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Situação do saneamento brasileiro continua vexatória

Gesner Oliveira

18/04/2018 20h04

Há uma célebre frase do escritor peruano e Prêmio Nobel de literatura de 2010, Mario Vargas Llosa, segundo a qual "o objeto que representa a civilização e o progresso não é  o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica. É a privada".

Por este critério o Brasil anda patinando no caminho da civilização. O saneamento constitui um dos segmentos mais atrasados da infraestrutura brasileira. Trata-se de atraso histórico, que infelizmente não vem sendo diminuído no período recente.

Dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil para os cem municípios mais populosos do país mostram que há uma verdadeira tragédia no saneamento brasileiro. Em 2016, 83,3% da população era abastecida com água potável, o equivalente a dizer que os outros 16,7%, ou 35 milhões de brasileiros, ainda não tinham acesso à rede pública de água.

Cerca de metade da população não tinha acesso à coleta de esgoto em 2016. 48,1%, ou mais de 100 milhões de pessoas, utilizavam medidas alternativas para lidar com os dejetos, seja através de uma fossa ou jogando o esgoto diretamente nos rios.

Apenas 44,9% do esgoto gerado no país era tratado em 2016. O país joga na Natureza nada menos do que 5,2 bilhões de metros cúbicos por anos de esgoto não tratado, equivalente a quase 6.000 piscinas olímpicas de esgoto por dia!

Não bastasse tal crime contra a saúde e o meio ambiente, as perdas de água são obscenas. Não seria exagero afirmar que o maior manancial que o Brasil dispõe não está na Bacia Amazônica. Reside na nossa ineficiência. A redução das perdas de água constitui a fonte mais óbvia e abundante do insumo mais precioso do planeta.

A perda média, envolvendo perdas físicas (vazamentos) e comerciais (como furto), chega a uma média de 38% para o Brasil e de 39% para as 100 maiores cidades.

Há um crescente abismo entre os municípios de melhor e pior situação. Considerando as 100 maiores cidades do país, uma comparação entre as 20 melhores e as 20 piores mostra que o investimento médio anual por habitante nas primeiras foi de R$ 84,55 contra R$ 29,31 nas últimas.

O saneamento deveria ser uma das principais prioridades da política pública. Sua relação direta com a saúde e o meio ambiente precisa ser entendida pela sociedade e seus governantes. Eis uma questão que deveria ser cobrada dos presidenciáveis: colocar o saneamento no centro da agenda da política pública.

 

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira