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Faltou um Plano Real às candidaturas de Temer e Meirelles

Gesner Oliveira

26/03/2018 18h17

A história não se repetiu. A candidatura do Ministro da Fazenda, supostamente baseada em um bom desempenho da economia, não gerou uma candidatura competitiva para presidência, em contraste com aquilo que ocorreu no governo Itamar Franco, com Fernando Henrique Cardoso.

As diferentes circunstâncias da economia ajudam a explicar porque isso não ocorreu. O Plano Real, associado a FHC, representou uma redução generalizada de imposto. Do pior tipo de imposto, o inflacionário. Assim, a súbita queda da taxa de inflação significou um aumento do poder aquisitivo dos assalariados e um forte estímulo à demanda. Ao mesmo tempo, com a estabilização dos preços, abriu-se oportunidade para o crescimento do crédito, potencializando a expansão do consumo.

Isso gerou uma sensação de melhora de bem-estar quase que instantânea e repercutiu favoravelmente sobre a popularidade do presidente e de seu governo.

Em contraste, a herança legada pelos governos Lula e Dilma, colocou um desafio completamente diferente para o governo Temer e para a equipe econômica, sob a liderança de Henrique Meirelles. O enorme desafio era conter a expansão desenfreada dos gastos, resgatar um mínimo de credibilidade para a política econômica e reduzir a taxa de inflação, que no final de 2015 superou dois dígitos.

Diante de tal quadro, o desempenho do Governo Temer, do ponto de vista da economia, foi positivo. Embora incompleto, o programa adotado estabeleceu pela primeira vez um controle de gasto, iniciou uma trajetória de redução do déficit público e obteve notável vitória em relação à queda da inflação, que está hoje em nível inferior a 3% (com a ajuda providencial da safra agrícola recorde de 2016/17).

Além disso, promoveu reformas modernizantes, com destaque para a trabalhista, iniciando o desmonte da estrutura corporativa, anacrônica e de inspiração fascista das relações de trabalho do Brasil. Merece destaque também a virada de jogo na Petrobrás e em outras estatais, assim como a nova lei das estatais, criando melhor governança e mecanismos de prevenção contra a corrupção.

Tal programa está longe de resolver todos os problemas do país, mas foi importante para preparar a economia para um novo ciclo de crescimento. Foi necessário, mas é insuficiente. O Brasil deve crescer mais de 3% em 2018, e a pesquisa Focus projeta uma expansão próxima a esse patamar em 2019. A sensação de melhora na situação econômica é perceptível, porém está longe do boom de consumo da estabilização de preços obtida pelo Plano Real.

Tanto o Plano Real quanto o Plano Temer foram incompletos, mas importantes para o momento que a economia experimentava naqueles momentos históricos específicos. Enquanto o primeiro gerou popularidade e fácil eleição do Ministro da Fazenda, o segundo foi bem menos eficaz no plano político-eleitoral.

A candidatura bem sucedida de FHC na esteira do Plano Real permitiu a eleição de um presidente que daria continuidade à política econômica. Em contraste, as candidaturas de Temer e Meirelles não parecem ter a mesma chance. Pior, dificultam a condução da política econômica já em 2018 ao gerar mais resistência e oposição às medidas indispensáveis para o ajuste da economia.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira