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O que muda para o Brasil com a guerra comercial entre China e EUA

Gesner Oliveira

03/04/2018 17h07

A guerra comercial entre China e EUA abre oportunidades de curto prazo para o Brasil, mas é uma péssima notícia para o potencial de crescimento do país.

A China cumpriu a ameaça e anunciou novas tarifas sobre 128 produtos dos Estados Unidos, como de carne suína congelada e vinho, ampliando a disputa entre as duas maiores economias do mundo em resposta às tarifas norte-americanas sobre as importações de aço e alumínio. Brasil pode e aproveitar brechas que aparecem na briga entre os grandes.

No Brasil, o segmento de carne suína congelada, por exemplo, poderia expandir vendas para a China. Isso poderia gerar ganhos na balança comercial ainda neste ano. Há várias outras oportunidades; diplomacia comercial e empresários precisam ficar espertos.

Até agora, o Brasil escapou do aumento de alíquotas de importação contra o aço e alumínio. Mas a suspensão provisória do Brasil vai apenas até fins de abril, quando se espera concluir a negociação bilateral com os EUA. É preciso saber quanto vai custar em termos de concessões comerciais em outros setores para escapar em bases permanentes do aumento de tarifas sobre o aço. "Escolhas de Sofia" terão de ser feitas.

Os eventuais ganhos no curto prazo são menores do que as perdas de longo prazo, para o Brasil e para o conjunto da economia mundial. Ações protecionistas como as iniciadas por Trump tendem a gerar uma escalada tarifária. Isso encarece os produtos e inibe a expansão do comércio internacional, fechando avenidas de crescimento para vários países. O protecionismo é um jogo de perde-perde para o mundo.

A reação dos mercados financeiros internacionais à guerra comercial é mais rápida. O mundo das finanças antecipa as perdas do comércio, resultando em queda nas bolsas internacionais e diminuição do valor de mercado de várias empresas.

Mesmo na hipótese otimista de que uma negociação bilateral entre EUA e China venha a eliminar as medidas protecionistas, a economia mundial estará em uma situação inferior. Isso porque a guerra comercial deixa um rastro de incerteza. Investimentos realizados com base no livre comércio estão sendo revistos diante da nova onda de protecionismo. Esta será mais uma força inibidora da expansão global.

Marginal na economia internacional, seria ilusório imaginar que o Brasil poderá ter grande influência para reverter o protecionismo atual. Mas o país pode e deve priorizar acordos regionais de comércio, como o Mercosul e Canadá ou mesmo um acordo com a União Européia.

Quando os obstáculos ao comércio aumentam, a conquista de mercados para produtos é ainda mais difícil. Isso mostra a necessidade de se tornar mais competitivo, isto é, produzir bens e serviços melhores  e mais baratos, exigindo um aumento da produtividade em ritmo maior do que no resto do mundo. Infelizmente, o oposto daquilo que vem ocorrendo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira