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O brasileiro não pensa naquilo

Gesner Oliveira

08/01/2018 16h51

Mais da metade dos brasileiros não fazem um orçamento doméstico ou familiar, 43% acreditam que "dinheiro existe para ser gasto" e apenas 16,3% já ouviram falar sobre títulos do Tesouro Direto. Estes são alguns dos resultados da pesquisa divulgada hoje pelo Banco Central, em parceria com a Serasa Experian e o Ibope, com dados de 2015.

O estudo revelou o que muita gente já sabia: o brasileiro não tem costume de poupar, não prioriza gastos no longo prazo e entende pouco sobre finanças pessoais. Do total dos entrevistados, 25% avalia seu conhecimento sobre finanças como "fraco" e 9% como "muito fraco".

O dado que mais preocupa é a baixa propensão a poupar do brasileiro. Quase 70% dos entrevistados afirmaram não ter poupado nenhuma parcela da renda recebida nos 12 meses anteriores à pesquisa. Dos que pouparam, 53% guardaram menos de 10% dos recursos. Outros 30% pouparam entre 11% e 20% da renda, enquanto 12% guardaram de 21% a 30%.

O fato de o brasileiro dar pouca importância para o futuro ajuda a explicar esses números. Cerca de um terço "prefere viver o presente e deixar o futuro se resolver sozinho" e mais da metade não possui orçamento doméstico ou familiar. O resultado não poderia ser diferente: pouca poupança, alto endividamento, altas taxas de juros.

Outro fator é o baixo grau de conhecimento sobre finanças. Foram feitas perguntas para avaliar a noção dos entrevistados sobre três conceitos: matemática básica e capacidade de calcular taxa de juros simples e compostos; entendimento de inflação; e entendimento de diversificação de risco.

O grau de acerto das perguntas sobre juros compostos foi de apenas 30%, apenas metade soube fazer contas básicas de juros e principal, e um terço não soube calcular o valor do dinheiro no tempo (que pode mudar e muito!). Temas como diversificação (77%), relação risco e retorno (84%) e direitos do consumidor (92%) registraram graus de acerto maiores.

Considerando a história de superinflação no Brasil, surpreendeu o nível de desconhecimento sobre o tema "inflação", ou aumento no nível de preços: "Imagine que um dos amigos tenha recebido o dinheiro e guardado no seu cofre em casa. Considerando que a inflação é de 5% ao ano, após um ano ele será capaz de comprar: mais, menos ou igual?" Apenas 27% das respostas estavam corretas.

Por fim, chamou atenção a falta de conhecimento sobre alternativas de investimento. Mesmo com o rombo atual na Previdência, apenas 60% já tinham ouvido falar de Previdência privada. E 1,9% está usando! Metade dos brasileiros já ouviu falar de ações, mas apenas 0,4% aplica seu dinheiro nelas. Com rendimentos melhores e riscos até menores que a poupança, títulos de renda fixa como do Tesouro Direto, Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI) só são conhecidos por 16,3% e aplicados por 0,7%.

Há hoje poucos incentivos à poupança no Brasil. A aposentadoria e o FGTS repõem ou superam a renda atual do brasileiro na maior parte dos casos. E os sistemas de saúde e de ensino de graça, apesar de péssimos, desestimulam a poupança.

Além disso, a educação financeira é limitada. O brasileiro normalmente fica na zona de rebaixamento dos exames internacionais de matemática. Muitos currículos escolares têm todo tipo de blá-blá-blá, mas finanças pessoais que poderiam ajudar o cotidiano do aluno e suas famílias ainda passam longe da sala de aula.

É preciso mudar a maneira como o brasileiro trata seu dinheiro. Não adianta pedir só na noite de reveillon. Se não cuidar do dindim o ano inteiro, o bolso fica vazio!

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

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