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Violência política é uma ovada na democracia e na economia

Gesner Oliveira

29/03/2018 10h20

O atentado contra a caravana de Lula e a ameaça ao ministro Edson Fachin atentam contra a democracia. É preciso investigar com rigor os fatos e punir com firmeza os culpados. O estado de direito e a economia de mercado dependem de uma justiça forte, imparcial e independente.

Ambos episódios, ocorridos há apenas duas semanas do assassinato da Vereadora Marielle Franco, exigem repúdio inequívoco por todas as forças democráticas e investigação célere e competente.

É preciso apurar, julgar e punir tais atos com firmeza. Em uma democracia, é inadmissível que um grupo político seja alvo de ataques, ou que um ministro do STF seja intimidado, supostamente para alterar as decisões da corte suprema do país.

Infelizmente, o Brasil é tolerante com ataques à democracia. Bloqueio de estradas, invasões criminosas e depredação de espaços públicos e privados têm sido feitas de forma impune.  Quantas vezes o trabalhador não consegue chegar em casa porque há uma via bloqueada por meia dúzia de arruaceiros?

Os episódios de ataques à caravana do Lula, não só os tiros, como as ovadas contra ele ou João Dória em Salvador, ou qualquer outro político, tentam impedir a expressão de uma força política. Isso é inadmissível em uma democracia.

Alguns podem estar se perguntando se essa escalada de violência pode transformar o Brasil em uma nova Venezuela. Felizmente, ainda não chegamos a uma situação tão dramática quanto a daquele país no qual economia e democracia foram destruídas pela versão mais atrasada do populismo bolivariano.

A diferença ainda é grande entre os dois países. O site Numbeo (site aqui), que calcula um índice de criminalidade para uma ampla amostra de países, atribui uma nota de 70,2 para o Brasil, em uma escala de 0 a 100, onde 100 é o lugar mais violento. A Venezuela tem uma nota maior, de 82,5 pontos; a Alemanha, para tomar uma referência de país desenvolvido, tem um índice bem menor, de 36,4.

Tampouco faz sentido comparar a gravidade atual da conjuntura brasileira com a de uma guerra civil ou de uma guerrilha, como ocorreu na Colômbia e em outros países. Obviamente, isso não significa que a atual situação da criminalidade não seja gravíssima. Mas apenas que se trata de um fenômeno distinto.

Embora haja um mito de um país pacífico e cordial, o Brasil sempre foi caracterizado por um país violento, marcado por uma herança de escravidão, esta sim maldita. O banditismo, os linchamentos e a truculência das milícias privadas e da polícia sempre fizeram parte do cotidiano brasileiro.

É evidente que a violência política atrapalha a economia. Ao gerar instabilidade e insegurança jurídica, prejudica o ambiente de negócios. No século XXI, um número decrescente de investidores está disposto a apostar em áreas de conflito. E sem investimento não dá para pensar em crescimento sustentado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira