos termos de troca de produtos de exportação brasileiros, com destaque para o minério de ferro; e na queda da taxa de juros da economia.

Tais fatores são suficientes para haver um grau moderado de otimismo em relação ao processo de retomada da atividade já no primeiro trimestre deste ano. Estima-se que o PIB deva crescer 0,3% na margem, isto é, em relação ao último trimestre de 2016. O cenário otimista se reflete nos índices de confiança do setor empresarial, que têm melhorado nos últimos meses. O Indicador de Confiança do Empresário Industrial, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), aumentou 3 pontos entre janeiro e fevereiro e chegou ao patamar de 53,1 pontos. Índices acima de 50 pontos indicam otimismo do mercado.

Entretanto, a manutenção desse sentimento e o vigor da recuperação dependem de três fatores principais. Primeiro, o avanço das reformas. Em boa medida, não é exagero dizer que parte significativa da melhoria recente das expectativas econômicas está ancorada na confiança de que as reformas avançarão em ritmo adequado. O principal parâmetro de avaliação do Governo Temer continua sendo a capacidade de aprovar a agenda econômica no Congresso, especialmente a reforma da Previdência.

Segundo, uma sintonia fina da política monetária e cambial que evite apreciação excessiva do real, abortando a recuperação da indústria. O dólar mais barato é positivo para o controle da inflação e reflete boas expectativas de investidores externos com relação ao Brasil, além de ser também uma boa notícia para aqueles que irão fazer compras no exterior, mas tem efeitos negativos na indústria.

É verdade que este segmento precisa inovar e se tornar mais competitivo independentemente da política cambial. Mas isso demanda tempo e a concretização das reformas modernizantes mencionadas anteriormente, especialmente a trabalhista e a tributária. Não dá para participar da maratona da globalização carregando um peso no calcanhar (e que peso!).

Por fim, a construção de um projeto político de médio prazo que legitime o atual programa de ajuste da economia, afastando o risco de retrocesso populista. Recente pesquisa de popularidade divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que a avaliação positiva do presidente Michel Temer caiu de 14,6%, em outubro do ano passado, para 10,3%. A mesma pesquisa revelou que o ex-presidente Lula continua liderando o voto espontâneo para as eleições presidenciais de 2018.

Embora seja cedo para qualquer cenário político eleitoral mais sério para as próximas eleições, a falta de uma alternativa eleitoral consistente com a continuidade da política econômica atual pode afetar as expectativas. Afinal, muitos investidores poderão perguntar: é verdade que o Brasil está entrando nos trilhos, mas não há risco de descarrilamento a partir de 2019? Não há bola de cristal que contenha essa resposta.

Portanto, surgem sinais de que o pior já passou, mas muita coisa ainda pode dar errado na economia. 2017 pode representar um ponto de inflexão e uma virada positiva, mas isso depende da capacidade do governo em avançar com as reformas, de garantir uma sintonia fina entre a política monetária e cambial e de recuperar a credibilidade e confiança da população.


O que decidirá o Copom?
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Gesner Oliveira

Eis a questão mais relevante para a economia nesta semana de pré-Carnaval. A decisão dos membros do Comitê de Política Monetária (Copom), que será anunciada amanhã no final da tarde, afetará suas dívidas, suas aplicações financeiras e a capacidade de a economia recuperar a produção, e o mais importante, o emprego.

Do ponto de vista técnico, haveria condições para reduzir a taxa primária de juros, a chamada Selic, em 1 ponto percentual. Isto levaria a Selic dos atuais 13% ao ano para 12% ao ano.

Isso se deve à redução da taxa de inflação. As projeções do mercado nesta semana apontam para uma inflação em 2017 de 4,43%, inferior à meta de 4,5%, estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Foi a sétima redução consecutiva das expectativas do mercado.

Três fatores têm colaborado para este comportamento da inflação. Primeiro, a forte recessão, que produziu uma ociosidade média na indústria de 26% em 2016, chegando a mais de 40% em alguns casos, como o da indústria de cimento, com 43%. Segundo, a queda do preço do dólar, barateando os preços dos produtos comercializáveis. Terceiro, a perspectiva de uma safra recorde neste ano. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima produção de 219,1 milhões de toneladas, o que afasta o risco de choques de preços agrícolas que morderam tanto o bolso do consumidor no passado recente.

Mas uma coisa é a melhor decisão e outra é a mais provável. O Copom deverá ser mais conservador e restringir o corte em 0,75 pp. Isso é coerente com o discurso do Banco Central nos últimos dias. A última coisa que um banqueiro central deseja é surpreender o mercado.

Seria desejável que o comunicado emitido por ocasião da decisão trouxesse nas entrelinhas uma mensagem de continuidade da redução rápida dos juros. É raro surgir uma janela como a atual para diminuir o custo do dinheiro no Brasil. É hora de aproveitá-la e acelerar mais ainda as reformas, abrindo o caminho para a recuperação consistente da economia.


Vexame e progresso no saneamento
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Gesner Oliveira

''O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica, é a privada''

Esta percepção (correta) é do escritor Mario Vargas llosa, laureado com o Nobel de Literatura em 2010.

Infelizmente sob esse critério o Brasil está longe do desenvolvimento. Os dados do ranking de qualidade do saneamento do Instituto Trata Brasil para os 100 maiores municípios do país ilustram a tragédia do saneamento brasileiro.

Na média dos 100 maiores municípios do país, metade da população não tem coleta de esgoto. Mais de 7% não tem acesso à rede de água. 58% do esgoto gerado não é tratado. Além disso, 37,7% da água produzida é perdida.

O ranking é ilustrativo das carências do setor. Na cidade de Rio Branco, capital do Acre, 74º colocada na classificação, a coleta não chega a 23%, o tratamento é menor do que 35% e as perdas de água são de quase 60%! Há apenas duas capitais entre as 20 cidades melhores colocadas: Curitiba (11ª) e São Paulo (20ª). Há quatro capitais na zona de rebaixamento, entre as dez piores colocadas: Belém (90ª), Manaus (95ª), Macapá (96ª) e Porto Velho (97ª).

Há também casos de sucesso, como Franca, Uberlândia e Maringá, que ocupam respectivamente a 1ª, 2ª e 5ª posição.

Tal situação explica a frequência de doenças por veiculação hídrica e disseminação de epidemias e a poluição dos principais cursos d´água nas cidades brasileiras. Trata-se de uma situação de atraso não apenas em relação aos países desenvolvidos, mas também comparativamente a países latino americanos, como Chile, Argentina, Uruguai e Colômbia, para citar alguns exemplos.

A superação das carências do setor exige investimentos, que, no entanto, estão muito aquém do necessário para atingir a meta de universalização de água e esgoto contida no Plansab (Plano Nacional de Saneamento Básico), para 2033. Estima-se que seriam necessários R$ 19 bilhões, mas na atualidade o investimento é de cerca de R$ 12 bilhões. Se o ritmo atual for mantido, o Brasil atingirá a universalização apenas após 2050. É vexatório e inaceitável.

Para mudar essa rota de descaso social não basta apenas dinheiro. É necessário um tripé cujos vértices são regulação independente, planejamento e boa gestão. As parcerias e concessões trazendo o setor privado para o setor são essenciais para o salto de investimento necessário. Sobretudo em um momento de crise fiscal aguda.

Urge implementar tal programa pois do contrário o Brasil estará cada vez mais distante daquilo que Vargas Llosa entende corretamente ser um sinal de progresso.


Hora de comprar dólar?
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Gesner Oliveira

Os brasileiros gastaram no exterior US$ 1,6 bilhão apenas em janeiro deste ano. No mesmo mês de 2016, as despesas lá fora somaram US$ 840 milhões. Este valor representou um forte crescimento nas despesas com viagens internacionais de 87,9% em relação a janeiro do ano passado.

Em 2016, o país registrou déficit em transações correntes de US$ 23,5 bilhões, segundo dados divulgados pelo Banco Central. Transações correntes é o resultado de todas as operações do país com o exterior. Nessa conta, estão incluídas as receitas e despesas da balança comercial (exportações e importações), da conta de serviços (juros, viagens internacionais, transportes, seguros, lucros e dividendos, serviços diversos) e das transferências unilaterais.

O gasto dos brasileiros no exterior, parte deste déficit em transações correntes, é maior para o mês de desde janeiro 2015, quando os brasileiros deixaram US$ 2,2 bilhões em outros países. O mês de janeiro é um mês de férias, e por isso tem gastos maiores quando tradicionalmente ocorrem as despesas com viagens.

Dois fatores influenciam os gastos dos brasileiros no exterior: a cotação do real e a renda das pessoas. Se por um lado a renda dos brasileiros tem diminuído com o elevado nível de desemprego, a valorização do real é um dos principais motivos para este aumento de gastos. Em janeiro de 2016, o dólar fechou o mês próximo dos R$ 4,00.  Em dezembro do mesmo ano, o dólar terminou cotado a R$ 3,15. Ou seja, no ano de 2016, o dólar acumulou desvalorização de 17,7% frente ao real e hoje o real que está na casa dos R$ 3,10. É a moeda mais valorizada no mundo segundo o índice Big Mac. Em outras palavras, o Brasil tem o Bic Mac mais caro do mundo, em dólar.

Para este ano, a expectativa é que o dólar termine o ano em R$ 3,36, segundo as projeções do mercado. Está na hora de comprar dólar para viagens futuras?

Para os que tem uma viagem marcada em um horizonte mais longe, recomenda-se investir esse dinheiro e aproveitar um pouco os rendimentos deste investimento. Já para os que pretendem viajar logo é recomendável ir comprando aos poucos. O preço médio de compra nos próximos sessenta dias parece atraente.

Esta é a melhor maneira de conseguir o melhor preço, pois dificilmente consegue-se acertar em cheio a melhor cotação. Vale lembrar a frase do Prêmio Nobel, Alan Greespan: ''Para mim a taxa de câmbio serve, na verdade, para impor alguma humildade aos economistas''.


O pesadelo da recessão parece estar terminando
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O setor de serviços fechou 2016 em queda de 5%, segundo ano seguido de retração e o pior resultado desde 2012. O comércio varejista, no conceito restrito, apresentou queda de 6,2% em 2016, maior queda da história do indicador. Vale a pena entender o que dizem esses números.

Dados do setor de serviços são analisados pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), que tem como objetivo produzir indicadores que permitam o acompanhamento da evolução conjuntural, isto é, de curto prazo, do setor que responde por cerca de 2/3 do PIB brasileiro. A partir dos dados de receita bruta de cerca de 9.300 empresas situadas nas 27 unidades da federação, desconta-se a inflação do período e estima-se um índice de volume de vendas. Ou seja, pesquisa-se quanto as empresas receberam, desconta-se a variação do nível de preços do período e chega-se à quantidade comercializada no mês.

Para se obter uma análise mais precisa dos dados, o IBGE divide o setor de serviços em cinco grupos diferentes, que podem ser desagregados dependendo da unidade da federação: (i) serviços prestados à família; (ii) serviços de informação e comunicação; (iii) serviços profissionais, administrativos e complementares; (iv) transportes, serviços auxiliares dos transportes e correio; e (v) outros serviços.

Os dados do comércio varejista, por sua vez, são analisados pela Pesquisa Mensal de Comércio (PMC). A variável investigada pela pesquisa é a receita bruta mensal de 6.150 empresas proveniente da revenda de mercadorias que, assim como na PMS, quando descontada a inflação possibilita a estimação do volume de vendas.

O resultado da PMC pode ser dado de duas formas: sob o conceito restrito que, no geral, refere-se a produtos não duráveis e que se relaciona mais com o mercado de trabalho; e sob o conceito ampliado, com bens de caráter durável e que muitas vezes são financiados pelo consumidor, de modo que respondem mais ao crédito, taxa de juros e renda.

Sob o conceito restrito, o comércio varejista é dividido em (i) combustíveis e lubrificantes; (ii) hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo; (iii) tecidos, vestuário e calçados; (iv) móveis e eletrodomésticos; (v) artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria; (vi) livros, jornais, revistas e papelaria; (vii) equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação; e (viii) outros artigos de uso pessoal e doméstico. No conceito ampliado, a todos esses somam-se mais dois: (ix) veículos e motos, partes e peças; e (x) material de construção.

Os resultados do comércio varejista e do setor de serviços constituem importantes indicadores de como se comportou a atividade econômica no período analisado. É com base neles que economistas elaboram projeções para a atividade nos meses seguintes.

A PMS foi divulgada hoje e o setor de serviços apresentou ligeira alta de 0,6% em dezembro ante o mês de novembro. O que impulsionou o resultado foi o setor de transportes, com peso de cerca de 30% e alta de 0,4%. Este grupo se beneficiou do desempenho positivo do setor industrial, que subiu 2,3% em dezembro. Apesar da boa notícia, o indicador apresentou retração de 2,7% no último trimestre do ano ante o anterior e serviços fechou 2016 em queda de 5%, segundo ano seguido de retração e o pior resultado desde 2012.

Divulgada ontem, a PMC registrou queda de 2% em dezembro em relação a novembro de 2016, no conceito restrito. O componente de maior peso, o setor de hiper e supermercados, caiu 3%. Em 2016 o varejo restrito apresentou queda de 6,2%, maior queda da história do indicador. Os resultados refletem a deterioração do mercado de trabalho.

As vendas de veículos e materiais de construção cresceram no mês de dezembro em 1,8% e 2,1%, respectivamente. Mas não foram capazes de compensar a queda no conceito restrito e o varejo ampliado apresentou queda de 8,7% no ano. A expectativa é que a redução da taxa de juros tenha maior capacidade de afetar positivamente o consumo de bens duráveis, mais sensível a condições do mercado de crédito.

Os dados negativos das pesquisas já eram esperados pelo mercado e a projeção é de que a atividade econômica em dezembro sofra queda de 0,4% contra o mês anterior. Isso reforça a percepção de um quarto trimestre fraco em 2016, com queda estimada de 0,5%.

Mas isso é passado. A expectativa para 2017, é mais otimista. Apesar do consumo das famílias ainda continuar fraco, a melhora esperada na atividade industrial deve puxar atividades mais ligadas ao setor, como serviços de transportes. A desaceleração da inflação abre espaço para o Banco Central manter o ciclo de queda dos juros acelerado, estimulando a atividade econômica. Desenha-se lentamente, assim, um cenário de recuperação modesta. O pesadelo da recessão parece estar terminando.


FGTS: como consultar, onde investir e qual o impacto?
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Gesner Oliveira

Hoje o governo divulgou o calendário para o saque das contas inativas do Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS). A notícia é relevante para toda a população, mas em especial para os leitores que foram demitidos sem justa causa ou que pediram demissão até o dia 31 de dezembro de 2015, pois são eles que têm direito ao saque. Dúvidas como “Como consulto meu saldo?”, “Onde devo aplicá-lo?” ou até mesmo “Qual será o impacto na economia?” podem ter surgido e este artigo visa respondê-las.

Há quatro maneiras distintas do beneficiário do FGTS consultar o saldo de sua conta. A primeira delas é pelo site da Caixa Econômica Federal, que administra as contas do FGTS. Basta acessar o site e inserir o número do Programa de Integração Social (PIS), disponível na carteira de trabalho, e a senha de cadastro no site. Outra opção, para aqueles que possuem Android ou Iphone é pelo aplicativo FGTS Trabalhador. O app, disponível no Google Play e na Apple Store, também exige o número do PIS e permite a consulta do saldo, atualização do endereço e localização de pontos de atendimento próximos, tudo pelo celular.

Outra opção é via Internet Banking. Clientes Caixa podem acessá-lo com a senha bancária de internet, clicar na opção “Serviço do Cidadão” e verificar o extrato. Por fim, é também possível comparecer pessoalmente a uma agência da Caixa. Basta apresentar o Número de Identificação Social (NIS) e pedir para consultar o saldo disponível.

Para todos aqueles que são elegíveis, a recomendação é  sacar o dinheiro do FGTS. A rentabilidade do fundo aumentou esse ano, mas continua baixa, em torno de 5 a 6% ao ano mais a chamada taxa referencial, taxa básica referencial dos juros a serem praticados no mês vigente e que reflete o custo ponderado de captação de recurso das instituições financeiras do país. O retorno é próximo ao de uma caderneta de poupança.

Segundo levantamento recente da Confederação Nacional do Comércio, cerca de 55,6% das famílias brasileiras estão endividadas. Para os beneficiários que fazem parte deste grupo, a melhor opção é se livrar das dívidas, especialmente as mais caras, como o cartão de crédito ou o cheque especial.

Para aquelas famílias em uma situação mais confortável, que não estão endividadas, há diversas opções de investimento melhor que o FGTS. Uma opção é o Tesouro Direto, que possui diversos tipos de papéis (pré-fixados, pós-fixados e indexados à inflação). Para se ter uma ideia, um papel pré-fixado com prazo de vencimento em janeiro de 2023 (daqui a cerca de 6 anos) garante uma taxa de 10,44% ao ano. Um investimento de R$ 10 mil em nesse título público geraria um montante final de R$ 16.694 mil em janeiro de 2023 (já descontados os 15% do imposto de renda), enquanto o mesmo valor aplicado no FGTS por este tempo geraria um montante final de apenas R$ 14.377 mil (usando rendimento médio de 0,52% ao mês e 6,42% ao ano). Ou seja, praticamente R$ 2,3 mil a menos.

Existem ainda outros ativos interessantes de renda fixa, como CDB´s de bancos médios, títulos de letra de crédito imobiliária ou agrícola, os LCI e LCAs, que possuem isenção de imposto de renda. Sem falar em opções mais arriscadas, como investimento em empresas listadas na bolsa de valores. Em um momento de recuperação da atividade econômica, estas podem manter sua trajetória de valorização e se tornar investimentos rentáveis no futuro.

Por fim, o impacto na economia. A estimativa do governo é a de que existam cerca de R$ 43 bilhões nas contas inativas que terão o direito ao saque. Há três destinos para todo esse dinheiro: (i) Quitação de dívidas. Isso tem impacto sobre a economia indiretamente ao diminuir o endividamento e recuperar o crédito e o consumo em um momento posterior; (ii) realocação da poupança financeira em aplicações que rendem mais do que o FGTS (TR + 5-6%), como a renda fixa; (iii) parte desse dinheiro deve ser utilizado para consumo, o que é um incentivo a mais para a economia nesse momento de recuperação.

Entretanto, devemos ser realistas. Esse tipo de medida, apesar de ser positiva, não é o que irá tirar o país do buraco. O que o Brasil precisa é de uma recuperação consistente, pautada em investimentos em infraestrutura e no avanço das medidas de ajuste econômico. A aprovação da reforma da previdência é um exemplo, na medida em que altera a dinâmica do endividamento público e reduz a percepção de risco sobre o país.

Apenas mudanças estruturais serão capazes de viabilizar uma recuperação consistente e fazer a roda da economia girar.


Brasil converge lentamente para a normalidade
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Gesner Oliveira

Embora as incertezas no campo político tenham ganhado força na última semana, surpresas positivas principalmente com relação à inflação indicam que o país parece já ter atingido o fundo do poço. Os recentes ruídos políticos, como o que envolveu o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimento (PPI), Moreira Franco, e crises como a de segurança pública, não parecem ser capazes de mudar o humor do mercado. O governo, contudo, não tem muita margem de erro para conduzir com sucesso a política econômica.

Na última semana, o ponto mais delicado para o Governo Temer talvez tenha sido a indicação de Moreira Franco para ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Cabe ao governo separar a discussão política da indicação do andamento das negociações sobre parcerias e concessões na infraestrutura. Destravar investimentos privados nesta área constitui fator chave para uma recuperação consistente da economia.

Outro ponto de preocupação do Executivo é a grave crise financeira dos Estados. Após o socorro negociado para o Rio, o caos verificado no Espírito Santo, com a greve da polícia militar por aumentos de salários, é mais uma indicação das dificuldades de caixa que atingem várias unidades da federação. Os ajustes das contas públicas, tanto dos Estados como da União, estão na direção certa, mas ainda demoram.

O contexto macroeconômico, contudo, dá mostras de que há uma luz no fim do túnel.

Os números favoráveis da inflação são hoje a principal aposta do governo para a melhora da economia neste ano. A expectativa cada vez mais concreta de queda mais forte na taxa de juros básica (Selic) tem sido capaz de manter um otimismo moderado em relação à retomada da economia. A Selic pode fechar o ano abaixo de 10%.

O resultado do IPCA de janeiro, índice oficial de inflação, foi de apenas 0,38%, a menor taxa desde o início da medição, em 1979. Em igual mês de 2016, a inflação medida pelo IBGE havia ficado em 1,27%. Em 12 meses, IPCA alcançou 5,35%, também abaixo das previsões.

O resultado fortalece a percepção de que a desaceleração da inflação está disseminada em toda a economia, ou seja, não é fruto de um item específico. A queda do preço dos alimentos, um dos que têm maior peso na inflação, tem ajudado bastante.

A elevada ociosidade da economia, a boa safra agrícola e a perspectiva de que a taxa de câmbio se mantenha em nível confortável justificam a expectativa de um índice próximo da meta de 4,5% neste ano. De acordo com o relatório Focus, divulgado hoje pelo Banco Central e que faz uma média das principais projeções do mercado, as expectativas do mercado para o IPCA caíram pela sexta vez consecutiva e agora estão em 4,47% para o final do ano. Pela primeira vez abaixo da meta em anos.

Além disso, há agora uma boa chance de que as reformas da Previdência e trabalhista, com o apoio da base aliada do governo no Congresso, possam ser aprovadas ainda no primeiro semestre do ano, permitindo um ajuste mais rápido da economia.

Outra boa notícia para o governo foi a decisão na sexta-feira da agência Standard & Poor’s de elevar o rating da Petrobras. A referida agência subiu a nota em escala global e a de crédito individual da estatal. Embora as agências de risco tenham discutível capacidade de previsão, constituem referência básica para captação de empréstimo. A S&P justificou a elevação em função da estratégia da Petrobras de reduzir o endividamento e fortalecer a liquidez. A melhora do rating constitui certamente um alento para a nova direção da Petrobras.

Apesar das enormes dificuldades e crises como a da segurança pública, e naturalmente os desafios do ajuste econômico, o país converge lentamente para uma situação de normalidade. É fundamental acompanhar com atenção como, em meio às vicissitudes do curto prazo, começam a surgir mudanças de caráter estrutural que afetarão a economia do país nas próximas décadas.


Rumo à inflação civilizada
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Gesner Oliveira

Nos últimos meses a inflação vem surpreendendo para baixo. E não por motivos isolados. A queda da inflação está disseminada por toda a economia, e não está concentrada em um item específico. Isso decorre de vários fatores.

No caso dos alimentos, a melhora da condição climática normalizou a oferta de bens agrícolas e levou a inflação para níveis extremamente baixos. Em janeiro a inflação dos alimentos no domicílio subiu apenas 0,17%. Itens como o feijão (-13,58%), batata-inglesa (-8,48%), tomate (-5,83%) seguem em queda. E a perspectiva de uma boa safra agrícola para este ano deve fazer com que os preços dos alimentos sigam bem-comportados em 2017.

Outro fator positivo é a taxa de câmbio que voltou a se acomodar em um nível próximo a R$ 3,10, depois de um susto inicial com a eleição de Trump nos EUA. Um real mais forte reduz a pressão de preços de produtos importados, tanto bens finais para os consumidores, como insumos para a indústria nacional.

Os aparelhos eletrônicos por exemplo, apresentaram deflação pelo quinto mês consecutivo. Agora em janeiro, apresentaram queda de 0,34%, e nesses últimos cinco meses a queda acumulada foi de 3,17%.  Além disso, a recessão econômica tem causado um efeito considerável sobre os preços. O chamado grupo serviços, por exemplo, que tem o salário como um peso importante em sua composição, também segue em descompressão dado o elevado e crescente nível de desemprego. Em janeiro a alta foi de 0,36%, fazendo o índice no acumulado em 2 meses recuar de 6,47% para 6,15%.

Isso não significa que não tenha havido pressão de preços em janeiro. Algumas capitais tiveram reajuste em sua tarifa de ônibus municipal.

A inflação no acumulado em 12 meses até janeiro fechou em 5,35%, convergindo para o centro da meta de 4,5%. E deve fechar 2017 próxima a esta taxa, fato que não acontece desde 2009.

Inflação menor significa maior poder de compra para as famílias, que não têm seu salário corroído pela inflação, aumentando o poder de consumo.

A menor inflação também alonga o horizonte de previsão das empresas, pois torna o ambiente mais previsível. Por fim, e não o menos importante, abre espaço para o Banco Central manter acelerado o ciclo de queda dos juros. Neste ponto reside grande parte da esperança da economia sair do fundo do poço.

Ao que tudo indica, com a aprovação da PEC dos gastos e o avanço da reforma da previdência, é possível que o Brasil esteja entrando em uma nova era. O Plano Real restabeleceu a estabilidade de preços depois de décadas de superinflação. O Governo Temer poderá, se for bem sucedido nas reformas, levar a economia a um patamar civilizado de inflação.