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Intervenção do Estado não garante juro baixo. Pelo contrário

Gesner Oliveira

17/05/2018 14h04

O Copom decidiu manter a taxa Selic em 6,50% ao ano, surpreendendo o mercado, que esperava uma redução para 6,25% ao ano. Mas, independentemente disso, chama a atenção do cidadão que qualquer que seja a Selic – 6,5% ou 6,25%  – há uma diferença abismal entre esta taxa que sai nas manchetes dos jornais depois de uma reunião do Copom e os juros cobrados pelos bancos às pessoas físicas e jurídicas.

Muitos fatores explicam a enorme diferença entre a taxa primária dos juros (Selic) e a taxa cobrada ao tomador final. Esta diferença é chamada pelo termo em inglês, spread, que no Brasil é muito elevado.

Mais informação sobre os bons pagadores de um cadastro positivo de crédito e mais concorrência das chamadas fintechs seriam bem-vindas, entre outros fatores, para reduzir o custo do dinheiro para o cidadão.

Mas um dos problemas que merece atenção é o da meia-entrada, algo típico da forma da sociedade brasileira distribuir favores socializando a conta com o conjunto da população. No caso do mercado de crédito, para que alguns tenham juros de pai para filho, com um spread baixo, a outra parte do mercado paga a conta, com juros elevados.

É igual no cinema ou no teatro. Quem paga entrada inteira, na verdade, está pagando uma parte de quem ganhou benefício da meia-entrada. Quanto mais gente ganhar meia entrada, mais caro será o ingresso para os demais pagantes.

Isso também ocorre no problema dos juros. No Brasil, cerca de metade do volume de crédito é direcionado a segmentos que pagam juros subsidiados. Nesses recursos direcionados para pessoa física, a taxa é de 8,1% ao ano. Já para pessoa jurídica, é de 10,52% ao ano.

São números elevados quando comparados com taxas de juros negativas de alguns países maduros, mas parecem toleráveis quando cotejados com os juros siderais amargados por aqueles que "pagam inteira". No chamado mercado livre, a pessoa jurídica paga em média 21% e a física, 57%! Isso sem contar as taxas de mais de 300-400% no rotativo do cartão de crédito ou no cheque especial.

Frequentemente surgem propostas para o governo intervir no mercado para baixar os juros. As experiências no sentido de diminuir o custo do dinheiro por decreto têm sido historicamente desastrosas.

Menor ingerência governamental  mediante uma seleção mais rigorosa de linhas de crédito subsidiado poderia ajudar e atenuar o problema da meia entrada. Menos intervenção do Estado é melhor para o bolso dos mortais que querem tomar um empréstimo para consumir ou investir.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira