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Cenários para a economia em 2018

Gesner Oliveira

11/01/2018 17h24

Já é difícil fazer cenários. A tarefa fica ainda mais espinhosa quando se trata de ano eleitoral e quando o país é o Brasil atual. Mas empresas e famílias não têm opção. Cenários são necessários para tomar decisões como a de construir uma nova fábrica, comprar uma casa ou vender o carro.

A fórmula conhecida é estimar três cenários: base, otimista e pessimista. O PIB pode crescer de 2% a 4% neste ano, a depender das eleições e da reforma da Previdência.

O cenário base considera que tudo continuará caminhando como nos últimos meses. Trata-se do cenário com maior chance de ocorrer. Não contempla a aprovação da reforma da Previdência, mas sim a continuidade da aprovação de reformas estruturais, tanto de cunha fiscal como das privatizações (Eletrobrás) e concessões. Neste cenário base, a economia deve consolidar a recuperação iniciada em 2017 e crescer 3,2% neste ano.

A inflação deve manter-se bem comportada, sem nenhum choque negativo relevante e encerrar 2018 em 4%. Não repetiria a baixa taxa de 2,95% de 2017 porque os preços dos alimentos não vão cair como ocorreu em 2017. Isso permitiria o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reduzir em mais 0,25 ponto percentual em fevereiro para 6,75% ao ano e então manter a taxa estável ao longo do ano.

A taxa de câmbio, apesar da volatilidade esperada, principalmente no período eleitoral, deve permanecer próxima dos R$ 3,20 refletindo o cenário externo relativamente favorável e a folga nas contas externas, refletida nos quase US$ 400 bilhões de reservas internacionais. Por sua vez, o cenário otimista depende principalmente da aprovação da reforma da Previdência, prevista para depois do Carnaval (como tantas outras coisas no Brasil).  Tal fato emitiria sinais positivos ao mercado, à população e ao resto do mundo de que as contas do governo devem se organizar no médio prazo.

Isso teria impacto positivo sobre as expectativas, reforçando a recuperação. Por sua vez, a melhora da economia fortaleceria uma plataforma de continuidade das reformas, criando um círculo virtuoso de recuperação e onda de otimismo. Se este cenário otimista vier a acontecer, haveria uma recuperação mais forte da produção, emprego e investimento.

Em números, o real tenderia a se apreciar, isto é, ficar mais barato em relação ao dólar, em um patamar próximo a R$ 3,00. A inflação ficaria em torno de 3,5% no final de 2018 e a taxa Selic em 6%. Isso significa uma alta de até 4% do PIB neste ano.

Em contraste, no cenário pessimista, tudo pode dar errado. Suponha que a reforma da Previdência não seja aprovada e a agenda de reformas, como a tributária e medidas de ajuste fiscal, fiquem paralisadas no Congresso. E que uma sucessão de impasses políticos alimente ainda mais as tensões entre Judiciário, Legislativo e Executivo. E segundo a Lei de Murphy, se algo pode dar errado, dará. Neste caso, pode até contar com outra surra de 7 x 1 na Copa do mundo.

Neste cenário pessimista, os sinais para a economia seriam os piores possíveis e a tendência seria arrefecer investimento e consumo e consequentemente arrecadação e emprego. Tais circunstâncias não reverteriam imediatamente a recuperação, mas abortariam um novo ciclo de crescimento. A economia chegaria em 2019 sob risco de estagnação.

Isso teria impacto negativo sobre as expectativas e fortaleceria plataformas de candidaturas extremistas que prometeriam uma mudança na política econômica, criando um círculo vicioso de semi-estagnação e piora das expectativas.

O Brasil passaria por mais um de seus voos de galinha. Quando parece que voltará a crescer, pousa novamente. O aumento da aversão e dos prêmios de risco comprometeria o crescimento econômico, principalmente a partir do segundo semestre.

Em números, o dólar ficaria mais caro em reais, em cerca de R$ 3,50, impactando negativamente a inflação, para algo em torno de 5,5%. O Copom por sua vez, seria obrigado a voltar a subir os juros ainda neste ano, terminando na casa dos 8% ao ano. Nesse cenário, o PIB terminaria o ano com alta de 2%, mas com viés de baixa para os anos seguintes.

2018 promete ser um ano de muita volatilidade. O cenário base parece o mais provável (60%), seguido pelo otimista (30%). Infelizmente não é possível descartar o cenário pessimista (10%). Uma boa promessa para este ano seria eleger bem quem pode influenciar este resultado.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira