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Futebol global, economia caipira

Gesner Oliveira

18/06/2018 16h45

Não tem mais bobo no futebol. Os primeiros resultados da Copa do Mundo revelam isso de forma clara. Argentina, Alemanha e Brasil e quase a França tropeçaram em adversários supostamente "fáceis".

O número de goleadas nas Copas vem caindo sistematicamente ao longo do tempo. Nas seis primeiras Copas do Mundo, 27,14% dos jogos terminaram com goleadas (diferença de três gols ou mais) contra 13,71% nas últimas seis Copas.

É fácil entender porque. Os dribles e estratégias são difundidos rapidamente pelo planeta; o suficiente para um atacante suíço ousar um elástico em um zagueiro brasileiro.

Em contraste, as políticas econômicas nacionais parecem retroceder na globalização da economia. Ironicamente, isso é promovido pela principal nação capitalista, os Estados Unidos. A gestão de Donald Trump promove ataque letal ao comércio multilateral. A imposição de tarifas sobre produtos chinesas, abrangendo universo de cerca de US$ 50 bilhões, ilustra bem esse fato.

Como seria esperado nessa situação, houve uma retaliação imediata por parte da China, que elevou os impostos de importações contra os Estados Unidos na mesma proporção. O impacto para os países emergentes e o Brasil, em particular, pode até ser positivo pontualmente e no curto prazo. Por exemplo, poderia aumentar o espaço de venda de soja brasileira para o mercado chinês.

No entanto, no médio prazo, o protecionismo representa menor volume de comércio e consequentemente menores escalas e maiores custos. Isso resulta em maiores pressões inflacionárias. Na medida em que venha a ocorrer nos Estados Unidos, fica reforçada a tendência à alta dos juros naquele país. Dinheiro mais caro nos Estados Unidos é sinônimo de dólar nas alturas no resto do mundo.

Nesse contexto, as oportunidades de acordos comerciais, para um bloco frágil como o Mercosul, são pequenas. A novela do acordo entre União Europeia e Mercosul voltará à mesa na reunião de cúpula que ocorre hoje em Luque, no Paraguai. Ainda há esperança de arranjos menos ambiciosos com o Canadá e a Coréia do Sul.

Moral da história: há mais razão para se preocupar com a guerra comercial entre Estados Unidos e China do que com o futuro da seleção na Copa. É só não entrar de salto alto que o time passa pelo menos para as oitavas de final.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.

Gesner Oliveira