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O que explica a queda da inflação?

Gesner Oliveira

10/01/2018 15h00

A inflação de dezembro do ano passado, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 0,44%. Isso significa que no acumulado de 2017 o índice fechou em 2,95%, abaixo do piso da meta do Banco Central (BC) de 3% e a menor taxa desde 1998 (1,65%). Em 2016 a inflação havia fechado em 6,29%. Três fatores ajudam a explicar esta queda.

Primeiro, a safra agrícola recorde em 2016/17 fez os preços dos alimentos despencarem. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a produção de grãos superou 230 milhões de toneladas, alta de 28% frente à safra anterior. Quanto maior a oferta, menor os preços. A deflação acumulada no ano dos alimentos foi de 4,9% e, sem os alimentos, o IPCA teria fechado o ano na meta do BC de 4,5%.

Alguns alimentos viram seu preço cair pela metade ao longo do ano passado. Foi o caso do feijão carioca (-53,98%), feijão mulatinho (-53,94%), inhame (-49,55%). Outros itens como mandioquinha (-43,18%), maçã (-25,32%) e açúcar cristal (-24,76%) também ficaram bem mais em conta.

Mas não foram apenas os alimentos que contribuíram para a queda da inflação. Dentre os chamados preços livres, que seguem as condições do mercado, os preços industriais e do setor de serviços também ajudaram. Entre 2013 e 2016, os preços industriais subiam, em média, acima de 5% ao ano. No ano passado aumentaram apenas 1,04%. Já os preços de serviços, que rondavam a casa de 8% de inflação ao ano de 2012 a 2015, tiveram alta de 4,52% em 2017.

Por fim, outro fator que contribuiu para uma inflação bem comportada no ano passado foi a mudança de orientação da equipe econômica. A maior clareza na condução da política de juros e do combate à inflação ajudou a alinhar as expectativas do mercado. Faz diferença quando há sinais claros e críveis por parte do Banco Central. Quanto menos incertezas, menor o ruído na formação das expectativas, melhor para a economia.

Mas nem tudo são flores. Para começar uma inflação baixa não significa preços caindo, apenas subindo pouco. Muitos itens, como no grupo de alimentos, de fato caíram bastante. Mas outros, como os chamados preços administrados, subiram 8% e doeram no bolso do consumidor. Como o IPCA é uma média nacional de preços de diferentes regiões e setores, a taxa de 2,95% não necessariamente reflete o orçamento de cada brasileiro.

Pelo segundo ano seguido, o maior impacto veio dos planos de saúde, que ficaram 13,53% mais caros em 2017, com um efeito de 0,47 ponto percentual no índice final. As tarifas de energia elétrica subiram 10,25% em virtude do patamar mais alto das bandeiras tarifárias no ano passado. Por conta da nova política de reajuste de preços da Petrobras, acompanhando o mercado internacional, o preço da gasolina avançou 10,32% no ano e o do gás de botijão 16%. Reflexos da alta do preço do petróleo, que subiu de cerca de US$ 45 para US$ 60 em 2017.

Conforme afirma o Decreto nº 3.088, de 1999, cabe agora ao presidente do BC divulgar carta aberta com as razões e providências a serem tomadas por não ter cumprido a meta de inflação, uma das principais funções do banco. Mas se trata de um 'bom problema'. A inflação bem comportada reduz incertezas e beneficia toda a economia. Para 2018, a expectativa é que fique em torno de 4%, ainda abaixo do centro da meta. Se confirmada, aumentam as chances do "Feliz 2018".

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

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