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Blog do Gesner Oliveira

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Mercado, esta noiva que desistiu do príncipe encantado

Gesner Oliveira

01/10/2018 16h43

Embora ainda possam ocorrer surpresas nesta última semana de campanha eleitoral, o mapa de probabilidades da Numbers Care/GO Associados indica uma chance de 99,2% de Bolsonaro e Haddad disputarem o segundo turno.

A liderança de Bolsonaro nas intenções de voto reportada quase que diariamente pelos diferentes institutos de pesquisa é enganosa. Se os dois turnos da eleição fossem realizados neste momento, Haddad teria 99,2% de chance de suceder Michel Temer, conforme demonstrado pelo sócio da Numbers Care e parceiro da GO Associados, Professor Sergio Wechsler.

A chance de cada candidato vencer a eleição (não apenas o primeiro turno) variou muito ao longo de setembro. Enquanto não estava claro quem seria o candidato do PT, Ciro Gomes foi o principal beneficiário do espaço deixado por Lula.

A candidatura Alckmin foi a principal vítima da facada de Juiz de Fora. Perdeu a vantagem comparativa de tempo de rádio e televisão na medida em que a candidatura Bolsonaro ganhou, por razões óbvias, tempo recorde de mídia espontânea. Além disso, teve de suspender por alguns dias a campanha negativa que vinha fazendo com aparente eficácia contra Bolsonaro.

Na ausência de uma candidatura competitiva no fragmentado centro, Bolsonaro ganhou fôlego e substituiu Alckmin como o candidato que poderia derrotar o PT. O efeito Bolsonaro gerou uma queda do dólar e aumento da Bolsa.

Ironicamente, o primeiro momento de crescimento de Haddad até contribuiu para a maior probabilidade de vitória de Bolsonaro , na medida em que reduziu a chance de Ciro Gomes chegar ao segundo turno.

No entanto, os dados mais recentes confirmaram a hipótese de sólida transferência de votos de Lula para Haddad (algo previsto) e aumento da rejeição de Bolsonaro, tornando-o um candidato com escassa chance de vitória no segundo turno.

A reação do mercado ao efeito Haddad será negativa. Haddad e Bolsonaro estão longe do perfil reformista que agradaria em princípio ao mercado. Mas a noiva desistiu de sonhar com o prícipe encantado. Importa agora saber qual o conteúdo do programa econômico (pró ou contra as reformas) e as condições de governabilidade na próxima administração.

É esperável que as campanhas procurem sinalizar uma aproximação ao centro, talvez já com a indicação de nomes das respectivas equipes econômicas. Assim, o mercado reagirá nos próximos dias a possíveis sinais de que Bolsonaro e Haddad venham a se comprometer com programas de governo mais próximos daquilo que o país precisa para ajustar a economia.

Sobre o autor

Gesner Oliveira é ex-presidente da Sabesp (2006-10), ex-presidente do Cade (1996-2000) e ex-secretário de Acompanhamento Econômico no Ministério da Fazenda (1995) e ex-subsecretário de Política Econômica (1993-95). É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley), sócio da GO Associados, professor de economia da FGV-SP e coordenador do grupo de Economia da Infraestrutura & Soluções Ambientais da FGV. Foi eleito o economista do ano de 2016 pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB).

Sobre o blog

Você entende o que está acontecendo agora na economia? E o impacto que a macroeconomia tem sobre sua vida? Quando o emprego voltará a crescer? Como a economia impacta sobre o meio ambiente? Vale a pena abrir uma franquia? Investir em ações da Petrobras? Este blog se propõe a responder a questões desse tipo de maneira didática, sem economês.