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Lutas e incertezas do feriadão de primeiro de maio

Gesner Oliveira

01/05/2018 14h35

É feriadão no Brasil e em quase uma centena de países, mas não na América do Norte, onde um pouco mais de um quinto do PIB mundial é produzido. Ironicamente, o primeiro de maio é dedicado à luta dos trabalhadores de Chicago nos EUA que em maio de 1886 foram cruelmente reprimidos por lutar por uma jornada de oito horas. Nessa época, o Brasil ainda era uma monarquia e a escravidão admitida por lei.

Mais de um século depois, o país persiste no atraso e vive um primeiro de maio de incertezas. A primeira em relação a quanto tempo vai durar o drama do desemprego para quase 14 milhões de pessoas, vítimas de uma taxa de desocupação de 13,1% no primeiro trimestre fechado em março. Há uma queda relativamente ao mesmo período do ano passado (13,7%), mas o nível ainda é alto.

A economia está em recuperação, mas para a retomada ganhar força é preciso investimento, tipicamente gerador de empregos. O problema é que os investidores preferem esperar para ver que rumos a política econômica tomará no governo eleito em outubro.

Quanto mais os supostos presidenciáveis esconderem o jogo – ou pior, jogarem para a arquibancada – prometendo o impossível, mais lenta será a queda do desemprego.

A segunda incerteza é a reforma trabalhista que finalmente rompeu com a estrutura sindical corporativista criada durante a ditadura de Getúlio Vargas. Naquele período, os sindicatos foram criados pelo Estado de cima para baixo, dependentes de contribuições obrigatórias dos trabalhadores.

Nos anos setenta, o novo sindicalismo nascido em São Bernardo, e que teve em Lula uma de suas lideranças, parecia romper com a estrutura de inspiração fascista. Este era o espírito do primeiro de maio de 1978 celebrado em meio à greve dos metalúrgicos com uma plataforma mais colada aos interesses dos assalariados e privilegiando a negociação direta entre trabalhadores e empresas.

No entanto, o movimento tomou outros caminhos e se acomodou com a boquinha da contribuição sindical. Preferiu aderir à resistência das corporações de servidores públicos em defesa de privilégios insustentáveis financiados pelo contribuinte.

Pouco a pouco, a homenagem da Internacional Socialista à luta de Chicago se transformou em grandes shows de auditório com sorteio de automóveis. O governo da hora sempre aproveita para anunciar um agrado, como o reajuste de 5,67% do Bolsa Família.

Em vez de combater a reforma trabalhista, gerando insegurança jurídica, o movimento sindical deveria aprofundar as virtudes da nova legislação trabalhista e difundir uma nova cultura de menos contencioso e mais negociação direta.

Maior segurança jurídica nas relações de trabalho é condição para a criação de emprego. Mas a insegurança aumenta quando vários dos presidenciáveis se manifestam contrários  à reforma trabalhista sem explicar as razões e muito menos dizer o que pretendem fazer em seu lugar.

A terceira incerteza está associada às mudanças provocadas pelas novas tecnologias e envelhecimento da população. Um mundo de robôs, inteligência artificial e internet das coisas desafia a todos.

Ao realizar as tarefas fáceis, os robôs poupam capital humano para atividades mais desafiadoras. Isso só será possível com uma mão de obra devidamente qualificada e adaptada às novas tecnologias, algo distante da realidade brasileira atual.

Por sua vez, a tecnologia da saúde aumentou a expectativa de vida,  ampliou o mercado de consumo de idosos, mas ainda não gerou as necessárias adaptações no ambiente de trabalho.

Enquanto no Brasil ainda perdura uma resistência irresponsável à idade mínima para aposentadoria, o desafio global é incorporar com qualidade de vida o trabalho dos idosos. E como criar um novo ciclo de vida profissional, mais longo e equilibrado, envolvendo múltiplos vínculos de emprego e indivíduos que desejam mais de uma profissão.

Nada disso tem sido discutido neste primeiro de maio. Embora seja quase tudo que importa para o mundo do trabalho.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira